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Negócios

Tarifaço dos EUA mobiliza indústria brasileira contra sobretaxa

Entidades alertam que sobretaxa gera perda de competitividade, queda nas exportações e defendem negociação para ampliar isenções

16/07/2026 17:45
Divulgação
Tarifaço dos EUA mobiliza indústria brasileira contra sobretaxa

O anúncio da nova sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros já mobiliza entidades do setor produtivo, que alertam para impactos sobre as exportações, perda de competitividade e riscos para investimentos entre os dois países.

A medida, anunciada pelo governo norte-americano na quarta-feira (15/7), passa a valer a partir de 22 de julho. Em geral, as entidades defendem a manutenção do diálogo diplomático e comercial para ampliar a lista de produtos isentos da tarifa ou mesmo reverter a decisão.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, avalia que a nova sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as vendas brasileiras ao mercado norte-americano. Segundo a entidade, 20 dos 27 estados brasileiros registraram queda nas exportações para os EUA no primeiro semestre deste ano.

“Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. Diante do anúncio de hoje, o cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.

A entidade aponta ainda que as exportações brasileiras aos EUA recuaram 13% em 2026, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. Apesar da retração, o país norte-americano permanece como principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira.

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A Amcham Brasil também classificou o resultado da investigação como “muito negativo” para a relação bilateral. Segundo a entidade, a medida afeta mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio, além de colocar o Brasil entre os países com condições mais restritivas para acessar o mercado norte-americano.

Para o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, as negociações entre os governos dos dois países seguem sendo o caminho mais eficaz para retirar as sobretaxas. “Esperamos que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantenham abertos os canais de diálogo”, afirmou.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) lamentou a decisão e afirmou que ela reduz significativamente a competitividade do Brasil diante de concorrentes globais. A entidade disse ainda que continuará trabalhando junto a parceiros nos EUA para que as tarifas sejam revertidas ou parcialmente mitigadas por meio da ampliação da lista de produtos isentos.

Alguns setores já começam, inclusive, a revisar suas projeções para o restante do ano. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) estima que a nova tarifa deve ampliar a retração das exportações do segmento em 2026. A projeção da entidade passou de uma queda média de 3,6% para 7,1% no acumulado do ano.

Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, a decisão representa um retrocesso em uma relação comercial construída ao longo de décadas.

“A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano”, afirmou.

Já a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) classificou as novas tarifas como “injustificáveis” e destacou que o mercado norte-americano é um dos mais importantes para o setor. A entidade informou ter solicitado apoio do governo brasileiro para incluir produtos ligados à geração, transmissão e distribuição de energia elétrica na lista de exceções às tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Investigação dos EUA

Fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que trata da política comercial do país, a investigação que determina a aplicação das tarifas questiona a atuação do Brasil em temas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

O documento faz ainda uma série de críticas ao Pix e ao Banco Central do Brasil. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos aponta que o Pix cria vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital.

Veja as acusações contra o Brasil:

  • Comércio Digital e Serviços de Pagamento Eletrônico: EUA acusa o Brasil de restringir a atuação de empresas americanas de tecnologia e pagamentos, citando decisões judiciais que determinam remoção de conteúdos, bloqueio de perfis e multas às plataformas, além de alegar tratamento desfavorável a empresas de pagamentos eletrônicos.
  • Tarifas preferenciais injustas: EUA diz que o Brasil concede tarifas de importação mais baixas a produtos do México e da Índia, por meio de acordos comerciais, sem oferecer o mesmo tratamento aos produtos americanos.
  • Combate à corrupção: o USTR diz que Brasil não adota medidas suficientes para combater o suborno e a corrupção.
  • Proteção da Propriedade Intelectual: Alegam que o Brasil falha no combate à pirataria e à falsificação, demora na análise de pedidos de patentes e não aplica de forma consistente medidas de proteção à propriedade intelectual.
  • Acesso ao mercado de etanol: O governo americano afirma que o Brasil deixou de oferecer tratamento tarifário recíproco ao etanol dos EUA após alterar sua política de importação em 2017.
  • Desmatamento ilegal: EUA argumentam que, apesar de possuir legislação para combater o desmatamento ilegal, o Brasil não aplica essas normas de forma eficaz, permitindo a continuidade da prática.

Outras tarifas

Além da aplicação das taxas de 25%, o governo brasileiro espera ainda pela conclusão de uma segunda investigação que sugere uma nova taxa de 12,5% sobre produtos brasileiros. A nova medida é baseada em apuração sobre exploração de trabalho forçado. Ao fim da conclusão das duas investigações, setores da indústria brasileira podem ser atingidos com até 37,5% de taxas.