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A Doutrina Monroe (por Gaudèncio Torquato) 

Trump volta com o princípio de 1823 — “América para os americanos” 

atualizado

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Scott Olson/Getty Images
Imagem colorida de Donald Trump e a bandeira dos EUA
1 de 1 Imagem colorida de Donald Trump e a bandeira dos EUA - Foto: Scott Olson/Getty Images

A reativação explícita da Doutrina Monroe que o governo Donald Trump divulgou na semana passada recoloca a América Latina no centro da disputa geopolítica global. Como se recorda, a Doutrina Monroe foi formulada há mais de dois séculos, em 1823, e agora, no governo Trump, deve “retomar” seus princípios no relacionamento com a América Latina. Quando foi criada, a Doutrina Monroe afirmava que qualquer intervenção de potências europeias no hemisfério ocidental seria vista pelos EUA como uma ameaça direta à sua segurança.

A estratégia norte-americana, como ressalta o ex-embaixador do Brasil, em Washington, Rubens Barbosa, “coloca, pela primeira vez, seus interesses no Hemisfério Ocidental, antes da China, da Europa, do Oriente Médio e da África….marcando uma ruptura histórica com a ordem mundial depois de 1945 (O Estado de São Paulo, 9/12/2025).

Ao declarar que o princípio de 1823 — “América para os americanos” — continua vivo, a Casa Branca envia ao mundo um sinal inequívoco: os Estados Unidos não aceitariam rivais estratégicos em seu tradicional espaço de influência. A frase teve repercussões diretas no Brasil, país-chave do hemisfério e maior economia sul-americana. Sob a lógica monroísta renovada, Washington passa a pressionar governos da região para conter a presença chinesa, isolar regimes considerados adversários e reforçar a primazia militar norte-americana no continente.

O impacto sobre a diplomacia brasileira foi imediato. Durante o período 2019–2022, o Brasil aproximou-se fortemente de Washington, adotando um alinhamento quase automático à política externa dos EUA. Esse movimento envolveu apoio ao cerco diplomático à Venezuela, críticas abertas a Cuba e Nicarágua e mudanças de voto em organismos multilaterais. A tradicional postura brasileira — de autonomia, equilíbrio e mediação — cedeu espaço a uma diplomacia ideologizada e hemisférica, com custos para a imagem internacional do país. A lógica monroísta transformou o Brasil de articulador regional em coadjuvante de um projeto estratégico externo.

O ponto mais sensível dessa reaproximação tem sido a disputa entre Estados Unidos e China pela influência no Brasil. Ao considerar a presença chinesa uma ameaça à segurança hemisférica, Trump pressiona Brasília a restringir tecnologia e investimentos asiáticos, especialmente no setor de telecomunicações. A batalha em torno da Huawei e do leilão do 5G exemplificou essa tensão (a “batalha da Huawei no Brasil refere-se principalmente à intensa disputa geopolítica e comercial em torno da implementação da tecnologia e, em menor grau, à saída e recente retorno da venda de smartphones. A principal batalha envolveu a pressão dos Estados Unidos para que o Brasil excluísse a Huawei do fornecimento de equipamentos para as redes de quinta geração, alegando riscos de segurança e espionagem por parte do governo chinês).

Enquanto a ala ideológica do governo defendia o alinhamento automático a Washington, o setor econômico alertava que romper com a China — maior parceira comercial do país — seria um erro monumental. O resultado foi um período de hesitação estratégica que atrasou decisões essenciais e gerou incerteza sobre o rumo da política externa brasileira.

No campo militar, a lógica da Doutrina Monroe incentiva maior aproximação entre forças armadas brasileiras e norte-americanas, com exercícios conjuntos, acordos de defesa e maior presença de autoridades militares dos EUA no debate sobre segurança regional. A retórica de “defesa da democracia hemisférica” reintroduz elementos discursivos da Guerra Fria, sugerindo que o continente deveria, novamente, alinhar-se a Washington em nome da estabilidade. O Brasil, que historicamente tem defendido soluções diplomáticas, passou a adotar um vocabulário de contenção e isolamento política, sobretudo em relação à Venezuela.

Há também um aspecto menos visível, mas fundamental: a geopolítica dos recursos naturais. A Amazônia, o pré-sal, o nióbio e a biodiversidade tornaram-se temas sensíveis em Washington. A reativação da Doutrina Monroe, nesse momento, reforça a percepção de que tais ativos estratégicos deveriam permanecer sob influência norte-americana, especialmente diante da crescente atuação chinesa na região Norte e no setor de energia. Em discursos e relatórios estratégicos, a Amazônia surge novamente como área de interesse global, o que reacende debates sobre soberania e presença estrangeira na região.

Em suma, o impacto da Doutrina Monroe no Brasil é profundo. O país perde autonomia diplomática, aproxima-se excessivamente dos Estados Unidos, tornando-se vulnerável à disputa entre Washington e Pequim e vendo sua capacidade de liderança regional enfraquecer. A América Latina voltou a ser tratada, por parte da Casa Branca, como zona de influência exclusiva. O ex-embaixador, Rubens Barbosa, arremata: “a nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA- quintal, segundo o secretário de guerra, Peter Brian Hegset”.

O Brasil, historicamente defensor de um multilateralismo equilibrado, é empurrado para o jogo da nova Guerra Fria hemisférica. O desafio, agora, é reconstruir uma política externa que recupere a autonomia estratégica, restabeleça pontes com diferentes blocos de poder e reconheça a nova realidade global, marcada pela multipolaridade. O Brasil não pode se limitar ao papel de espectador ou satélite. Precisa voltar a ser protagonista — e isso exige uma diplomacia capaz de dialogar com Estados Unidos, China, Europa e América Latina sem subordinação, mas com visão estratégica e senso de futuro.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor-emérito da ECA-USP e consultor político

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