MPSP pede arquivamento de inquérito contra mulher acusada de matar amiga
Elizabete Arrabaça, de 68 anos, era suspeita pela morte da amiga Élede Guidi, de 80. Aposentada também é acusada de envenenar nora e filha

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) protocolou uma petição pelo arquivamento do inquérito contra a aposentada Elizabete Arrabaça, de 68 anos, suspeita pela morte da amiga, Élede Guidi, de 80, em Pontal, interior de São Paulo. Ela está presa preventivamente na Penitenciária de Tremembé desde agosto de 2025, acusada de matar a própria filha e a nora por envenenamento.
Depois da morte da médica veterinária Nathalia Garnica e da professora de pilates Larissa Rodrigues, filha e nora de Elizabete, respectivamente, ela passou a ser investigada pela morte de Élede, ocorrida em 22 de dezembro de 2016 e registrada, à época, como decorrente de causas naturais. A suspeita era de que a idosa também pudesse ter sido vítima de envenenamento por chumbinho.
No documento enviado à 1ª Vara da Comarca de Pontal, o promotor de justiça Patrick Carvalho Silva concluiu que, apesar da suspeita inicial, não há elementos suficientes para apontar homicídio.
O promotor afirmou que, apesar de a ocorrência da morte ser incontroversa, não é possível demonstrar sua natureza criminosa, isto é, que tenha sido causada pela administração de substância tóxica ou por qualquer outra ação humana dolosa. O exame necroscópico realizado à época apontou como causa da morte insuficiência respiratória aguda grave, com edema pulmonar agudo e pneumonite à direita.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP“É certo que a investigação revelou circunstâncias que suscitam suspeita, especialmente a chegada da investigada à residência da vítima no dia do óbito, seu comportamento no interior da cozinha, a notícia de dívida entre as partes e a visita realizada aproximadamente uma semana antes da morte, após período prolongado sem contatos. Tais circunstâncias, contudo, possuem natureza meramente indiciária e não são suficientes para suprir a ausência de comprovação da própria ocorrência de um homicídio”, escreveu a Promotoria.
Comportamento da vítima levantou suspeitas
Uma testemunha afirmou, em depoimento, que no dia em que Élede Guidi foi encontrada morta, Elizabete Arrabaça chegou rapidamente ao imóvel em Pontal, apesar de morar em Ribeirão Preto, dirigiu-se diretamente à cozinha, abriu o forno e algumas gavetas e tentou fazer com que a testemunha deixasse o cômodo. Acrescentou ainda que a aposentada não foi até o local onde estava o corpo e deixou a residência minutos depois.
Afirmou também que a vítima havia emprestado R$ 3 mil a Elizabete, que, por sua vez, teria deixado de visitá-la em razão dessa dívida. Disse, por fim, que a idosa era lúcida, ativa e independente, e não apresentava, segundo seu conhecimento, doença grave que justificasse a morte repentina.
A Polícia Civil também chegou a suspeitar de envenenamento, mas concluiu o inquérito policial sem indiciar Elizabete, também por falta de elementos que pudessem demonstrar que houve homicídio.
Exames complementares pelo Núcleo de Perícias Médico-Legais de Ribeirão Preto esclareceram que os materiais enviados à perícia não constituíam matrizes apropriadas para análise toxicológica forense e que, para investigação de intoxicação ou envenenamento post mortem, seriam necessárias amostras adequadas, especialmente sangue ou urina.
Outro perito também entendeu que o verificado na necropsia e no exame histopatológico não é específico de intoxicação, podendo decorrer de processos infecciosos, inflamatórios ou reacionais. Ressaltou que a necrose tubular aguda, um tipo de lesão nos rins apresentada por Élede, embora possa estar presente em exposições a agentes nefrotóxicos, como veneno, também pode decorrer de infecções e, isolada, não permite confirmar envenenamento.
Concluiu que os elementos disponíveis indicam como causa mortis insuficiência respiratória decorrente de pneumonite e que, diante da ausência de exame toxicológico realizado à época, não é possível confirmar ou excluir eventual intoxicação. O médico afirmou, ainda, que, em razão do longo período decorrido desde o óbito, a probabilidade de localização de vestígios de eventual substância tóxica nos restos mortais é consideravelmente reduzida e que eventual exumação ou análise de blocos de parafina possui baixa probabilidade de fornecer informação útil à investigação.
“Os resultados obtidos não permitiram superar a insuficiência probatória anteriormente constatada. Ao contrário, confirmaram a impossibilidade, diante dos elementos atualmente disponíveis, de estabelecer com segurança que a morte de Élede Guidi decorreu de causa externa de natureza criminosa”, escreveu o promotor Patrick Carvalho Silva.
Histórico de envenenamentos
Elizabete e o filho, o médico Luiz Antônio Garnica, de 38 anos, foram presos em 6 de maio pela morte da professora de pilates Larissa Rodrigues, 37 – esposa de Luiz e nora de Elizabete. A vítima foi encontrada sem vida no apartamento em que morava com o marido em 22 de março do ano passado em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Um laudo toxicológico apontou a presença de chumbinho no corpo de Larissa. A principal suspeita é que ela tenha sido morta envenenada pela sogra, com a conivência do marido.
