8 de março com Diana

Paulo encontrou a filósofa e escritora Djamila Ribeiro em uma livraria

atualizado

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Matheus Veloso/Metrópoles
Coletivo Juntas organizou manifestação na UnB com o intuito de reivindicar mais segurança às mulheres e repudiar a violência na instituição, após estudante ser estuprada no Campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte. Na foto, alunas marcham com cartazes em repúdio à violência e machismo - Metrópoles
1 de 1 Coletivo Juntas organizou manifestação na UnB com o intuito de reivindicar mais segurança às mulheres e repudiar a violência na instituição, após estudante ser estuprada no Campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte. Na foto, alunas marcham com cartazes em repúdio à violência e machismo - Metrópoles - Foto: Matheus Veloso/Metrópoles

Uma escuridão suave já começava a dominar a cidade quando Paulo olhou as mensagens no Whatsapp. Era uma desculpa pra descansar, passou o dia pintando as paredes e ajeitando os móveis na casa nova de Diana, sua prima. Ficou surpreso ao perceber as poucas mensagens sobre o Dia da Mulher. Um Feliz Dia das Guerreiras aqui, outro Parabéns Mulheres Maravilhosas acolá. Eram minguadas mensagens, cada uma delas sem resposta, ilhadas em grupos de familiares. Será que a hipocrisia morreu?

Casa nova é sinônimo do quê? Esperança, recomeço. A mudança de Diana exalava luto,  arrastava um pesar, uma tristeza forçada pela violência de seu ex-marido. Ela tinha medida protetiva, ele não podia chegar perto dela, nem podia chegar perto da casa da mãe dela. Mas o que vale? Em uma noite de dezembro encurralou Diana e Nelson, seu novo namorado, em um bar. Com um revólver feriu Diana e assassinou Nelson. O ex-marido? Está foragido.

Insistiu muitas vezes, mas Diana decidiu que seu quarto seria cinza. Paulo queria cores alegres e claras para o apartamento, conseguiu um amarelo para a sala, cozinha e banheiro brancos, mas não teve jeito, “Vai ser cinza como a minha vida”, definiu a mulher e seu olhar inconsolável.

Paulo decidiu acompanhar essa jornada de Diana. Via as notícias nos jornais, mas foi a primeira vez que a violência contra a mulher o desmoronava. Estava em casa com Luana, sua esposa, quando recebeu a notícia. Xingou, amaldiçoou, ameaçou. Luana só olhava. Ao silenciar, ela apenas disse: “Você e seus amigos, todos vocês são cúmplices desse assassinato. Quando a gente disse que ele não prestava, ninguém fez nada; quando ele bateu na Diana, ninguém fez nada. Ninguém a protegeu. Taí. Fica rindo de piada machista agora”. Essa lembrança o atravessava. Avisou a prima que desceria no boteco para pegar uma bebida e um cigarro.

O boteco estava fechado. Reclamou e andou até a padaria chique do outro bairro, a seis quarteirões. Mais que bebida e cigarro, precisava andar, precisava entender seus sentimentos, precisava ajustar a bússola. Ao passar por uma pequena livraria, que só vendia autoras, viu a filósofa e escritora Djamila Ribeiro folheando um livro enquanto conversava com um homem. Parou. Entrou.

Não teve coragem de falar com ela, então fingiu ler um livro enquanto escutava a conversa deles. O homem branco lembrou que uma em cada cinco mulheres assassinadas em São Paulo tinha medida protetiva. Djamila respondeu: “Quando uma mulher sob medida protetiva é assassinada, a falha sistêmica é evidente. Pedidos de medidas protetivas cresceram quase 1.000% em dez anos. Mas, quando o Judiciário concede essas medidas e não assegura sua execução, a vítima é “traída” por quem deveria protegê-la, uma vez que decisões sem monitoramento agravam o risco. O agressor pode se sentir desafiado, radicalizar a conduta e agir sob lógica de retaliação, disposto a arrastar consigo vidas inteiras”. Paulo concordou com a cabeça enquanto fingia ler “Por um feminismo Afro-latino-americano”, de Lélia Gonzalez.

Ela continuou: “E sabe o que é pior? Os homens que se irritam por serem lembrados de que mulheres seguem sendo mortas todos os dias, em todas as regiões do país.  Ainda assim, enxergo essa irritação por um lado positivo: ela revela tanto o incômodo de quem prefere o silêncio, quanto a eficácia de insistirmos em nomear o que parte da sociedade tenta naturalizar ou empurrar para debaixo do tapete”.

O homem falou sobre os limites da Justiça, da polícia e não via como a defesa da vida das mulheres se transformaria em política de Segurança Pública. Djamila discordou: “estamos há anos defendendo a reorganização das prioridades da Segurança. É inadiável fortalecer o combate à violência contra as mulheres e reconhecer o esgotamento histórico da guerra às drogas, responsável pelo encarceramento em massa. Uma hipótese é a redução de decisões de prisão em casos de tráfico — estou falando do varejo, pois, para os grandes operadores, a tolerância sempre foi regra. Ao mesmo tempo se impõe a necessidade de ampliar a prisão de agressores de mulheres e autores de feminicídio”

Os dois caminharam em direção ao café. Paulo não os seguiu. Tinha nas mãos um livro de Conceição Evaristo. Leu e releu um trecho de Vozes-Mulheres:

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome.

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

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