Coronavírus pode infectar e matar linfócitos, diz pesquisa brasileira

Cientistas da USP descobriram que o vírus pode ser responsável pela queda na imunidade e sequelas no sistema de defesa

atualizado 16/09/2020 14:18

coronavírus ilustraçãoGettyImages

Segundo uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, o coronavírus pode ser capaz de infectar e matar alguns tipos de linfócitos (células da defesa do organismo). Os cientistas ainda não sabem se há queda na imunidade decorrente da diminuição na quantidade de células, mas acreditam que a Covid-19 possa deixar sequelas também no sistema de defesa.

O estudo ainda está sendo revisado pela comunidade científica. Em entrevista à Agência Fapesp, Eurico Arruda, virologista responsável pela pesquisa, explica que se percebeu uma queda na contagem de linfócitos (linfopenia) em pacientes internados em estado grave. Esta característica estava ligada a um risco maior de intubação e morte.

De acordo com o especialista, é normal uma concentração de células de defesa no tecido que está sendo atacado pelo vírus.  mas, nos pacientes com Covid-19 que morreram da infecção, a quantidade de linfócitos no local não justificava o quadro de linfopenia.

“Certamente deveria haver outro mecanismo envolvido. Decidimos então investigar se as células de defesa de pacientes com Covid-19 tinham o vírus em seu interior. Alguns grupos tinham descrito que a carga viral era praticamente indetectável no sangue, mas eles tinham olhado para o fluido como um todo. Nós isolamos apenas as células mononucleares (grupo que inclui monócitos e linfócitos) e fizemos uma espécie de concentrado de linfócitos”, explica.

A análise mostrou que os monócitos são os mais sensíveis ao Sars-CoV-2 (44%), seguidos pelos linfócitos T CD4 (14%, responsáveis por coordenar a defesa do corpo liberando citocinas), T CD8 (13%, que reconhecem e matam as células infectadas pelo vírus) e linfócitos B (7%, que produzem anticorpos).

Foi feito ainda um exame RT-PCR no concentrado celular depois de seis, 12, 24 e 48h. Foi observado um aumento na carga viral, o que sugere uma replicação do coronavírus no interior das células afetadas.

“Quando tratamos a cultura com um composto capaz de inibir a protease usada pelo Sars-CoV-2 para se replicar, observamos uma redução importante da carga viral. Esse é mais um indício de que o vírus estava se replicando nessas células, mas ainda não sabemos em quais delas exatamente”, afirma Arruda Neto.

Nos linfócitos T CD4 e T CD8, os pesquisadores perceberam também um aumento de apoptose, a morte celular programada do micro-organismo. Esta informação pode explicar a linfopenia nos pacientes graves.

“O conjunto de dados sugere, portanto, que o novo coronavírus pode infectar e se replicar nos linfócitos. Isso é um potencial complicador, pois pode deixar o paciente suscetível a infecções oportunistas e os hospitais estão repletos de bactérias resistentes. Os médicos precisam estar atentos a esse fato. Além disso, ainda não sabemos que tipo de efeito tardio isso pode ter no sistema imune, só descobriremos mediante investigações a serem feitas no seguimento dos pacientes convalescentes”, diz Arruda.

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