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Blog do Noblat - 22 anos

Bola e petróleo

A guerra e a Copa reorganizam enormes fluxos de capital e ampliam o poder de grandes corporações

11/07/2026 13:21
Hector Vivas - FIFA/FIFA via Getty Images
Imagem colorida mostra Trump e Infantino - Metrópoles

Enquanto mísseis cruzam o céu do Oriente Médio e o preço do petróleo dispara nos mercados internacionais, outro espetáculo mobiliza bilhões de pessoas diante das telas: a Copa do Mundo de 2026. À primeira vista, guerra e futebol parecem pertencer a universos completamente diferentes. Uma produz destruição, mortes e crises humanitárias. A outra reúne torcedores, movimenta paixões e celebra o esporte. Mas basta olhar para o dinheiro para perceber que esses dois mundos têm mais em comum do que imaginamos.

As guerras alteram o preço do petróleo, fortalecem a indústria de defesa, valorizam empresas de logística e reorganizam o comércio mundial. Já a Copa movimenta bilhões de dólares em turismo, publicidade, direitos de transmissão, tecnologia, patrocínios e marketing esportivo. São eventos diferentes, com consequências humanas incomparáveis, mas que compartilham uma característica: ambos reorganizam enormes fluxos de capital e ampliam o poder de grandes corporações.

Essa lógica não é nova. Os megaeventos esportivos deixaram de ser apenas competições para se transformar em grandes plataformas de negócios. Eles impulsionam o mercado imobiliário, aquecem o turismo, fortalecem marcas globais, atraem investimentos e redesenham cidades. Governos costumam justificar esses eventos prometendo empregos, desenvolvimento e legado urbano. Na prática, entretanto, boa parte da conta fica com o setor público.

O conflito entre Estados Unidos e Irã oferece um retrato semelhante, embora muito mais dramático. Durante os momentos de maior tensão, o barril do petróleo Brent aproximou-se dos US$ 120. O transporte marítimo ficou mais caro, os seguros dispararam e as refinarias ampliaram suas margens de lucro. Do outro lado, vieram as perdas. Companhias aéreas enfrentaram aumento nos custos de combustível. Países dependentes da importação de petróleo sofreram com a inflação. Consumidores passaram a pagar mais caro para abastecer seus veículos. E o próprio Irã viu sua capacidade de exportação ser severamente comprometida.

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A guerra destrói. Mata civis, crianças, desumaniza povos. Mas também redistribui riqueza — quase sempre em favor de quem ocupa posições estratégicas na economia global. É justamente aí que a comparação com a Copa faz sentido.

Não porque futebol e guerra sejam equivalentes. Não são. A semelhança está na movimentação de enormes interesses econômicos que reforçam a influência de organizações capazes de transformar acontecimentos globais em oportunidades de negócios.

A edição de 2026 oferece um exemplo particularmente interessante. Pela primeira vez, a realização da Copa coincidiu com uma aproximação explícita entre a Casa Branca e a FIFA entre Donald Trump e Gianni Infantino. A abertura de um escritório da FIFA na Trump Tower e a presença frequente de ambos em eventos oficiais alimentaram debates sobre a independência política da entidade esportiva. A anulação da suspensão do atacante estadunidense Folarin Balogun, expulso na partida contra a Bósnia, é apenas a superfície dessa relação. Essa aproximação revela a forma como política, economia e esporte passaram a caminhar juntos. E remete a governos autoritários que se aproveitaram do esporte para se promoverem.

Talvez essa seja uma das principais marcas do século XXI: os acontecimentos que mais mobilizam emoções — sejam eles uma guerra ou uma final de Copa do Mundo — também costumam ser aqueles que mais movimentam dinheiro. E, como quase sempre acontece na economia global, entender quem comemora e quem paga a conta pode ser tão importante quanto acompanhar Mbappé, Messi, Kane ou Haaland.