Comida que cura. Médico vem a Brasília ensinar sobre alimentação viva

Alberto Peribanez Gonzalez deixou para trás anos de pesquisas em microcirculação para descobrir mais sobre alimentos funcionais

atualizado 21/10/2017 6:13

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O médico Alberto Peribanez Gonzalez acredita que uma alimentação correta, baseada em plantas, é capaz ter o mesmo efeito dos remédios em algumas doenças crônicas. Um suco verde bem feito, com maçã, pepino, couve e chicória, uma bela salada no almoço e frutas durante o dia, se ingeridos com frequência, são capazes de equilibrar o corpo suficientemente para abandonar de vez medicações para hipertensão, por exemplo. Tudo isso sem retirar do cardápio, ocasionalmente, uma picanha ou um pedaço de bolo.

Vindo de um passado acadêmico, com pesquisas em microcirculação na Alemanha, Alberto descobriu quase sem querer a alimentação viva. Aprendeu como as frutas e legumes agem no corpo, nas bactérias e nas doenças crônicas e, com olhar apurado, percebeu uma ciência complexa nos alimentos.

Desde que deixou para trás os laboratórios, o médico acredita que a cozinha funciona quase da mesma maneira. Depois de lançar o livro “Lugar de médico é na cozinha”, Alberto vem à Brasília promover seu novo trabalho, “Cirurgia Verde”, no sábado (21/10), às 16h na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi.

Neste volume (ele diz ser quase uma apostila), o médico ensina os detalhes de seu método. O leitor poderá aprender como funcionam os pormenores do organismo e entender a importância da alimentação.

Antes da conversa no fim de semana, o médico explicou ao Metrópoles alguns detalhes de seu método. Confira:

Como foi a transição de pesquisador na Alemanha para médico que trata doenças com mudanças na alimentação no interior de São Paulo?

Fiz universidade em Brasília, me formei em 1985. Depois, fiz a residência em cirurgia geral e trabalhei nos hospitais de Taguatinga e Ceilândia. Ganhei uma bolsa de estudos para a Alemanha e, chegando lá, queria aprender sobre cirurgia de transplante. Foram quatro anos seguidos de trabalho estudando a microcirculação e 120 publicações em algumas das revistas científicas mais importantes do mundo.

Quando voltei para o Brasil, fui trabalhar em um laboratório de pesquisa da Fio Cruz. Lá, dentro da Escola Nacional de Saúde Pública, conheci a ‘Terrapia’ (espaço de referência em Alimentação Viva, que passou a integrar os Programas Fiocruz Saudável em 2015). Vi pessoas preparando sucos verdes, pratos veganos, saladas e mandalas de alimentos. Era tudo muito colorido, muito festivo. Olhei aquilo com encantamento, como qualquer um vê.

Mas meu olhar de pesquisador percebeu que, por baixo daquela baixa tecnologia da cozinha, existia uma alta complexidade científica naqueles ingredientes. Foi quando fiz minha grande transição. Não mudei de um tipo de médico para outro, fiz uma mudança científica. Saí de um patamar no qual eu debatia com laureados do Prêmio Nobel de Medicina, e hoje eu me enxergo na frente mais aguda da pesquisa científica, que é a alimentação funcional e sua aplicação clínica. Como o alimento funcional pode vir não só a prevenir, mas também reverter doenças. A palavra ‘reverter’ é perigosa, ela tem um impacto, significa tratar com sucesso, reduzir ao máximo a quantidade de medicamentos que o paciente está usando.

Como é sua rotina hoje? Como funciona seu atendimento?

Eu me sinto de volta ao laboratório quando estou na cozinha. A experiência agora é: como eu vou conseguir fazer um sorvete que não tem açúcar e gordura hidrogenada, mas atenda a todas as necessidades nutricionais de uma pessoa, e com benefícios? Eu não gosto de denominar meu trabalho como clínica, mas o foco é clínica médica. Atendemos pessoas com doenças crônicas: hipertensão, diabetes, obesidade, colesterol alto, doenças inflamatórias em geral, depressão.

As pessoas vêm, passam um ou dois dias aprendendo técnicas culinárias. O centro da atividade é cozinha. Ninguém sai dos nossos encontros sem ter sido treinado individualmente. Aprendem a usar desidratador, liquidificadores diferentes, técnicas de cozinha (cozimento químico, prensagem). Queremos que parem de usar o micro ondas, o amido, açúcar, carnes e laticínios em excesso, as comidas congeladas. A parte teórica fica por minha conta. Não sou mais um médico que senta na mesa e escreve uma prescrição para o paciente. Dou uma aula sobre microcirculação. Tudo o que eu passo para eles está no Cirurgia Verde: é quase uma apostila para quem quer aprender como funcionam as bases fisiológicas do seu corpo.

