Nova sede de governo: CDHU sugeriu “destruir” apartamentos vazios. Ouça
Em reunião com moradores, presidente da estatal disse que iniciaria obras assim que a maioria dos apartamentos fosse desapropriada
atualizado
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Enquanto o governo de São Paulo planeja a transferência de sede para a região central da capital, moradores do entorno que serão desapropriados ouviram do presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), Reinaldo Iapequino, durante uma reunião, que as obras começariam mesmo que alguns apartamentos ainda estivessem ocupados.
Ouça:
Em áudio obtido pelo Metrópoles (ouça acima), Iapequino afirmou que buscaria um acordo com 100% dos moradores, mas que começaria a descaracterizar os apartamentos assim que a maioria deles fosse esvaziada.
“Imagina que a gente consiga [esvaziar] 30 [apartamentos]. Se a gente conseguir 30, o que nós vamos fazer? Vamos destruir os apartamentos por dentro. Eu não posso gerar risco de ter invasão. A gente precisa ter as nossas condições”, disse o presidente.
A fala de Iapequino aconteceu em maio de 2025 durante uma reunião do presidente com moradores do edifício Princesa, localizado em frente ao Parque Princesa Isabel, em uma das quadras que serão totalmente modificadas pelo projeto. Na época, foi a CDHU quem iniciou as tratativas sobre a desapropriação e as negociações com os moradores para que eles deixem o imóvel.
Durante a reunião, representantes da CDHU disseram que os moradores poderiam negociar entre a possibilidade de receber uma indenização no valor do apartamento ou fazer uma permuta por outro imóvel. Até mesmo a possibilidade de que a companhia financiasse outra residência foi aventada pelos representantes.
Jogo de empurra-empurra
Apesar da iniciativa da CDHU, moradores de prédios que serão demolidos têm vivido uma rotina de incertezas em meio ao avanço do projeto. Após consultar quem estaria interessado nas negociações e até enviar peritos para avaliar o valor dos imóveis, a estatal parou de retornar às tentativas de contato em setembro.
“A proposta era que essa desapropriação se anteciparia ao leilão [que definiu o consórcio responsável pela obra da nova sede]”, contou o morador do edifício Princesa Silvio Monteiro de Lima, de 56 anos, ao Metrópoles. O aposentado afirmou que a ideia de negociar diretamente com o governo animou seus vizinhos e ele achou melhor não ser o único a esperar pelo leilão.
Agora, a gestão Tarcísio afirma que as desapropriações não serão mais conduzidas pelo governo e ficarão totalmente sob a responsabilidade da empresa privada que vai gerir a obra.
Diretor-presidente da Companhia Paulista de Parcerias, empresa estatal que estruturou o projeto da PPP no centro, Edgard Benozatti disse que o governo optou por manter as desapropriações com o setor privado “para proteger o cronograma”.
Em entrevista ao Metrópoles, Edgard afirmou que os apartamentos passarão por uma nova perícia, contratada pela concessionária e revisada por um certificador independente, para garantir um preço atualizado e justo aos proprietários.
Segundo o diretor, as propostas feitas pela concessionária para as desapropriações serão exclusivamente de pagamento em dinheiro pelo valor do imóvel, não sendo mais ofertadas possibilidades de permuta, por exemplo. Edgard disse que as famílias receberão um valor adequado para que possam se manter no centro.
Transferência da sede do governo
- A transferência da administração do governo de São Paulo é uma promessa de campanha de Tarcísio de Freitas.
- O projeto é desapropriar prédios ou aproveitar espaços públicos já existentes ao redor da avenida Rio Branco, entre a Luz e os Campos Elíseos, no centro, e concedê-los à iniciativa privada, por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP).
- O parceiro privado construirá os prédios definidos pelo governo e vai receber pagamentos para fazer manutenção predial, segurança e limpeza dos espaços por um prazo de 30 anos.
- A mudança deve significar o deslocamento de pelo menos 25 mil servidores para a região central. Por isso, o projeto do governo prevê a construção de outros espaços além das repartições públicas.
O que diz a CDHU
Em nota, a CDHU disse que iniciou o diálogo com os moradores dos edifícios “com a finalidade de dar transparência à situação e de abrir as tratativas sobre as desapropriações”.
A empresa afirma que realizou duas reuniões com os residentes e apresentou os procedimentos necessários à desapropriação, “incluindo todas as etapas e exigências formais”.
“Todo o histórico das tratativas com os moradores será disponibilizado à coordenação do projeto e ao consórcio vencedor”, diz a nota. A empresa não respondeu por que deu início ao processo de negociação para a desapropriação e depois parou de responder aos moradores.
O governo Tarcísio prevê que 312 imóveis, entre residenciais e comerciais, serão desapropriados para a obra. No total, a estimativa é que o número de famílias que precisarão deixar suas casas passe de 700.
A gestão promete que tanto quem vive em casas próprias quanto as famílias que moram em pensões e cortiços na região terão condições de continuar morando no centro.














