Tendência “cigarrete girl” gera debates sobre romantização do cigarro
A tendência “cigarette girl” ressurge associada a um ideal de comportamento “cool”, mas também levanta debate sobre os riscos à saúde
atualizado
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Quem costuma navegar por plataformas como TikTok e Pinterest já deve ter se deparado com hashtags como #cigarettegirl e #smokepose. Imagens de artistas e influenciadoras, como Hailey Bieber e Kylie Jenner, posando com cigarros voltaram a circular nas redes como símbolos de rebeldia, melancolia e sensualidade.
Ao que tudo indica, essa estética ressurge associada a um ideal de comportamento “cool” e nostálgico, o que reacende debates sobre os impactos da romantização do cigarro.
Enquanto campanhas antitabagismo crescem, o número de adultos fumantes voltou a crescer.
Dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel) mostram que a taxa de fumantes voltou a subir de 9,3% para 11,6%. Em relação aos jovens, o consumo do tabaco ganhou ainda mais força com a popularização dos cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes ou pods.
Influência emocional
Para a psicóloga Mariana Ramos, o retorno de tendências como a #cigarettegirl nas redes sociais tem relação com algo muito maior do que o cigarro em si: a necessidade humana de pertencimento, identidade e validação social.
“Em diferentes épocas, determinados comportamentos passam a ser associados a ideias de charme, liberdade, sensualidade, mistério ou rebeldia. No contexto digital atual, imagens esteticamente produzidas têm um enorme poder de influência emocional, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, que ainda estão construindo sua identidade psíquica e social”, explica.

Segundo Mariana, é importante compreender que o ser humano não se conecta apenas com objetos ou comportamentos, mas com os significados simbólicos atribuídos a eles. O cigarro, por exemplo, foi utilizado pela mídia, pelo cinema e pela publicidade como um símbolo de autonomia, sofisticação, poder e até sedução durante muitos antes.
Embora tenhamos avançado muito nas campanhas de conscientização sobre os danos do tabagismo, as redes sociais frequentemente resgatam elementos visuais do passado e os transformam em tendência estética, muitas vezes desconectando a imagem das consequências reais.
Mariana Ramos
Riscos da tendência
Ao se deparar com conteúdos romantizando o ato de fumar, a professora de psicologia na Afya Centro Universitário Itaperuna explica que existe o risco da banalização de um comportamento nocivo à saúde física e mental. O tema é especialmente delicado na adolescência, fase marcada por intensa busca de experimentação e necessidade de aceitação grupal.
“O jovem tende a absorver referências culturais de forma emocional antes mesmo de elaborar racionalmente os riscos envolvidos.”
Além disso, o cérebro adolescente apresenta características neurobiológicas específicas: áreas relacionadas à impulsividade, recompensa imediata e busca por novidade estão muito ativas, enquanto regiões ligadas à avaliação de consequências ainda estão em amadurecimento.
“Em um cenário de aumento da ansiedade, solidão e insegurança, algumas pessoas podem buscar no cigarro uma sensação de pertencimento, alívio ou identidade. Inicialmente parece controle ou liberdade, mas pode se transformar em dependência física e emocional”, ressalta Mariana.

Quais referências queremos fortalecer para as próximas gerações?
De acordo com a psicóloga Mariana Ramos, socialmente, houve um longo processo de conscientização coletiva sobre os impactos do tabagismo. Quando hábitos comprovadamente prejudiciais voltam a ser tratados como elementos de estética ou status social, existe um enfraquecimento simbólico desse processo educativo.
Porém, isso não significa demonizar pessoas que fumam, culpabilizar jovens ou negar a complexidade do comportamento humano.
“Pelo contrário, a psicologia nos ensina que compreender é mais eficaz do que julgar. Precisamos promover educação emocional, pensamento crítico e espaços de diálogo onde adolescentes e adultos possam refletir sobre influência social, autoestima, pertencimento e saúde mental.
Além disso, vale ressaltar: o que é bonito nas redes nem sempre é saudável na vida real.
“Em tempos em que tendências digitais moldam comportamentos rapidamente, talvez a grande reflexão seja: o que estamos romantizando sem perceber as consequências? E mais importante: quais referências queremos fortalecer para as próximas gerações?”, finaliza a expert.











