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Eleições 2026São Paulo

Tarifaço de Trump traz política externa ao debate eleitoral em SP

Após tarifa adicional de 25% anunciada nesta semana, pré-candidato Fernando Haddad (PT) passou a atacar a gestão Tarcísio de Freitas

20/07/2026 02:15
Arte/Metrópoles
Tarifaço de Trump traz política externa ao debate eleitoral em SP

Desde abril de 2025, os tarifaços contra o Brasil já anunciados por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, são parte do debate eleitoral no Brasil. No plano nacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), ambos pré-candidatos à Presidência, exploram o tema internacional em seus discursos eleitorais, em meio ao apoio explícito do Departamento de Estado ao nome do parlamentar para ser o próximo presidente do país.

No estadual, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), ambos pré-candidatos ao governo estadual, apostaram ou também apostam que o assunto tem poder de atrair votos.

Para o estrategista político Felipe Soutello, que trabalha com campanhas desde 1986, o uso constante da pauta internacional nas eleições deste ano é uma novidade no cenário eleitoral.

“Isso é uma novidade no cenário eleitoral. Tem governadores brasileiros que, de alguma forma, se conectaram a esse movimento MAGA [make America great again ou torne América grande novamente], a essa questão americana e externalizam a sua posição em relação a isso. Ficou numa situação, de certa forma embaraçosa, para ter que explicar um pouco como é que eles apoiaram um caminho político que está prejudicando o Brasil e [que] em alguns lugares vai prejudicar a cadeia industrial”.

Quando Tarcísio estava cotado para ser presidente, naquele 2025, um pouco depois de ter usado o boné Maga ao felicitar Trump pela vitória nas eleições (imagem abaixo), ele endossou as palavras do republicano em algumas ocasiões, pressionado pelo bolsonarismo, com críticas às negociações então feitas pelo governo Lula com Washington, até mudar a rota do discurso em defesa dos interesses paulistas.

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Antes disso, no entanto, avaliou a medida como uma “oportunidade de negócio” para o Brasil num evento do Bradesco. Logo depois, colocou-se como negociador paralelo contra aquele anúncio de tarifaço de 10% sobre produtos brasileiros ao se reunir com o encarregado de negócios dos EUA, Gabriel Escobar, em Brasília.

Na sequência, cobrou um telefonema de Lula a Trump. Essa fase culminou com a sugestão de que as negociações da gestão Lula pudessem entregar “alguma vitória” ao presidente dos EUA. “Por que não entregar alguma vitória para ele“, questionou diante de investidores, em agosto do ano passado.

A mudança de rota só veio no primeiro semestre deste ano, quando o Palácio dos Bandeirantes ficou definido, pela segunda vez, como local do seu assento a partir de 2026, não mais o Palácio do Planalto. A partir daí, Haddad entrou em campo com a artilharia. Chamou Tarcísio de submisso a Trump em entrevista ao Metrópoles em abril, o que irritou o governador, rebatendo que o petista deveria parar de falar “bobagem”.

O que tem a ver o Estado de São Paulo com o Trump?“, chegou a perguntar Tarcísio em maio deste ano, completando que “a gente não faz política externa aqui. Ele tem que parar de falar bobagem”.

Até que o petista voltasse a criticar Tarcísio pelo apoio às políticas da Casa Branca, o governador já se encontrava na zona de defesa dos interesses de São Paulo. “Não faz sentido“, disse em junho Tarcísio sobre o tarifaço. Desde o anúncio do tarifaço, na quarta-feira (15/7), o Palácio dos Bandeirantes tem preferido não se pronunciar.

“Como é que o governador de São Paulo vai explicar que ele manifesta uma posição favorável ao governo Trump? Inclusive tem entrevistas dizendo para ceder alguma coisa ao governo americano, já que ele [Trump] gosta de vitórias. Ele [Tarcísio] se meteu na política internacional, ela tem consequências locais”, reforça Soutello.

É dessa posição pregressa do governador que a oposição hoje se aproveita. A pré-candidata ao Senado em SP, Marina Silva (Rede), botou o boné vermelhinho do Maga na roda novamente. Disse na última sexta-feira (17/7) que o governador de São Paulo “tem que se explicar por que botou o chapéu do adversário e por que que é amigo de quem é inimigo do povo brasileiro”. Dez dias antes dessa fala, a tensão entre os dois já era notada.

No mesmo evento com a ex-ministra do Meio Ambiente e pré-candidata ao Senado por São Paulo, Haddad chegou a falar que o governador deveria fazer uma “autocrítica” em relação a Trump. “Olha, eu espero que o Tarcísio reavalie a sua posição de apoio ao governo dos Estados Unidos”, disse.

Política externa x política interna

Segundo um integrante da pré-campanha de Tarcísio, a avaliação é de que Haddad quer nacionalizar a campanha quando não deveria. “Ah, o governador vestiu o boné’. Isso não tem nada a ver com o tarifaço. Do ponto de vista político, em qualquer análise que a gente fez, não há uma conexão do tarifaço com o governador Tarcísio, ainda que ele apoie o Flávio [Bolsonaro]”, acrescentou, sob anonimato.

Ainda que Flávio implore hoje a Trump que não taxe mais o Brasil e diga que Lula é o culpado, mais da metade da população brasileira concorda com a versão do presidente Lula de que uma reunião do filho de Jair Bolsonaro com o presidente dos EUA teria motivado o novo tarifaço, segundo recente pesquisa Genial/Quaest. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) chegou a comemorar o tarifaço em 9 de julho de 2025. Três dias após os EUAs abrirem investigação comercial contra o Brasil, o irmão de Flávio expressou: “Se houver o cenário de terra arrasada, pelo menos eu estarei vingado.”

Já o entorno do petista defende que a política externa deve entrar na campanha, pois São Paulo é o estado mais impactado pelo novo tarifaço. Cita que, na sexta-feira (17/7), fez almoço fechado com representantes da indústria sucroenergética e que o pré-candidato foi  diligente, enquanto ministro da Fazenda, para a aprovação da medida provisória que instituiu o Plano Brasil Soberano, que visa proteger a economia brasileira da imposição de barreiras comerciais inesperadas. O texto prevê financiamentos ao setor produtivo e linhas de crédito específicas para exportadores.

De acordo com a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), o novo tarifaço afeta em US$ 11 bilhões as exportações industriais e do agronegócio, além de colocar o Brasil entre os países com condições mais restritivas para acessar o mercado norte-americano. Entre as regiões de São Paulo que serão mais impactadas pela medida estão Sorocaba, Campinas, Franca e Birigui, no interior do estado, o Grande ABC, na região metropolitana, e o Vale do Paraíba.

Já cálculos da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) apontam que São Paulo, enquanto estado brasileiro mais impactado, pode deixar de movimentar US$ 3 bilhões, segundo afirmou o presidente da entidade na sexta-feira (17/7) a jornalistas, Laudemir Müller.