Após a Justiça aceitar a denúncia do Ministério Público, mãe e filho se tornaram réus por feminicídio com três qualificadoras: motivo torpe, uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e insidioso ou cruel por envenenamento. Os dois irão a júri popular, que ainda não tem data marcada.
Com a repercussão do caso, a Polícia Civil passou a investigar a morte de Nathalia Garnica, 42, filha de Elizabete e irmã de Luiz. Ela morreu um mês antes de Larissa sob circunstâncias suspeitas, inicialmente por causas naturais, na cidade de Pontal, no interior paulista.
Após a prisão da dupla, o Instituto Médico Legal (IML) realizou um novo exame no corpo de Nathalia, que identificou a presença de chumbinho – mesmo veneno identificado no corpo da professora. Além disso, Elizabete foi a última pessoa a estar com ambas antes da morte.
Os indícos levaram a uma nova denúncia do MPSP contra a aposentada, desta vez por homicídio qualificado. Sobre a morte da filha, no entanto, a Justiça ainda não decidiu se ela será submetida a júri popular.

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Ver todasNa última sexta (25/4), a Justiça recebeu uma terceira denúncia contra Elizabete. Desta vez, pela tentativa de homicídio qualificado de Neuza Ghiotti, amiga da aposentada, com as qualificadoras de motivo torpe, emprego de veneno, meio insidioso e cruel e mediante dissimulação e recurso que dificultou a defesa da vítima, bem como com a agravante de ter cometido o crime contra maior de 60 anos.
Neusa foi envenenada em maio de 2017 também na cidade de Pontal, mas sobreviveu. Com a decisão, a acusada será julgada pelo tribunal do júri, ainda sem data prevista.
O que diz a defesa da aposentada
O advogado Bruno Ribeiro, que faz a defesa de Elizabete, afirma em nota que respeita a decisão da Justiça que torna a aposentada ré, mas discorda, “pois a denúncia tem por base o laudo pericial realizado de forma indireta”.
O defensor destacou trecho da denúncia que afirma que o quadro clínico de Neusa é compatível com intoxicação exógena, “no entanto, não existem elementos de certeza para afirmar que o quadro foi causado por esta intoxicação exógena”.
Segundo ele, “é grave constrangimento ilegal responder a uma acusação tão séria, por um fato que não existe qualquer certeza se ocorreu ou não”.
Ele destacou ainda que o pedido de prisão preventiva formulado pela promotoria foi negado pelo Juízo, principalmete porque os fatos ocorreram há quase nove anos.
Ao Metrópoles, o advogado encaminhou uma manifestação em vídeo. Veja:
Crimes tiveram motivação financeira, diz MP
Para a promotoria, ao menos dois dos três crimes supostamente cometidos por Elizabete tiveram motivação financeira. No caso da professora de pilates, a investigação apurou que Luiz estava tendo um caso extraconjugal, que foi descoberto por Larissa. Ciente da traição, a mulher passou a dizer que procuraria um advogado para se divorciar.
“Ele não estava em uma situação confortável financeira, a mãe também não. Então, com o divórcio, com certeza ele teria que dividir o apartamento que eles moravam e eventuais outros recursos, o que agravaria a situação financeira dele. Isso porque, além de ter que dividir o patrimônio, ele ainda estava ajudando a amante com certa quantia de dinheiro”, explicou o promotor Marcus Tulio Alves Nicolino.
O viúvo acessou as contas bancárias da esposa pouco depois da morte dela. Segundo Nicolino, em 24 de março, apenas dois dias após a vítima ser encontrada morta, o médico acessou a conta da esposa para pagar o IPVA do veículo dela. Na mesma data, ele também pesquisou os extratos bancários da mulher.
Em 26 de março, Garnica comunicou à Caixa Econômica Federal sobre a morte de Larissa com a intenção de quitar, com o seguro de vida, parte do financiamento do apartamento onde morava com a mulher. E, em 30 de março, ele criou um documento com uma nova senha para acessar um portal de seguros do qual a professora era cliente.
O gerente do banco no qual Larissa tinha conta prestou depoimento à Polícia Civil, confirmando as movimentações financeiras feitas pelo médico.
A investigação apurou ainda que ele pesquisou temas que denotam preocupação com o patrimônio da mulher, como “seguros e operações imobiliárias”, “fundo de garantia e rescisão contratual pós-falecimento” e “tabela Fipe do veículo Creta/2019”. Para a promotoria, as movimentações demonstram frieza.
Já a morte de Nathalia Garnica também teria motivação financeira. “Como a filha não era casada e não tinha filhos, com a morte dela, é claro que uma parte dos bens iria para a mãe”, disse à reportagem.
Quando outra filha de Elizabete foi acessar as contas da mãe após a prisão, descobriu que a genitora possui dívidas que somam R$ 320 mil. Segundo o MPSP, a aposentada era viciada em jogos de azar, o que levou ao acúmulo de débitos financeiros.

















