Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

Fora da realidade (por André Gustavo Stumpf)

Engana-se quem entende ser a negociação sobre as tarifas exclusivamente técnica. O objetivo não declarado é interferir na eleição de outubro

11/07/2026 11:04
Reprodução
Imagem colorida, charge Trump - Metrópoles

O governo do presidente Donald Trump insiste na política de impor tarifas a produtos estrangeiros negociados no mercado interno dos Estados Unidos. Ele foi desautorizado pelo judiciário de seu país a encarecer produtos do exterior para forçar a substituição de importações. É política antiga e fora do tempo, condenada até por antigos e tradicionais republicanos, como Ronald Reagan que não economizava críticas à elevação de tarifas. Há vídeos dele com tom ácido em relação a este tipo de ação.

Trump, contudo, não hesita em bucar seus objetivos. Proibido de fixar pelo judiciário as tarifas, recorreu ao USTR – United States Trade Representative – para baseado em afirmações falsas taxar produtos de vários países em até 25% sobre seu valor. Anos atrás, quando o Brasil criou a reserva de mercado para a informática, o chefe do USTR apareceu reclamando da excessiva proteção do mercado nacional. Os americanos defendiam, na época, as empresas de informática dos Estados Unidos. Militares brasileiros, unidos a extrema esquerda do parlamento, criaram a reserva de mercado que, no Brasil, resultou em aumento do contrabando de computadores e similares.

A atual negociação seria técnica e diplomática. Conversas em vários níveis baseadas nos números e na realidade de que os Estados Unidos conseguem superavit nas relações comerciais com o Brasil. A taxação, se houver, decorrerá apenas da vontade de Trump de manter a pressão sobre os países que interessam a seu objetivo de manter o poder. Ele ameaça e recua. Já terminou a guerra contra o Irã várias vezes e em outros momentos recomeçou os ataques ao regime de Teerã. Ele não conseguiu, também, acabar a guerra na Europa. Tentou negociar por intermédio de seu amigo Vladimir Putin. Não deu certo porque os russos querem refazer o território da antiga União Soviética, sem recriar o comunismo. Mas esta operação envolve a extinção da Ucrânia. Zelensky não gosta da ideia.

Engana-se quem entende ser a negociação sobre as tarifas exclusivamente técnica. O objetivo não declarado é interferir na eleição de outubro e levar o eleitor a sufragar um candidato de direita, possivelmente Flávio Bolsonaro que não mostra preocupação em buscar o eleitor. Ele comete erros sobre erros e, com sua destemperada ação, prejudica a economia nacional. Trump quer apenas constranger o governo Lula e colocá-lo contra a parede. Nas reuniões da semana passada, em Washington, 34 brasileiros falaram nas reuniões técnicas para discutir o assunto. Só um deles não se posicionou contra as tarifas, Flavio. Todos os outros pediram que não fossem aplicadas aos produtos nacionais.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Grandes empresas dos Estados Unidos trabalham contra a imposição de tarifas cujo resultado, se forem aprovadas, será pago pelo consumidor local. Eles não querem receber a conta. Nas recentes reuniões ocorridas em Washington, 78 entidades e pessoas se manifestaram sobre o tarifaço, brasileiros e norte-americanos. Deste total, 63 se manifestaram contra a medida e apenas 14 a favor delas. A decisão final deve ser anunciada na próxima semana. Mas em tempos de governo Trump nada é definitivo. Ele avança e recua sem nenhuma inibição. E mente à vontade. Ou, de outra maneira, ele cria sua própria realidade.

A popularidade do presidente norte-americano em seu país anda muito baixa. O eleitor médio nos Estados Unidos não se interessa por política internacional ou nacional. Ele se movimenta, apenas, quando seu bolso é atingido. E o petróleo voltou a subir como consequência da retomada do conflito com o Irã. Os americanos entraram numa guerra por sugestão dos israelenses. Agora não sabem como deixar o conflito. Os iranianos demonstraram capacidade de resistir e serem capazes de atingir o inimigo em pontos vitais. Bombardear as bases dos Estados Unidos na região foi resposta inesperada. E o bloqueio do estreito de Ormuz espalhou consequências do conflito por todo o mundo. A guerra deixou de ser assunto local.

A realidade teima em escapar das estreitas abstrações dos grandes líderes mundiais. São pessoas que podem mais do que sabem, conduzidas por egos monumentais. Perderam o contato com a realidade. Deixaram de enxergar necessidades e possibilidades. O caso dos Estados Unidos é preocupante. Os homens que se reuniram na Filadelfia, há 250 anos, durante o verão, com janelas fechadas sob calor escaldante, pretenderam criar um país onde os homens nascem iguais, as oportunidades se oferecem a todos e a concorrência é benvinda. Trump e seus correligionários, extremistas baseados no suposto destino manifesto dos Estados Unidos de liderar o mundo, esqueceram os conceitos fundamentais que resultaram na criação do país formado por imigrantes.