Homem tem sétima filha aos 91 anos; médico revela se há riscos ao bebê
Médico explica até quando o homem pode ser fértil e quais os impactos da idade paterna avançada para o bebê
atualizado
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Aos 91 anos, o francês Pierre Sablé comemorou o nascimento da sétima filha, Louisa Maria, fruto do relacionamento com a mulher de 39 anos. Pai de seis meninas com mães diferentes, ele afirma não se preocupar com críticas e atribui a vitalidade à prática esportiva. “Sou o único que corre, que pratica trail running. Trabalho como se tivesse 20 anos a menos”, disse ao jornal Le Parisien. O caso chama atenção e levanta uma questão recorrente: até que ponto a idade interfere na fertilidade masculina — e quais são os riscos de ter filhos em idade avançada? Um médico elucidou a questão à editoria de Vida&Estilo.
Entenda
- Homens produzem espermatozoides a vida toda, mas a qualidade cai com a idade.
- A fragmentação do DNA aumenta, elevando o risco de abortamento e embriões de pior qualidade.
- Há maior chance de alterações cromossômicas e epigenéticas, incluindo associação com transtornos do espectro autista.
- Impactos na gestação são controversos, mas a idade pode afetar também a função sexual masculina.
Fertilidade é mantida, mas qualidade dos espermatozóides cai
Segundo Roberto Antunes, especialista em reprodução assistida e presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), o testículo funciona como uma “fábrica” de espermatozoides ao longo de toda a vida.
“Enquanto o testículo estiver funcionando, o homem mantém em algum grau sua fertilidade”, explica.
Diferentemente das mulheres — que já nascem com todos os óvulos que terão ao longo da vida —, os homens renovam continuamente seus espermatozoides. No entanto, com o envelhecimento, essa produção perde desempenho.
Ainda de acordo com o médico, há redução da concentração e da motilidade dos espermatozoides, diminuição do volume do sêmen e maior risco de alterações na divisão celular, o que pode comprometer a formação cromossômica adequada.
“A deterioração é mais lenta do que ocorre no sistema reprodutivo feminino, mas é progressiva.”

DNA mais vulnerável
Um dos principais pontos de atenção é o aumento da chamada fragmentação do DNA espermático.
Embora o termo sugira “quebra” acumulada, o fenômeno está mais relacionado ao estresse oxidativo que atinge o material genético. Quanto maior esse estresse, pior tende a ser o desempenho reprodutivo.
Na prática, segundo Roberto, isso significa maior probabilidade de formação de embriões com qualidade inferior e aumento do risco de abortamento espontâneo.
Riscos genéticos e epigenéticos
De acordo com o médico, a idade paterna avançada também está associada a um crescimento — ainda que mais suave do que no caso feminino — no risco de alterações cromossômicas nos embriões, como erros no número de cromossomos.
Além disso, estudos apontam relação causal entre idade paterna avançada e maior risco de transtornos do espectro autista. Nesse caso, o mecanismo mais provável não envolve mutações diretas, mas alterações epigenéticas — modificações químicas, como metilações, que ativam ou silenciam genes durante a formação dos espermatozoides.

Efeitos na gestação e na vida sexual
As evidências científicas sobre impactos diretos da idade paterna em desfechos como parto prematuro ou peso do bebê ao nascer são consideradas controversas e não apresentam associação forte na literatura.
Por outro lado, segundo o especialista, o envelhecimento também pode afetar a função sexual masculina — como a capacidade de manter ereção ou ejacular — o que influencia a chance de concepção, independentemente da qualidade dos espermatozoides.

Casos excepcionais existem
Situações como a de Pierre Sablé são raras, mas biologicamente possíveis. “Se houver ejaculação com espermatozoides viáveis, ainda existe a chance de gravidez, mesmo em idades muito avançadas”, afirma o especialista.
A fertilidade masculina, portanto, não tem um “prazo de validade” tão definido quanto a feminina. Mas, embora a fábrica não feche as portas, o tempo impõe limites — e riscos — que precisam entrar na conta quando a paternidade é adiada por décadas.
