Ibogaína: apesar das promessas, eficácia permanece cercada de dúvidas

Pesquisas indicam que planta pode reduzir fissura e sintomas de abstinência, porém faltam ensaios clínicos robustos para comprovar eficácia

atualizado

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Reprodução/ Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto Universidade de São Paulo
Foto colorida de arbusto da planta africana Tabernanthe iboga, de onde é extraída a substância ibogaína - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de arbusto da planta africana Tabernanthe iboga, de onde é extraída a substância ibogaína - Metrópoles - Foto: <p>Reprodução/<br /> Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto<br /> Universidade de São Paulo</p><div class="m-banner-wrap m-banner-rectangle m-publicity-content-middle"><div id="div-gpt-ad-geral-quadrado-1"></div></div>

Você já ouviu falar em ibogaína? Extraída das raízes do arbusto iboga (Tabernanthe iboga), espécie típica das florestas tropicais da África Central, trata-se de uma substância alcaloide psicodélica. Desde a década de 1960, tem sido estudada por propriedades terapêuticas que, se comprovadas, podem auxiliar na recuperação de casos de dependência química, estresse pós-traumático e depressão.

No final de abril deste ano, o composto ganhou destaque após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinar uma ordem que libera financiamento para pesquisas sobre a ibogaína e acelera o processo de análise regulatória para a condução de ensaios clínicos. A medida representa a maior abertura do país aos psicodélicos desde o início da “guerra às drogas”, nos anos 1970, e ainda cria margem para a obtenção de dados robustos que podem favorecer pesquisas em todo o mundo.

“O Brasil tem uma tradição importante em estudos com substâncias psicodélicas. Há alguns anos, começaram os estudos com ibogaína por aqui e já temos uma produção nacional relevante”, relata o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, professor da graduação em Medicina do Ensino Einstein. “No entanto, as evidências que temos sobre sua eficácia terapêutica ainda são poucas e limitadas aos resultados de estudos observacionais ou relatos de caso.”

Esse tipo de pesquisa serve como um primeiro indício de que o composto pode funcionar com fins terapêuticos para algumas pessoas. A partir daí, investigações mais complexas, como os ensaios clínicos, são necessárias para comprovar a eficácia do tratamento. O problema é que essa metodologia é difícil de se aplicar quando se trata de psicodélicos.

Em geral, um ensaio clínico conta com comparação randomizada cega. Nela, nem a pessoa que recebeu a substância nem o pesquisador que a administrou sabem quem recebeu o placebo ou o medicamento. Com os psicodélicos, porém, os efeitos ficam muito evidentes e, na maioria das vezes, ambas as partes conseguem diferenciar o que elas tomaram.

Isso provoca um grande impasse nas pesquisas. “Para obter resultados mais robustos, seria necessário comparar os efeitos da ibogaína com um placebo que também simule os sintomas psicodélicos, mas sem produzir seu suposto efeito terapêutico”, avalia Feijó. “Encontrar uma substância assim ainda é um desafio a ser superado.”

É por esse motivo que a ibogaína e outros psicodélicos — como ayahuasca, psilocibina, dimetiltriptamina (DMT) e dietilamida do ácido lisérgico (LSD) — são considerados experimentais. “Na prática clínica, não posso prescrever nenhum psicodélico. Isso só ocorre dentro de um protocolo de pesquisa aprovado por um comitê de ética”, explica o psiquiatra.

No Brasil, alguns projetos já foram autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a aplicar a ibogaína com a finalidade de estudo. Um deles, descrito em um artigo publicado em 2017 no Journal of Psychedelic Studies, testou o tratamento em 22 pacientes diagnosticados com dependência química e revelou que a substância, quando associada à terapia cognitivo-comportamental (TCC), desencadeia experiências intensas e multifacetadas.

Os participantes relataram fortes efeitos físicos, como náuseas, tontura e exaustão, que eram muitas vezes descritos como “desagradáveis” ou próximos de uma “sensação de morte”. No campo perceptivo, surgiram visões complexas e ruídos auditivos, que iam de memórias pessoais a imagens simbólicas de animais e ícones religiosos.

