Veja o que se sabe sobre o ataque do coronavírus ao corpo humano

Em quatro meses, a ciência descobriu que, além de atingir os pulmões e as vias respiratórias, o Sars-CoV-2 afeta vários outros órgãos

atualizado 25/04/2020 11:40

ilustração coronavírusYanka Romão/Metrópoles

Todos os dias, a ciência aprende algo novo sobre o coronavírus. Desde o começo da epidemia, quando o vírus ainda não tinha nome, pesquisadores estão atentos para descobrir o máximo de informações possíveis sobre o micro-organismo. Além de desvendar os mecanismos do Sars-CoV-2 para proteger a população mundial, o conhecimento é essencial para criar vacinas, medicamentos e métodos de tratamento que ajudem no combate à doença.

Em quatro meses, os cientistas descobriram que, além de atacar os pulmões e as vias respiratórias, o coronavírus, que começou sendo conhecido como uma pneumonia, também afeta outros órgãos. O Sars-CoV-2 usa células com alta expressão do gene ACE2 para se multiplicar uma vez que entra no corpo (o que acontece, principalmente, pelo nariz): a célula produz uma proteína usada pelo vírus para invadir o micro-organismo.

Se o corpo não consegue combater a infecção ainda no nariz e garganta, o coronavírus vai descendo pelas vias respiratórias até se instalar nos pulmões, onde há mais células que expressam a proteína. Começa uma verdadeira batalha entre o sistema imunológico e os vírus invasores, que deixa como rastro muito fluido e pus, dificultando a troca de oxigênio — por isso, os pacientes relatam dificuldade em respirar.

Veja como o coronavírus mina o funcionamento do corpo:

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O vírus não para por aí. Segundo as descobertas mais recentes, o coronavírus segue para órgãos onde há grande quantidade das células ACE2: coração, rins e intestinos. Nos homens, os testículos também são uma área com muitas células deste tipo — o que pode explicar porque os óbitos causados pela Covid-19 são mais comum entre eles.

Pacientes com cardiopatias fazem parte do grupo de risco e são as pessoas que mais morrem em decorrência da Covid-19. Os especialistas ainda não sabem exatamente como o coronavírus ataca o tecido cardíaco — ele também é rico nas células ACE2, mas pode ser que sofra mais com a falta de oxigenação.

Em um estudo holandês publicado este mês, 38% dos participantes tinham coágulos sanguíneos nas artérias, que podem entupir as vias, aumentando a pressão sanguínea, ou se soltar e ir parar nos pulmões, uma condição conhecida como embolia pulmonar, que foi detectada como causa da morte de pacientes com a Covid-19. Se forem parar no cérebro, podem causar um AVC.

Outra hipótese, ainda sem comprovação, é a de que o coronavírus atacaria os vasos sanguíneos. Isto explicaria por que pessoas com diabetes e outros problemas vasculares costumam desenvolver casos graves. “Quanto mais olhamos, mais parece provável que os coágulos sanguíneos são um dos maiores fatores na severidade e mortalidade da Covid-19”, diz o professor Behnood Bikdeli, da Universidade de Columbia, também à Science.

Paulo Saldiva, professor de patologia da USP e chefe de uma equipe que está fazendo autópsias em corpos de pessoas que morreram pela Covid-19, explica que foram encontrados indícios do coronavírus também no cérebro e nos músculos.

“Vimos muito comprometimento dos músculos, muita inflamação muscular. Isso pode explicar por que alguns doentes reclamam tanto de dores musculares”, disse, em uma sessão da Academia Nacional de Medicina (ANM).

“A doença pode atacar quase qualquer coisa no corpo, com consequências devastadoras. Sua ferocidade é de tirar o fôlego”, afirma, à revista Science, o cardiologista Harlan Krumholz, da universidade de Yale. Segundo a publicação, que é referência, há mais de mil estudos sendo divulgados por semana no mundo inteiro a respeito do coronavírus.

Nos rins
Apesar de o equipamento médico mais procurado no mundo hoje ser o respirador, pode ser que, em breve, se tenha que investir em equipamentos de diálise. De acordo com um estudo pequeno feito em Wuhan com 85 pacientes, 27% teve falência nos rins. Outra pesquisa com 200 pessoas das províncias de Hubei e Sichuan, também na China, descobriu que 59% dos participantes tinham proteína na urina e 44%, no sangue, dois indicadores de dano nos rins.

“O pulmão é o primeiro campo de batalha. Mas uma fração do vírus provavelmente ataca os rins. E, como em uma guerra, se dois lugares estão sendo atacados ao mesmo tempo, os dois pioram”, diz Hongbo Jia, um dos co-autores do trabalho.

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