Gafisa usou advogado operador de Vorcaro para ocultar fortuna no Master
Construtora Gafisa foi acusada por credores de usar fundo para blindar patrimônio. Advogado do Master que foi preso pela PF aparece em ação
atualizado
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A construtora Gafisa, que tem o investidor Nelson Tanure como acionista, foi acusada de fazer uma dobradinha com o Banco Master para dar calote em credores e blindar seu patrimônio, com ajuda do escritório do advogado Daniel Lopes Monteiro, preso sob suspeita de ser operador jurídico e financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro.
A acusação de credores da construtora é que a blindagem se daria por meio do fundo Bergamo, gerenciado pela Trustee DTVM, propriedade de Maurício Quadrado, que já foi sócio do Master e é investigado pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero, a mesma que prendeu Vorcaro e que também investiga Tanure.
Uma ação da empresa Polo Securitizadora contra a Gafisa descreve o que seria o modus operandi da construtora, em um suposto conluio com o Master. No processo, a empresa cobrava uma dívida de R$ 24 milhões da Gafisa, que vive complicada situação financeira há anos — em 2025, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou Tanure por operações fraudulentas na construtora.
Apesar de ter conseguido ordem de penhora, em três anos, a Polo só conseguiu bloquear pouco mais de R$ 800 mil da construtora. Então, a empresa descobriu que a Gafisa era dona de 100% do fundo Bergamo, cujo patrimônio divulgado em 2022 era de R$ 129 milhões, e conseguiu ordem para penhorá-lo.
Atuação de advogado do Master
Foi neste momento do processo que suriu o nome do advogado Daniel Monteiro. Ele é sócio do escritório Monteiro, Rusu, Cameirão e Bercht Advogados, que entrou com ação em nome do Master com o objetivo de impedir a penhora do fundo Bergamo, sob a alegação que ele estava alienado fiduciariamente ao banco de Vorcaro.
Ao Metrópoles a defesa de Monteiro disse que o advogado “sempre atuou de forma técnica” e que a ação da Polo contra a Gafisa é “mais uma entre milhares que seu escritório atuou na defesa de clientes”.
Na ação, a Polo Securitizadora afirmou não haver qualquer prova da tal alienação e descreveu uma jogada combinada para blindar o patrimônio da Gafisa, que poderia seguir aportando e resgatando valores no fundo sem ter que honrar ordens judiciais de pagamento a credores.
“A operação de crédito invocada pelo Banco Master não passa de um estratagema (não muito sofisticado, aliás) para criar obstáculos aos credores da Gafisa na localização de patrimônio da Gafisa – o que reforça que ambas as sociedades atuam em conjunto para, dentre outros, burlar penhoras”, diz a ação.
Documentos no processo mostram que a conta bancária Gafisa era mantida junto ao Master, que, por estar negativa, não era alcançada por penhoras, mesmo tendo que pagar milhões em juros. Apesar de estar no vermelho, a Gafisa seguiu com aportes milionários ao fundo Bergamo que, “por sua vez, aplica boa parte desse dinheiro em empresas vinculadas ao Banco Master”.
Após a exposição do suposto esquema, o Banco Master acabou desistindo do pedido e o caso foi resolvido com um acordo entre as partes. Por meio de nota, a Gafisa afirmou que “o litígio com a Polo Capital se encerrou há pelo menos dois anos” e que “a parceria entre ambas foi retomada e segue em boa ordem”. Por fim, a Gafisa afirmou que “não comenta assuntos relacionados a acionistas”.
Engenharia de fundos
O Metrópoles apurou que, no Master, o advogado Daniel Monteiro cuidava de todas as operações de direito creditório – ativos financeiros relativos a valores a receber por pessoas ou empresas. Nessa condição, ganhou uma sala no edifício Victor Malzoni, sede do Master na Avenida Faria Lima, em São Paulo, e a fama de especialista em direito creditório no mercado financeiro.
Agentes da Faria Lima relataram à reportagem que esse modelo de operação financeira fez Monteiro “ganhar muito dinheiro” e que o advogado era “viciado em Porsches”, ostentando diferentes versões do carro de luxo.
Monteiro é considerado pelos agentes do mercado um especialista em operacionalizar uma complexa engenharia de fundos voltada a blindar bens do Master. “O escritório do Daniel tinha dois principais clientes: Banco Master e Reag. As operações estavam sempre interligadas. O Daniel [Monteiro] era o responsável por toda a estruturação dos fundos”, afirmou uma fonte ligada ao setor ouvida pelo Metrópoles. Assim como o Master, a gestora Reag também foi alvo da PF e liquidada pelo Banco Central (BC).
No caso da Gafisa, o fundo Bergamo é descrito em ações de credores como peça fundamental para blindagem de valores e de ligação entre a construtora e o Master. Em apenas três anos, segundo os documentos anexados ao processo entre Master, Gafisa e Polo, houve uma movimentação de mais de R$ 2 bilhões, por meio de 138 aplicações e 178 resgates.
A conexão voltou aparecer recentemente. Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, no mês passado, o empresário Vladimir Timerman, da Esh Capital, detalhou um dos caminhos pelos quais o dinheiro da Gafisa sairia do fundo Bergamo, passando pelo fundo pelo MN I e chegando ao Master.
Aos parlamentares da CPI, Timerman foi ainda mais longe. Disse que Tanure é o verdadeiro dono da Trustee, administradora do Bergamo, que tem como gestora a MAM Asset, que é controlada pelo grupo de Daniel Vorcaro.
Ação movida pela Klabin
A jogada combinada da Gafisa com o Master para enganar os credores aparece em uma outra ação, movida da família Klabin, herdeira da gigante do papel e celulose Klabin. Novamente, os personagens são os mesmos: Master, Gafisa e Trustee.
A Klabin cobrava uma dívida e só localizou R$ 0,01 na conta da Gafisa. Mais uma vez, encontrou resistência para acessar recursos do fundo Bergamo, uma vez que a Trustee não transferiu R$ 25 milhões sob o argumento de que os valores estavam alienados ao Master.
A petição da família Klabin sustentou que existia uma “complexa estrutura societária” criada para proteger os interesses da Gafisa e de seu acionista controlador de fato, Nelson Tanure. Apontou, ainda, um suposto conluio entre a Gafisa, o Master e a Trustee para simular garantias (alienações fiduciárias) sobre as cotas do fundo Bergamo, visando torná-las impenhoráveis perante outros credores.
Em dezembro de 2024, a Justiça concedeu a penhora ao fundo Bergamo e ainda rebateu alegação da Trustee de que deveria aguardar o fim do prazo do fundo para liberar os valores.
“Não há motivo para prosperar a alegação da Trustee no sentido de que o resgate deveria aguardar o término do prazo de duração do fundo Bergamo, já que o exequente demonstra que o referido fundo tem prazo de duração indeterminado”, diz a decisão. “Nestes termos, verifica-se que há indevida recusa da Trustee em dar cumprimento à ordem judicial, o que é inadmissível”.
