PM Gisele: sangue em toalha e bermuda indicam feminicídio, diz polícia
Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso nesta quarta-feira (18/3). Laudo da perícia fortaleceu hipótese de que PM Gisele foi morta
atualizado
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A investigação policial que culminou na prisão do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, nesta quarta-feira (18/3), apontou uma série de contradições na versão do acusado. Um elemento, no entanto, foi preponderante para fortalecer a hipótese de feminicídio: a presença de sangue em objetos pessoais do suspeito e no banheiro da casa.
Os exames realizados pela perícia — com o uso do reagente Luminol — detectaram vestígios de sangue na bermuda do policial militar e até mesmo na toalha usada por ele para se secar após tomar banho no dia do crime.
Como o Metrópoles mostrou, a polícia já havia encontrado sangue dentro do box do banheiro da casa. O material foi detectado nos registros do chuveiro, na parede e no chão do banheiro.
O tenente-coronrel Rosa Neto é o principal suspeito pela morte de sua esposa, a PM Gisele Alves Santana, de 32 anos. Antes registrado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita e agora é tratado como feminicídio.
A presença de sangue tanto nas peças de roupa quanto no banheiro, em contraposição com o laudo que não detectou resíduos de disparo de arma de fogo nas mãos do coronel, foi destacada pelo delegado do caso ao pedir a prisão de Rosa Neto.
“A única explicação tecnicamente compatível com a presença de sangue nos registros de água, na parede, no chão do box e em sua bermuda é que o investigado entrou no banheiro já impregnado de sangue, que lavou sob o chuveiro antes de receber qualquer equipe de socorro, em conduta deliberada de destruição de evidências”, disse o delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial, que presidiu o inquérito.
Em outros trechos do documento, o delegado diz que esses resultados são os de “maior relevância para a demonstração da autoria do feminicídio” e mostram que o tenente-coronel “tomou banho com o propósito deliberado de eliminar os vestígios de sua participação no evento letal”.
“Trata-se de prova que confirma, simultaneamente, a autoria do feminicídio e a prática da fraude processual prevista no art. 347, parágrafo único, do Código Penal”, afirma ele.
A presença de sangue foi detectada pela perícia com o auxílio do luminol, um composto que reage em contato com o ferro da hemoglobina e emite uma luz azul. As imagens das reações foram anexadas ao inquérito policial do caso.
O resultado dos laudos contraria a versão dada pelo tenente-coronel, que repetiu à polícia, e também em entrevistas, que não tocou na esposa ao vê-la caída e já ensanguentada.
Arrebatada pelas costas
Segundo a investigação do Tribunal de Justiça Militar (TJM), Gisele foi “abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita. Após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão)”, descreveu um documento do TJM ao qual o Metrópoles teve acesso.
O tribunal levou em conta o contexto de violência doméstica que rodeava o relacionamento entre Geraldo e Gisele. O tenente-coronel também usava sua posição hierárquica para potencializar a violência, apontaram as apurações.
O TJM também levou em consideração que, no dia da morte da PM, Geraldo ligou para terceiros antes de acionar o 190.
“Os primeiros socorristas relataram que a cena que presenciaram ao chegarem no local do ocorrido foi atípica para suicídio: Gisele estava ao solo, envolta por toalha, com a arma semiempunhada na mão direita, sem contratura muscular, tendo sido retirado com facilidade pelo socorrista, com manchas de sangue concentradas na região da cabeça e do braço direito. Além disso, o investigado estava no corredor, sem camisa, ao telefone, mantendo tranquilidade incomum ao contexto, enquanto a Sd PM Gisele ainda apresentava batimentos cardíacos e respiração profunda e agonizante no interior do apartamento”, disse o documento.
Para o TJM, o mosaico probatório também aponta que o investigado era a única pessoa com Gisele antes do fato e o primeiro a intervir na cena, “o que robustece a autoria em seu desfavor”.
Relembre o caso
- A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo.
- Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
- Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio consumado, mas depois foi alterado para morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
- Com o avanço das análises periciais e a reconstituição da sequência de acontecimentos dentro do imóvel, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não corresponde à hipótese de suicídio inicialmente apresentada.
- Com base nesse conjunto de elementos, a Justiça autorizou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder pela morte da policial militar.
- A Polícia Civil solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel. O pedido sucedeu a conclusão, com base em perícia técnica, de que ele seria o principal suspeito pela morte da esposa.
- A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto nesta quarta-feira (18/3). Ele foi preso no mesmo dia em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
- O acusado deverá passar por audiência de custódia — por vídeoconferência — nesta quinta-feira (19/3).































