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As cinco forças que podem decidir a eleição (por Gaudêncio Torquato)

Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final separados por pequena distância

27/09/2026 10:00
Reprodução/TV Globo
Lula e Flávio Bolsonaro em sabatina no Jornal Nacional -- Metrópoles

Faltam poucos dias para 4 de outubro, mas a eleição presidencial continua aberta. Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final separados por pequena distância nas pesquisas e unidos por um número incômodo: segundo o Instituto Real Time Big Data, Lula é rejeitado por 50%% dos eleitores e Flávio Bolsonaro por 49%. Quando os principais concorrentes enfrentam resistência tão elevada, a vitória depende também da habilidade de reduzir medos, mobilizar bases e convencer os indecisos de que o adversário representa risco maior.

Cinco forças poderão decidir o pleito. A primeira é a narrativa antissistema. Em períodos de descrença, quem consegue apresentar-se como adversário da velha ordem recebe o voto de protesto, mesmo pertencendo à política tradicional. Flávio tentará vestir esse figurino e associar Lula, o PT, o STF e a burocracia a uma mesma engrenagem de poder. Narrativas não precisam ser inteiramente verdadeiras para produzir efeitos; precisam ser repetidas, compreendidas e sentidas.

Lula não pode competir com Flávio no terreno da ruptura. É presidente e encarna a continuidade. Sua resposta é apresentar o Estado como instrumento de proteção social. Para ele, a palavra-chave não é revolta, mas segurança: renda, comida, gás, luz, emprego e serviços. Confrontam-se duas promessas: a de quebrar o sistema e a de proteger os mais pobres contra as incertezas da vida.

Chegamos à segunda força: a continuidade e a expansão dos programas sociais. Eles chegam à mesa de milhões de famílias. Seu peso cresce no Nordeste, nas periferias e nos municípios menores, onde o Estado é percebido menos pelos discursos de Brasília e mais pelo dinheiro que entra em casa. Lula tentará converter essa capilaridade em voto. Flávio, para neutralizar a vantagem, precisará garantir a manutenção dos benefícios sem reproduzir o modelo petista.

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A terceira força é o reajuste de cerca de 15% no Bolsa Família, anunciado a apenas 17 dias da eleição. O benefício mínimo passa de R$ 600 para R$ 691, e o valor médio estimado, de R$ 675 para R$ 777. O governo afirma que o aumento recompõe a inflação desde a reformulação do programa, em 2023, e que houve espaço fiscal. Politicamente, porém, é impossível separar o calendário do conteúdo. Uma decisão dessa magnitude, às vésperas da votação, projeta a imagem de um governo que entrega ganho concreto quando o eleitor forma sua decisão.

O efeito não é automático. Como os novos pagamentos começam depois do primeiro turno, em 19 de outubro, o governo venderá uma expectativa, não dinheiro já depositado. A oposição explorará o caráter eleitoral, o custo futuro e a sustentabilidade da medida. O reajuste pode reforçar Lula entre beneficiários, mas alimentar, na classe média, a percepção de uso da máquina. A política social funciona melhor quando é vista como direito permanente; perde força quando parece favor de ocasião.

A quarta força é a rejeição. Os 50% atribuídos a Lula e os 49% atribuídos a Flávio pela última pesquisa Real Time Big Data indicam que a eleição poderá ser menos uma escolha entusiasmada do que um julgamento comparativo. Cada campanha procurará vencer pelo medo: da volta do bolsonarismo ou da continuidade do petismo. O desafio será impedir que a própria rejeição ultrapasse a metade do eleitorado. Pequenos deslocamentos entre indecisos, eleitores de candidatos menores e abstencionistas poderão definir quem chegará ao segundo turno em melhores condições — e quem terá o teto mais baixo.

A quinta força é a crise no STF. Ela afeta mais Lula ou Flávio? No primeiro momento, tende a atingir mais Lula. O presidente é identificado com o poder constituído, nomeou Flávio Dino para a Corte e teve no Supremo um anteparo contra o bolsonarismo. Quando ministros se confrontam e suspeitas do caso Banco Master atingem o tribunal, a indignação favorece quem fala contra o sistema. Flávio ganha munição para mobilizar eleitores que já enxergam o STF como ator político, e não apenas como guardião da Constituição.

Mas a crise é uma faca de dois gumes. André Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro, e eventuais vínculos do escândalo com personagens do campo bolsonarista podem desmontar a narrativa de pureza da oposição. Lula tenta atribuir o caso ao ambiente do governo anterior e defender uma apuração geral. Se a crise permanecer como símbolo de arrogância institucional, prejudicará mais o presidente. Se produzir provas contra figuras próximas ao bolsonarismo, poderá ferir Flávio. O impacto dependerá menos do barulho e mais do rumo das investigações.

Em eleições apertadas, não vence necessariamente quem desperta maior admiração. Muitas vezes, vence quem administra melhor a própria rejeição, oferece a segurança mais crível e convence o eleitor de que o outro lado representa o maior perigo. No dia 4 de outubro, a urna poderá registrar menos um voto de amor do que um voto de necessidade, prevenção ou medo.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político