CVM encerrou investigação sobre laranja do Master após Carbono Oculto
Investigação sobre Fundo Borneo, apontado como laranja do Master, foi encerrada com apenas um alerta, cinco dias depois de operação da PF

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) encerrou apenas com um alerta a investigação sobre o Fundo Borneo, gerido pela Reag e suspeito de ter sido usado pelo Banco Master para comprar ações do Banco de Brasília (BRB). A decisão foi tomada cinco dias após a Operação Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), fazer buscas na sede da gestora na Faria Lima, na capital paulista.
A autarquia não abriu processo sancionador nem investigou quem eram os beneficiários do Fundo Borneo. O patrimônio líquido do fundo cresceu R$ 221 milhões entre novembro e dezembro de 2024. Àquela altura, já haviam vindo a público suspeitas de que fundos de investimento da Reag eram usados para lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Tanto a Reag quanto o Master foram liquidados pelo Banco Central (BC) por graves violações às normas que regem o sistema financeiro.
Denúncia à CVM
Em maio de 2025, o empresário Vladimir Timermann, da Esh Capital, denunciou os movimentos à CVM, levantando a hipótese de que a expansão do patrimônio do Fundo Borneo teria sido usada para comprar ações do BRB. Esses títulos resultaram de um aumento de capital do banco aprovado em 27 de dezembro de 2024, mesma época do aporte multimilionário no fundo.
A CVM optou por enviar um ofício à Reag alertando sobre falhas de transparência e comunicação, já que o Fundo Borneo não comunicou à autarquia e ao BRB alterações na participação acionária e divulgou informações imprecisas em informes quadrimestrais.
O ofício de alerta, que encerrou a apuração da CVM, foi assinado pelo então superintendente de Relações com Investidores Institucionais, Marco Antonio Velloso de Sousa. Ele foi exonerado do cargo em abril deste ano, como resultado de um grupo de trabalho da autarquia que analisou mais de 300 processos relacionados a empresas investigadas nos casos do Banco Master e da gestora Reag.
Auditoria do BRB
Embora a investigação da CVM não tenha indicado quem está por trás do Fundo Borneo, em uma auditoria encomendada pelo BRB em dezembro de 2025, o fundo foi apontado como estrutura usada pelo Banco Master como “laranja” para comprar títulos do BRB, como mostrou a coluna Grande Angular, do Metrópoles.
A auditoria, feita pelo escritório de advocacia Machado Meyer e a consultoria Kroll, identificou os três filhos de João Carlos Mansur, dono da Reag, como beneficiários finais do Fundo Borneo, sendo que a filha mais nova tinha 17 anos à época do aumento de capital. Procurada, a Reag disse que não iria se pronunciar.