 

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Como é a dieta?

A alimentação baseada em plantas tem origem no maior estudo de nutrição já realizado na história e que aconteceu na transição do século 20 para o 21. Foram estudados 6500 pacientes na China e 6500 nos Estados Unidos, e os cientistas compararam a vida e a alimentação dessas pessoas. O padrão alimentar do americano é cheio de carne processada, gordura hidrogenada, laticínios — o que acabou se difundindo é se tornando o padrão do Brasil agora.

Temos uma alimentação cheia de frituras, doces e comidas congeladas. Já o padrão do chinês é um prato de arroz com vegetais e alguma gordura (normalmente óleo de gergelim), um pedacinho de carne de porco. Sem querer, querendo, eles desenvolveram um padrão alimentar excelente, com taxas de colesterol invejáveis. A partir deste estudo surgiu uma geração de médicos de alto nível que está discutindo o padrão alimentar americano.

A dieta ideal, que pregamos, tem uma personalidade. Para entender o que ela é, pense em não tirar comida da embalagem, comece a descascar. Falamos de vegetais que estão com suas fibras completas, o valor antioxidante e energético preservado. A alimentação viva trata de vegetais crus, e é uma parte dessa alimentação. Completamos com cereais e leguminosas cozidos, e alguns legumes levemente cozidos.

A suplementação de proteína é muito cultural. O paciente fala que não pode parar de comer carne. A nossa nutricionista vai desenhar então uma alimentação baseada em plantas na qual ele vai ter uma quantidade de carne distribuída ao longo da semana, de maneira que não interfira no plano alimentar. Se ele for na casa da avó, precisa poder comer o bolo de fubá que só ela faz. Deve ser uma alimentação que dê segurança, saúde e prazer.

O que é o leite da terra?

É, basicamente, um suco verde com lactobacilos. Embora as pessoas não saibam, é um bacilo que também está na terra e ajuda no crescimento das plantas. Quando batemos um tanto de couve, chicória, com maçã e pepino, é um suco verde — eu chamo de leite da terra porque, dentro dele, há um profundo impacto na probiótica, a microbiota intestinal.

Quem bebe suco verde todos os dias tem tendência a ter um tipo bacteriano predominante no intestino, e isso muda tudo. Dependendo da bactéria que vive no seu intestino, você vai ter um caminho aberto para a saúde ou para a doença. São essas bactérias que vão decidir os neurotransmissores do seu cérebro, quanto colesterol você vai ter no seu plasma.

Sugiro que o leitor faça um teste com bebês de mais de seis meses: bata um suco verde com maçã, chicória, pouco pepino, e as folhas que você tiver. Pode colocar até uma pitadinha de gengibre. Coe, coloque em um copo de vidro grosso e dê para o bebê. Ele vai pegar o copo com as duas mãos e vai beber até a última gota, ele vai sugar aquilo como se fosse leite da mãe.

Por instinto, ele percebe que é uma bebida adaptada para o que ele precisa. Eu sou pai, eu vi crianças crescendo e a diferença clínica dessa criança que bebe suco verde frequentemente é que bronquite, asma, sinusite, gripes recorrentes, amigdalite, dores abdominais, alergias e erupções dérmicas são eliminadas. É quase um antídoto, uma vacina.

Como os pacientes percebem os benefícios dessa nova dieta?

Estamos criando um laboratório onde os pacientes vão receber uma cesta de orgânicos por semana. A equipe médica vai acompanhando e verifica se a pressão arterial está caindo, então é hora de diminuir a dose do remédio. Sintomas inflamatórios estão diminuindo? Tire o corticoide. Vamos desmamando as pessoas da medicação alopática que elas vêm tomando de forma crônica. O papel do médico nessa fase é conhecer a alopatia para poder retirá-la.

Os benefícios são incalculáveis. Quando a pessoa adota isso, ela naturalmente passa a tomar menos remédios, começa a ter práticas aeróbicas. Eles entram em um “trem da alegria”, onde enxergam que tudo começa a ir para uma direção que as coisas dão certo. Investem em tênis para corrida, se alongam todos os dias, aprendem receitas. Hoje, se eu tenho 21 pacientes e 20 deles reduz 90% da medicação, eu já considero um sucesso impactante. E 100% está feliz com essa nova forma de viver.

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