A substância também pareceu intensificar a recordação de experiências passadas e estimular reflexões sobre o futuro, frequentemente ligadas ao uso ou abandono das drogas, sendo comparada por alguns pacientes a uma “reorganização do cérebro.” Emocionalmente, as pessoas manifestaram grande instabilidade, alternando entre choro e riso.

Por mais que os efeitos guardem semelhanças com o LSD e a ayahuasca, os relatos apontam que a ibogaína causa reações mais intensas e menos prazerosas. “Há muitas perguntas sem respostas sobre a ibogaína. Acho até que temos mais perguntas sem respostas do que perguntas respondidas”, brinca a psiquiatra Érica Carneiro Pessoa, pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e que falou sobre o tema durante o 1º Congresso Internacional Einstein de Psiquiatria, Saúde Mental e Bem-Estar, realizado em abril, em uma mesa mediada por Marcelo Feijó.

“Reset neurológico”

Em termos técnicos, sabe-se que a ibogaína é um psicodélico não clássico, que atinge cerca de 12 receptores cerebrais, levando a uma extensa gama de efeitos. Uma revisão publicada em fevereiro na revista Molecules, que analisou estudos de 1994 a 2018, entre eles o artigo brasileiro de 2017, sugere que a substância causa um “reset neurobiológico” no cérebro.

Acredita-se que o composto reduz a hiperatividade do sistema de recompensa, o que possibilita que o organismo retome seu equilíbrio original. O “reset” oferece uma rara oportunidade de romper o ciclo da adição por opioides, cocaína e álcool. Isso é observado tanto fenomenologicamente, por meio dos relatos subjetivos, quanto em exames de neuroimagem e marcadores laboratoriais relacionados a fatores neurotróficos cerebrais.

Na prática, a mudança pode ser traduzida em uma melhora no humor e na motivação, na atenuação dos sintomas de abstinência e na interrupção da chamada “fissura”– o intenso desejo de procurar pela droga, que faz com que o usuário só consiga pensar nela e, por vezes, tenha recaídas. Na comparação, os resultados obtidos com a ibogaína costumam ser superiores àqueles dos tratamentos convencionais.

O dependente químico frequentemente vive com um repertório extremamente restrito. Seus amigos, sua rotina e seus pensamentos giram em torno da substância. Quando algo consegue ‘resetar’ essa perspectiva, ele passa a enxergar outras possibilidades de vida”, explica a pesquisadora da Unifesp. “As pessoas relatam um verdadeiro salto após a experiência psicodélica. Isso é muito significativo, porque o tratamento da dependência costuma ser lento, doloroso e desgastante para o paciente e sua família.”

Apesar dos possíveis benefícios do tratamento, as pesquisas também destacam riscos associados ao uso da ibogaína. Os efeitos cardíacos são os mais preocupantes, já que o composto pode provocar arritmias graves e prolongar o intervalo QT (tempo que o coração leva para contrair e relaxar), aumentando o risco de morte súbita.

Potencial de pesquisa

Apesar das limitações para comprovar a eficácia da terapia com a ibogaína, a expertise dos cientistas brasileiros pode tornar a substância em um tratamento viável no futuro. “Temos conhecimento técnico, profissionais capacitados, universidades interessadas em estudar o assunto e o Sistema Único de Saúde à disposição. O que nos falta é investimento”, resume Érica Pessoa. “O Brasil tem potencial para ser referência internacional em psicodélicos.”

Com mais financiamento, torna-se possível aumentar o número de equipes especializadas, ampliar as frentes de pesquisa e acelerar o processo de investigação. É importante lembrar que a validação de uma substância passa por várias etapas: pesquisas com animais para avaliação de segurança, estudos de fase 1 com voluntários saudáveis e estudos de fases 2 e 3 com mais participantes para analisar eficácia do tratamento e seus efeitos colaterais.

“Acho que há um futuro promissor para essa terapia, mas não acredito que ela seja uma panaceia”, pondera o psiquiatra e docente do Einstein. “Muitas pessoas depositam expectativas exageradas nesse tratamento, como se ele fosse curar tudo, e não é bem assim. Para algumas, a abordagem poderá ajudar bastante; para outras, não será adequada.”

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