Prisões expõem núcleo feminino na linha de comando do PCC no litoral

Pelo menos três mulheres assumiram papéis de liderança no Primeiro Comando da Capital (PCC) em diferentes cidades da Baixada Santista

atualizado

metropoles.com

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Laura Abreu/Arte Metrópoles
Montagem colorida das três lideranças femininas presas no litoral sul de São Paulo.
1 de 1 Montagem colorida das três lideranças femininas presas no litoral sul de São Paulo. - Foto: Laura Abreu/Arte Metrópoles

Três mulheres do núcleo feminino do Primeiro Comando da Capital (PCC) da Baixada Santista, no litoral sul de São Paulo, presas nos últimos meses pela Polícia Civil, detinham protagonismo estratégico na facção criminosa. Com perfis e funções distintas, elas atuavam na articulação com outras lideranças a nível estadual e internacional e tinham voz ativa em tribunais do crime — além de cooperar com a logística do tráfico de drogas no trecho litorâneo e em outras regiões do estado.

As novas prisões permitiram que o papel de cada mulher na cadeia de comando do PCC na Baixada Santista fosse desvendado pela Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Itanhaém (veja abaixo).

Para o delegado Bruno Lázaro Mateo, responsável pelas operações que resultaram nas prisões de Malévola, Penélope e Medusa, a ascensão feminina na cadeia de liderança da facção garante confiabilidade aos negócios criminosos.

“No tocante às mulheres ocuparem esses setores de destaque, como disciplinas, surge basicamente pela confiabilidade maior do que os homens, além do crime organizado se valer delas [mulheres] por passarem supostamente desapercebidas”, explica o delegado.

Malévola

Ligia Sanches Moro, conhecida como Malévola ou Loira, foi presa, em fevereiro deste ano, por integrar a “sintonia geral dos estados”. Cabia a ela a função de ser a principal articuladora entre integrantes de diferentes cidades, organizando demandas e repassando informações consideradas essenciais para manter a atividade do PCC na Baixada.

Documentos policiais obtidos pela reportagem descrevem Malévola como figura de atuação “proeminente” entre integrantes do PCC, exercendo papel central no controle e na distribuição de drogas, também, em regiões da Baixada, como no Vale do Ribeira.

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Apelidada de “Malévola”, ela atuava como elo central entre diferentes núcleos da quadrilha, organizando demandas e circulando informações
Malévola
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Malévola

Reprodução/TJSP
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Apelidada de “Malévola”, ela atuava como elo central entre diferentes núcleos da quadrilha, organizando demandas e circulando informações

Segundo as investigações, ela e o filho eram responsáveis pelo recebimento, contabilidade e redistribuição das drogas aos pontos de venda vinculados à organização criminosa. A defesa de ambos não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.

Como consta em registros do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), o filho de Malévola está preso desde julho de 2024 por tráfico de drogas, crime pelo qual ainda será julgado. Ele também responde a um processo criminal por roubo de medicamentos.

Penélope

Em março, mês seguinte à prisão de Malévola, policiais da Dise desbarataram o esquema liderado por Ariane de Pontes Rolim, conhecida como Penélope ou Pandora. Com ela, foi descoberta a dinâmica de trabalho dos chamados “disciplinas” da facção criminosa em tribunais do crime — julgamentos paralelos administrados pelo PCC.

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Perna tatuada de Ariane de Pontes Rolim, de 30 anos, conhecida como Penélope ou Pandora,
Ariane de Pontes Rolim, de 30 anos, conhecida como Penélope ou Pandora,
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Ariane de Pontes Rolim, de 30 anos, conhecida como Penélope ou Pandora,

Material cedido ao Metrópoles
Perna tatuada de Ariane de Pontes Rolim, de 30 anos, conhecida como Penélope ou Pandora,
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Perna tatuada de Ariane de Pontes Rolim, de 30 anos, conhecida como Penélope ou Pandora,

Material cedido ao Metrópoles

Prints de conversas de WhatsApp expuseram mensagens indicando o relato de ocorrências no litoral sul de São Paulo e no Vale do Ribeira, seguindo o modelo de um boletim de ocorrência (BO) — com campos de preenchimento como data do fato, breve relato do motivo de acionamento, explicação sobre o caso, apresentação e alegação das partes envolvidas e, por fim, desfecho decidido pela Disciplina do PCC.

Penélope fazia parte de diversos grupos de conversa no WhatsApp. Neles, pessoas acionavam o grupo de disciplina para ocorrências ligadas ao cotidiano da região, como invasão de casas, briga entre vizinhos e fugas das forças de segurança. Depois, cada membro do grupo restrito da facção anotava as últimas informações das ocorrências — exatamente como as atualizações de um BO convencional.

Em alguns casos, o desfecho era, por exemplo, o “entendimento de ambas as partes” e a “orientação”. Em outros, contudo, a decisão era mais incisiva, como “cobrança física”.

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Prints de conversa de whatsApp revelam dinâmica dos BOs do tribunal do crime do PCC
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No celular da Penélope, havia ainda fotos de homens baleados. Os registros foram interpretados como uma forma de provar que as punições tinham sido colocadas em prática. Além disso, as mensagens revelavam quais integrantes do PCC foram mobilizados para participar do tribunal do crime.

Nos grupos de conversas, também havia mensagens de atualização da movimentação nas regiões monitoradas pela facção. Em um dos prints, um integrante escreve: “Bom dia a todos, quadrilha. Nosso dia está tranquilo, sem alteração até o momento. Qualquer lance, nos manda [sic] no grupo. TMJ família”.

Medusa

A última das lideranças femininas presas pela polícia foi Talita da Silva Costa, a Medusa. Ela foi presa na última segunda-feira (1º/6) em Mongaguá, durante a operação Acato, deflagrada pela Dise de Itanhaém (veja imagens abaixo).

Medusa desempenhava a função de disciplina em Peruíbe, também no litoral. Sua posição permitia que desse a última palavra sobre questões do PCC em âmbito municipal, como as transações relacionadas ao tráfico de drogas e ordens de punição a desafetos da facção criminosa.

A polícia apreendeu no dia da prisão comprovantes de depósito, três celulares e uma touca tipo balaclava. As investigações apontam que ela é subordinada a outro alvo da operação Acato: Edi Tassara Júnior, o Jerusalém, também preso.

Mensagens de áudio relacionados a Medusa mostram, ainda, que integrantes do PCC da Baixada Santista a criticaram por ter tido um celular apreendido pela Polícia Militar. Após a apreensão do aparelho, um indivíduo ligado à facção foi preso. Uma das pessoas identificadas no diálogo foi o “chefe” de Medusa, Jerusalém.

Trechos da conversa expõem o medo de integrantes do PCC em serem identificados e presos. Em um dos áudios, um faccionado volta a recomendar que todos os membros adquiram celular do modelo iPhone, considerado por eles, como um aparelho mais seguro para os negócios do tráfico e mais difícil de rastrear pela polícia.

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Operação Acato Civil
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