De cachê atrasado à vigilância em banheiro: como foi fazer Dark Horse
Denúncias no set de filmagens de Dark Horse, filme biográfico de Jair Bolsonaro, revelam condutas abusivas por parte da produção
atualizado
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O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo (SATED-SP) recebeu uma série de denúncias envolvendo os bastidores do filme “Dark Horse”. Trata-se da polêmica biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro financiada parcialmente, segundo revelação do Intercept Brasil, pelo banqueiro preso Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master.
A obra é alvo da Polícia Federal por suspeita de financiar o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) em articulações internacionais contra autoridades brasileiras. Os recursos foram solicitados pelo senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao menos 15 pessoas revelaram condutas abusivas por parte da produção, incluindo revistas descabidas, cachê atrasado e vigilância até durante uma ida rápida ao banheiro.
As denúncias foram reunidas pelo sindicato em um relatório ao qual o Metrópoles teve acesso. A reportagem também conversou com fontes que trabalharam no set de filmagens do longa-metragem e endossaram os relatos.
“Até ao banheiro, até à porta do banheiro, acompanhavam a gente. E a gente não podia ir na hora. Tinha que ser na hora que eles queriam pra gente ir no banheiro”, afirmou o ator Fábio Gamboa, um dos figurantes do filme.
Diárias atrasadas
Apesar do orçamento milionário do longa, que recebeu aporte de R$ 61 milhões somente de Vorcaro, fontes ouvidas pela reportagem também afirmam que a diária paga era abaixo do valor praticado pelo mercado em produções do mesmo porte — R$ 100 para figuração comum e R$ 170 para o elenco de apoio.
Além do cachê inferior ao de costume, as denúncias também citam atraso nos pagamentos.
“Atrasaram o cachê também. Primeiro falaram que era com 10 dias, 15 dias. Chegou a passar mais de 30 dias para fazer o pagamento”, lembra Gamboa.
Um outro figurante também relatou ter sido agredido no set. O Metrópoles teve acesso ao boletim de ocorrência de Bruno Henrique Martins dos Santos. Ele foi participar de uma gravação no Memorial da América Latina e passou pela revista.
Os profissionais eram orientados a não ficar com o celular durante o trabalho, assim, era necessário guardar o aparelho em uma mochila. Bruno manteve o telefone mesmo assim. Ele guardou o aparelho na blusa, mas foi flagrado pela equipe de segurança do set.
Bruno foi expulso do local onde ocorria a gravação. Enquanto era levado para fora, um dos seguranças iniciou a agressão.
“O cara meteu o dedo na minha cara, então eu empurrei ele, falei: ‘Se toca, você acha que você é quem?’. E ele começou a me dar soco, acertou meu rosto e minha testa. O óculos caiu pra trás, para baixo da ponte, quase que eu caio junto. Desci correndo para pegar o óculos, e ele veio atrás e deu uma batida na lateral da minha perna. Machuquei minha perna, fiz o exame de corpo delito que confirmou”, contou o figurante ao colunista Demétrio Vecchioli do Metrópoles.
“Me expulsaram literalmente”
Outras queixas incluem comida estragada e tratamento diferenciado entre o elenco estrangeiro e a figuração brasileira. Enquanto a equipe internacional tinha direito a refeição self-service no café da manhã, almoço e jantar, os figurantes recebiam o chamado “kit lanche”, que incluía um pão, uma maçã, um suco e um bombom, segundo os entrevistados.
“Um fiscal começou a gritar comigo, falando que eu tava desrespeitando o serviço dele, porque eu não queria pegar o kit lanche. Me forçando a assinar um papel, como se eu tivesse pego o kit lanche, sendo que eu não peguei”, declarou a figurante Joy Patente à reportagem. Pouco tempo depois, ela diz ter sido expulsa do set de filmagens.
“Ele começou a dar um show, a xingar, me expondo ao ridículo na frente de todo mundo. Quando eu ia começar a gravação, simplesmente me chamaram de canto, falando que era para eu poder me destrocar, porque eu estava dispensada. Aí eles foram, me levaram até a porta e não deixaram eu gravar mais. Me expulsaram literalmente”, acrescentou ela.
Por telefone, o SATED-SP reforçou que não é o responsável pelas denúncias, apenas as recebe e repassa aos órgãos competentes, como o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Os figurantes ouvidos pela reportagem disseram ter sido recrutados por uma agência de casting, a JD Produções. O Metrópoles procurou a agência, mas não obteve retorno até o momento de publicação desta reportagem. A produtora Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, também foi procurada, mas não respondeu. O espaço permanece aberto em caso de eventuais manifestações.
























