Médicos afirmam que é possível erradicar o câncer de colo de útero

Segundo levantamento, exames preventivos do câncer de colo de útero deixaram de ser feitos por falta de orientação (14%) e vergonha (13%)

atualizado 03/02/2022 21:08

Science Photo Library/GettyImages

Responsável pela morte de mais de 6 mil brasileiras por ano, o câncer de colo de útero é visto como uma das doenças mais desiguais do mundo. Porém, segundo especialistas da Fundação do Câncer, a condição pode ser erradicada por meio da vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV). Nessa quinta-feira (3/2), a organização divulgou uma pesquisa analisando como a população se previne contra a doença e a qualidade da informação sobre esse tipo de câncer.

O epidemiologista Alfredo Scaff, coordenador da Fundação do Câncer, explica que a desigualdade e a desinformação sobre o câncer de colo do útero têm um caráter específico, já que há vacina contra a doença. O médico comenta que 99% dos casos da neoplasia são causados pelo HPV.

Segundo ele, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) mostram que o câncer de colo de útero pode ser erradicado. Por isso, o epidemiologista ressalta que o objetivo deve ser “diminuir os buracos que existem nos cuidados desse câncer no mundo e no Brasil”, porque existe uma diferença muito grande em relação ao tratamento entre as regiões do país e a classe social do paciente.

A pesquisa foi realizada devido ao Dia Mundial de Combate ao Câncer, que é lembrado nesta sexta-feira (4/2), e avaliou dados de 52 estudos já publicados. Ao todo, informações de quase 55 mil mulheres foram investigadas, e os resultados apontam para 0 desconhecimento da doença (40%) e práticas inadequadas de prevenção e cuidado (71%).

De acordo com o levantamento da Fundação do Câncer, cerca de 45% das mulheres que nunca realizaram o exame preventivo da doença dizem não achar o procedimento necessário.

Desinformação

O estudo indica que outros motivos para a não realização de procedimentos preventivos entre as mulheres foram a falta de orientação (14,8%) e vergonha (13,1 %). Flávia Miranda Corrêa, pesquisadora da Fundação do Câncer e autora do estudo, afirma que outro grande problema é que as crianças e os adolescentes não sabem muito a respeito do câncer de colo de útero.

A investigação ouviu 7.712 crianças e adolescentes com idades entre 10 e 19 anos. Nesse grupo, 82% acreditavam que a vacina previne outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), e entre 26% e 37% das jovens entrevistadas não sabiam que a vacina previne o câncer de colo de útero. Além disso, entre 53% e 76% não sabiam que o imunizante evita o aparecimento de verrugas causadas pelo HPV.

“Isso é um perigo. Precisamos esclarecer que a vacina tem a função específica de evitar os danos do HPV: verrugas, lesões precursoras e o próprio câncer de colo de útero. Doenças como sífilis e demais ISTs, além do contágio por HIV,  não estão contempladas nessa imunização”, alerta a médica.

A análise da Fundação do Câncer concluiu ainda que “baixa renda, menor escolaridade, cor da pele parda ou negra, e residência em áreas urbanas pobres e rurais estão mais associadas ao conhecimento insatisfatório e a práticas equivocadas referentes à vacinação contra HPV e ao rastreamento do câncer do colo do útero, o que reforça a importância da luta contra a iniquidade”.

O levantamento identificou dados de 3.335 adultos e descobriu que a visão dos pais e responsáveis também demonstra o mesmo problema de desinformação. No grupo, 17% disseram não saber que a vacina previne câncer de colo do útero, 20% achavam que o imunizante poderia ser prejudicial à saúde e 22% achavam que a vacina poderia incentivar a iniciação sexual precoce dos filhos.

Importância da vacina

A vacina é segura. Está no mercado desde 2006 e milhões de pessoas já foram vacinadas. É um fato consolidado que os imunizantes são seguros, e achar que isso não é verdade pode ser um impeditivo muito grande para as crianças e os adolescentes. É um mito que temos de combater”, contou Corrêa, em entrevista coletiva nessa quinta-feira (3/2). Ela ressalta que a vacina é aplicada em duas doses com intervalo de 6 meses.

Segundo a pesquisadora, recomenda-se que a aplicação seja feita em meninas de 9 a 14 anos e meninos com idades entre 11 e 14 anos. “O imunizante só é totalmente eficaz se não houver contato preexistente com os tipos de HPV presentes na vacina. Por isso, indicamos que ocorra antes do início da vida sexual”, explica a médica.

A especialista alerta para a necessidade de também imunizar os meninos. A proteção deles não ajudaria apenas a conter os casos de colo de útero entre as mulheres, mas também a diminuir as infecções por HPV, que podem estar associadas ao câncer de pênis, por exemplo.

Diferenças regionais

A pesquisa aponta que o câncer de colo de útero tem enormes diferenças regionais, sendo os estados da Região Norte os primeiros colocados em quantidade de casos da doença. Segundo os especialistas, as principais justificativas para a prevalência nessa região são as dificuldades no acesso a informações, à vacinação, e em exames de rastreamento.

“É algo inaceitável, já que vacina e exame preventivo ajudam a evitar a doença e estão disponíveis gratuitamente no SUS. Isso já é uma desigualdade extrema e injusta, e é para estas iniquidades na oncologia que pedimos atenção”, destaca Luiz Augusto Maltoni, diretor-executivo da Fundação do Câncer.

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