Coronavírus: como o sistema de saúde de Manaus chegou ao colapso

Desativação de leitos, descumprimento de medidas de proteção e falta de insumos são alguns dos motivos apontados por especialistas

atualizado 15/01/2021 20:47

Fotos Hugo Barreto/Metrópoles

O estado do Amazonas vive, atualmente, o pior momento da pandemia de coronavírus. A falta de oxigênio para atender a crescente demanda de pacientes hospitalizados com Covid-19 fez com que as equipes de saúde locais precisassem realizar ventilações manuais, com equipamentos chamados de ambus, para fornecer oxigênio e manter as pessoas vivas.

Pacientes que precisam de suporte respiratório mecânico estão sendo transferidos para outros estados. Lotados, os cemitérios amazonenses precisaram instalar câmaras frigoríficas.

Um levantamento feito pelo Instituto Votorantim com base em informações da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas revelou que o estado desativou 85% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do SUS que haviam sido criados entre fevereiro e julho de 2020. A estimativa é que 117 das 137 UTIs reservadas para atender pacientes com Covid-19 tenham sido fechadas.

Falta de planejamento

Para Vanja Santos, membro da diretoria do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Amazonas, a crise vivida no estado é resultado da falta de políticas nacionais de combate ao coronavírus. “O governo federal deveria ser o que tomaria as rédeas dessa situação inicial, a pandemia não poderia ser minimizada”, analisa. Em relação ao governo local, ela chama atenção para as duas trocas de secretários de saúde no estado amazonense no período, o que teria feito com que o governo “se perdesse bastante” no enfrentamento à doença.

A falta de orientações claras de saúde para a população em relação ao distanciamento social também é um dos motivos que desencadearam a crise, segundo Vanja. “Não adianta apertar por um tempo e soltar mais adiante. Precisamos de uma política intensa, feita de forma pensada e calculada para cuidar do problema.”

O momento é delicado não só para pacientes infectados pelo coronavírus. “Hoje recebi a notícia de que 60 bebês estão precisando de respiradores em Manaus. Eles estão condenados à morte”, lamenta a especialista. “Vivemos ainda a falta de investimentos no SUS e a falta de médicos e profissionais de saúde no estado. Estamos gerando uma crise de saúde que vai repercutir no Brasil todo.” As cirurgias no estado foram canceladas por conta da falta de oxigênio.

Viviane Camargo, integrante do Comitê Gestor de Crise do Conselho Nacional de Enfermagem (Cofen), reforça que o descaso com a saúde pública por parte dos governos federal, municipal e estadual foi o estopim da crise. “Não é possível que tenhamos chegado a esse nível sem que ninguém tenha notado”, completa.

O aumento de casos após as eleições estaduais e festas de fim de ano já era esperado, de acordo com Viviane, e mesmo assim providências não foram tomadas. “Já era sabido que o estado não teria como assistir os pacientes com o que tínhamos anteriormente, com relação a profissionais e equipamentos”, completa.

“Precisamos trabalhar com previsões, não esperar as coisas acontecerem. O resultado estamos vendo agora. Sempre que é preciso resolver as coisas às pressas, deixamos de lado alguns critérios. Na aquisição de material, por exemplo, a gente acaba pagando mais caro porque, infelizmente, algumas pessoas se aproveitam da situação. Sem falar, no mais grave, as muitas vidas que estão perdidas.”

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O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), afirmou ao Metrópoles que o estado “se preparou em tudo que era possível” para dar suporte aos pacientes acometidos pela Covid-19, apontando como causas do colapso a postura da população e das empresas que fornecem oxigênio para as unidades médicas da capital do estado. Wilson Lima disse, ainda, que o governo federal tem “sido um grande parceiro” no enfrentamento da pandemia.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou na sexta-feira (15/1) que o governo federal “fez sua parte” ao enviar recursos à capital amazonense para ajudar na crise. Contudo, dias antes da falência da rede, o executivo decidiu elevar o imposto de importação sobre o preço dos cilindros usados para o armazenamento de oxigênio.

Cenário caótico

Com a superlotação dos hospitais do Amazonas, diversos doentes precisaram ser transferidos para outros estados e para o Distrito Federal. Na quinta-feira (14/1), cinco pessoas foram encaminhadas para o Hospital Santa Lúcia Sul, Hospital Santa Lúcia Gama e Hospital Santa Lúcia Norte. Outros dois são esperados para darem entrada no serviço de saúde particular nesta sexta-feira (15/1). Na rede pública, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) informou que deve receber 20 pacientes de Manaus. Maranhão, Piauí, Goiás, Rio Grande do Norte e Paraíba também estão recebendo pacientes amazonenses.

Para tentar amenizar a crise, dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), vindos de São Paulo e carregados com cilindros de oxigênio, foram enviados a Manaus no início da madrugada desta sexta-feira (15/1). O governador Wilson Lima (PSC) decretou toque de recolher por 10 dias, o que significa que ninguém pode sair de casa entre 19h e às 6h. A FAB também começou a remoção de 230 doentes nesta sexta-feira.

De acordo com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o governo federal está trabalhando para entregar mais oxigênio a Manaus. “Há uma realidade de diminuição na oferta de oxigênio. Estamos trabalhando para entregar mais oxigênio [no estado] e atender [as pessoas internadas] em UTIs”, afirmou.

Por meio de notificação extrajudicial assinada pelo secretário estadual de Saúde do Amazonas, Marcellus José Barroso Campêlo, o governo estadual requereu o estoque de oxigênio de 11 empresas. A notificação prevê, inclusive, uso de força policial em caso de descumprimento da medida.

Além da falta de oxigênio, a Amazônia vive a ameaça da nova cepa do Sars-CoV-2 identificada no local. Na manhã desta sexta-feira (15/1), o Ministério da Saúde confirmou o caso da paciente de 29 anos reinfectada pela variante amazonense.

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