Juíza ameaça busca e apreensão na Rota por vídeo de câmera corporal
Magistrada cobra vídeos de ocorrência com morte em novembro. MPSP questiona se vítima, anunciada como “líder do PCC”, era membro da facção
atualizado
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A juíza Érica Pereira de Sousa, da 1ª Vara Criminal de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, ameaçou expedir um mandado de busca e apreensão no batalhão das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) para obter as imagens das câmeras corporais dos policiais militares envolvidos na ocorrência que terminou com a morte do advogado Carlos Alves Vieira, com nove disparos, em 28 de novembro de 2025.
O homicídio, que ocorreu em uma suposta troca de tiros, ganhou repercussão após o governo divulgar que o suspeito morto seria um importante líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) conhecido como Ferrugem e chegou a ser descrito em relatórios internos da Polícia Militar como “sintonia final”, grupo de liderança da facção criminosa.
No entanto, autoridades do setor de inteligência da Secretaria da Segurança Pública (SSP) e do Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público paulista (MPSP), afirmam que não há indícios de que Carlos Vieira seja líder do PCC, além de não possuir antecedentes criminais relevantes.
Desde a data do homicídio, o MPSP vem cobrando a apresentação dos vídeos da ocorrência. Na última sexta-feira (6/2), a juíza deu 24 horas para que o comandante da Rota, tropa de elite da PM, entregue os arquivos com as imagens captadas pela câmera corporal.
“A ausência ou o retardamento na entrega de imagens de câmeras portáteis (COPs) e de monitoramento local configura gravíssimo embaraço à Justiça. A prova digital, se não acautelada sob rigoroso protocolo técnico (como o registro de metadados e códigos hash), perde sua idoneidade probatória”, afirmou a juíza Érica Pereira de Sousa.
“Intime-se o Comandante da Unidade Militar envolvida na ação policial para que, no prazo improrrogável de 24 (vinte e quatro) horas, apresente em Juízo as mídias contendo as imagens das câmeras operacionais portáteis (COPs) e body-worn (BWCs) de todos os policiais que participaram da ocorrência, sob pena de busca e apreensão e crime de desobediência”, completou.
O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública se as imagens foram apresentadas. Até o momento da publicação não houve retorno. O espaço segue aberto.
“Sem qualquer vínculo com PCC”
Um dia antes da decisão da magistrada, o promotor Bruno Grecco Cardoso, da 6ª Promotoria de Justiça de Itaquaquecetuba, afirmou que a versão dos policiais militares da Rota que mataram Carlos Alves Vieira, em 28 de novembro, está “em xeque”, diante de informações de que ele era “um cidadão sem antecedentes criminais” e “sem qualquer vínculo com facções criminosas”.
“Os autos revelam contornos de extrema gravidade. O que se iniciou como apuração de morte em intervenção policial transmuta-se, diante de novas informações, em investigação de possível execução sumária de um cidadão sem antecedentes criminais relevantes e sem qualquer vínculo com facções criminosas, conforme aponta a Ouvidoria da Polícia Militar”, disse o promotor.
Cardoso acrescentou, ainda, que “a narrativa dos agentes públicos, que outrora gozava de presunção de legitimidade, encontra-se hoje sob severo xeque”. Para ele, “a existência de 9 ferimentos perfurocontundentes, inclusive em regiões dorsais, somada ao evidente embaraço na entrega das imagens das câmeras corporais (COPs), aponta para uma tentativa deliberada de obstar o esclarecimento dos fatos”.
O representante do MPSP disse que a demora na apresentação das imagens é um “indício de embaraço investigativo” e que “qualquer hiato ou edição nas imagens será interpretado como indício de fraude processual”.
“Sintonia final”
O relatório interno compartilhado por comandantes em grupos de WhatsApp da Polícia Militar afirma que Carlos Vieira, que seria conhecido como Ferrugem, teria crescido rapidamente na facção e estaria envolvido, inclusive, com “rotas internacionais do tráfico” e com a distribuição de drogas e armas em larga escala.
Para sustentar a tese de que Vieira seria uma liderança do PCC, foi mencionada uma investigação sobre tráfico de drogas que teve início em 2022. Vieira foi alvo, mas nada foi provado contra ele, e o caso foi arquivado.
“Em que pese as diligências encetadas e o esforço policial, não foi possível apontar com segurança o envolvimento dos investigados na prática do delito de tráfico de drogas, tampouco que estavam agindo associados para a comercialização ilícita de entorpecentes”, diz a investigação.
A suposta atuação no tráfico citada pela polícia parece ter surgido desse inquérito, que, na verdade, não comprovou qualquer crime.
Outro Ferrugem
O repórter Josmar Jozino, do UOL, publicou uma reportagem mostrando que o Ferrugem conhecido pelas autoridades carcerárias e apontado como de altíssima periculosidade chama-se Adilson da Daghia, 56. Ele foi condenado pelo assassinato do juiz Antônio Jose Machado Dias, o Machadinho, mas está foragido. A polícia, no entanto, nega ter confundido ambos Ferrugens.
Após os questionamentos, porém, a polícia foi mudando de tom e a menção à liderança do PCC foi escanteada nos posicionamentos, embora o governo ainda acuse o homem de ser faccionado.
Em relatório de inteligência ao qual o Metrópoles teve acesso, a PM afirma que a confusão foi provocada uma “divergência conceitual” sobre o que seria “sintonia”.
Segundo o relatório, o termo “sintonia final”, que antigamente era usado para se referir aos chefões do PCC, teria sido “banalizado” pelos próprios criminosos e agora estaria sendo utilizado pelos criminosos em esferas regionais e até para se referir a lideranças de bairros e comunidades.
Família
Em uma postagem na rede social na época, uma familiar defendeu Carlos Vieira e contestou as informações divulgadas pela polícia. Segundo ela, “a famosa ‘ficha cheia de passagens’ só existe na história que a TV contou”.
Ela também descreveu Vieira como alguém que costumava ajudar sua comunidade e “era respeitado como advogado, empresário e pai”. “Era tão ‘temido’ que o bairro inteiro está de luto e completamente devastado com a sua partida”, escreveu.
Na Junta Comercial, Vieira aparecia como sócio de uma empresa do ramo de motocicletas em Itaquaquecetuba. Ele também estava inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na subseção do Arujá, desde junho de 2025.










