Especialistas dizem que fevereiro pode ser o pior mês da pandemia até agora

Mesmo com vacina, alta nos casos e óbitos e falta de respeito às regras por parte da população podem aumentar a disseminação da Covid-19

atualizado 01/02/2021 19:26

Praias do Rio de Janeiros Lotadas na altura do Arpoador, Zona Sul do Rio de JaneiroRODRIGO ADÃO/ AGNEWS

Quase um ano após o primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil, o país vive uma nova onda da pandemia, com alta no número de ocorrências e óbitos. De acordo com pesquisadores, a situação de agora é ainda mais preocupante do que a de quando discutíamos a ampliação de leitos e importações de respiradores, e fevereiro pode ser um dos piores meses desde o começo da pandemia, mesmo com o início da vacinação.

“Vemos a situação com muita preocupação. Monitoramos indicadores de saúde dos meses passados e tentamos fazer uma previsão para o futuro. Em 2020, tivemos um aumento de todos os indicadores em março e abril. Depois disso, aumentava um, diminuíam dois. A partir de dezembro, tivemos alta em todos novamente, o que aponta para uma tendência de aumento no número de casos, óbitos e demanda por leitos”, explica Christovam Barcellos, pesquisador do Observatório Covid-19, da Fiocruz.

Segundo ele, são acompanhados indicadores como quantidades de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag), ocupação de leitos geral e UTI, número de diagnósticos de Covid-19 e óbitos por conta da infecção.

Nos últimos meses, o grupo começou também a monitorar a proporção de testes positivos. O professor explica que este índice é o que permite projetar um cenário com maior antecedência. “Consideramos 5% uma porcentagem aceitável. Em alguns estados da região Norte e no Rio de Janeiro, por exemplo, está em torno de 10 a 20%”, conta.

Barcellos diz que a maior preocupação é que, em setembro e outubro, quando se registrou uma baixa nos casos, foram tomadas medidas de relaxamento que acabaram causando uma nova subida em dezembro. “Agora, estamos vendo o relaxamento junto com tendência de alta, e isso é muito preocupante”, afirma.

O pesquisador da Fiocruz acredita que os próximos meses devem ser piores do que os do ano passado. De acordo com ele, na primeira onda, se observou um esforço para aumentar a capacidade dos hospitais, de fazer mais testes. Agora, grande parte da estrutura foi desfeita e não está sendo reposta para lidar com a demanda.

“A crise do oxigênio em Manaus, por exemplo, pode acontecer em outros lugares, não só pela falta do gás, mas por outros itens, como os respiradores, que ainda são insuficientes, ou médicos especialistas. Hospital é como um avião, se faltar uma coisa, cai. E a gente não tem feito nada. O principal investimento é vacina, mas é algo que demora para mostrar impacto na saúde da população”, diz.

Guilherme Werneck, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), concorda que há uma grande possibilidade de fevereiro ser um mês “complicado”, com aumento no número de casos. Porém, lembra que não é possível fazer essa previsão para o Brasil como um todo, já que a epidemia se comporta de maneira diferente em cada estado.

“Não é algo homogêneo, a dinâmica da pandemia é bastante diferente em cada lugar. Não sei se será o pior mês, mas é muito provável que se tenha um aumento, sim”, afirma. Ele explica que as aglomerações do final do ano, as viagens mais comuns durante o verão, os encontros em janeiro e o Enem, que teve relatos de salas lotadas, devem se traduzir em um cenário mais complicado nas próximas semanas.

“Ainda há uma preocupação com o Carnaval, apesar de muitos governadores terem cancelado o feriado. As pessoas podem viajar, ou fazer outras aglomerações, já que é um período tradicional de festas. É importante, nesse momento, uma fiscalização mais forte e uma estratégia de comunicação social que busque trazer de volta a população para participar das atividades de controle”, conta o vice-presidente da Abrasco.

Para os especialistas, será preciso um esforço da população e do governo para evitar uma tragédia durante os próximos meses. Apesar de a vacina já estar sendo aplicada em todos os estados, ela só será capaz de bloquear a transmissão do vírus e segurar a pandemia em um segundo momento.

Aumentar a capacidade de atendimento dos hospitais, investir em profissionais especializados e convencer a população a adotar novamente medidas como a higienização das mãos, uso de máscaras, distanciamento social e evitar aglomerações seriam essenciais para diminuir o impacto.

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