O Borneo integra uma cadeia de fundos que inclui Olaf 95, Hans 95 e Sven. Segundo a investigação da Operação Carbono Oculto, os fundos Olaf 95 e Hans 95 teriam sido usados para lavar dinheiro do PCC por meio de fundos de investimento.
A operação foi deflagrada em agosto de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Receita Federal.
Entenda o processo da CVM
A CVM abriu um processo administrativo, em maio do ano passado, a partir da denúncia protocolada por Vladimir Timermann. Ele queria que a autarquia investigasse se a estrutura do Fundo Borneo foi usada para alterar participações relevantes no BRB de forma oculta.
O aporte de R$ 221 milhões no Fundo Borneo ocorreu entre novembro e dezembro de 2024, mesmo período que o BRB aprovou aumento de capital.
Entre 3 e 10 de janeiro de 2025, o fundo distribuiu R$ 188 milhões por entrega direta de ativos, incluindo ações do BRB, aos cotistas. Em 28 de março de 2025, o Banco de Brasília divulgou a aquisição de 58% das ações do Banco Master.
Em 29 de abril de 2025, o Banco Central (BC) homologou nova composição acionária do Banco de Brasília. As mudanças ocorreram após um aumento de capital do banco de R$ 1,5 bilhão para R$ 2,3 bilhões.
As participações do Governo do Distrito Federal, em ações ordinárias do BRB, caíram 4% e, em ações preferenciais, caíram 18%. Já as ações preferenciais do Fundo Borneo caíram 4%.
Enquanto isso, um grupo de “outros acionistas” ampliou as ações ordinárias do banco em 4% – percentual equivalente à perda do BRB – e aumentou a participação nas ações preferenciais em 22%, o que equivale à soma das perdas do BRB e do Fundo Borneo.
Na reclamação, Timermann solicitava a identificação dos cotistas do Fundo Borneo e dos “outros acionistas” do BRB.
A suspeita é de que ambos integrem o mesmo grupo que operou a compra de títulos supostamente fraudulentos do Banco Master pelo BRB. Segundo o denunciante, o aporte no Borneo teria financiado a ampliação da participação desse grupo no banco.
Ou seja, os grupos Reag e Master teriam patrocinado a redução de capital do BRB e promovido o grupo de “outros acionistas”. A suspeita levantada por Timermann é que esse grupo estivesse ligado à Reag e ao Master.
CVM alega “lapso” da Reag
As movimentações deveriam ter sido informadas à CVM, que determina comunicação imediata em mudanças de participação societária que ultrapassem, para cima ou para baixo, patamares de 5%, 10%, 15%, e assim sucessivamente.
O processo administrativo da CVM, no entanto, não chegou à conclusão de quem eram os tais “outros acionistas”, nem mesmo a origem dos R$ 221 milhões, constatando apenas, em um ofício de alerta, que essas movimentações não foram comunicadas pelo fundo nem informadas pelo BRB como fatos relevantes.
Nos autos, a Reag admitiu o erro. Em 10 de junho de 2025, a gestora disse que “um lapso” fez com que a CVM não fosse comunicada sobre a diluição da participação do Fundo Borneo nas ações do BRB, e um aumento expressivo das cotas de um grupo identificado como “outros acionistas”.
Sobre as inconsistências em relação à divulgação do patrimônio líquido do Fundo Borneo, a Reag justificou como um “mero erro material”.
Delator ataca omissão da CVM
Autor da denúncia, Vladimir Timerman diz que faz acusações sobre personagens vinculados ao Caso Master desde 2023. que se tivessem sido apuradas pela CVM, poderiam ter evitado R$ 30 bilhões de perdas no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) – estima-se que o rombo tenha chegado a R$ 52 bilhões.
“A CVM tinha todas as condições, se tivesse feito uma mínima diligência, de ter sido protagonista”, afirmou Timerman ao Metrópoles.

Timerman diz que tem denúncias direcionadas a alguns servidores da CVM, que ele identificou como responsáveis por travar o trabalho de fiscalização do órgão. Um dos principais alvos das críticas é João Pedro Nascimento, que presidiu a autarquia até julho do ano passado.
“Ele [Nascimento] falou que eu fiz bullying com ele. Um servidor público falar que um cidadão que está cobrando ele de fazer o trabalho dele é considerado bullying e falar que renunciou entre a minha cobrança e a pressão do outro lado? Então, entre essas duas escolhas, ele escolheu a decisão covarde de renunciar”, atacou.
Depois, de Nascimento, a CVM foi presidida interinamente por Otto Lobo durante o segundo semestre de 2025 — que foi recentemente sabatinado no Senado e deve assumir definitivamente a chefia da autarquia. Depois do mandato interino de Lobo, João Accioly ficou na presidência provisória da CVM. Essa gestão recebe elogios do denunciante, principalmente por ter instaurado um grupo de trabalho sobre Reag e Banco Master, que culminou na exoneração de servidores.
“Accioly chegou e exonerou, no formal fala que foi ‘a pedido’, mas ele vai no jornal e diz que teve relação direta. Ele exonera o Alexandre Pinheiro, que era o subintendente geral que estava lá há 13 anos. Exonera o Velloso que é o cara do ofício de alerta cinco dias depois da Carbono Oculto”, disse Timerman.
“O ofício de alerta é um tapinha na mão, um puxãozinho de orelha que ninguém fica sabendo e é usado para encerrar qualquer tipo de processo”, completou o denunciante.
Grupo de trabalho aponta ofícios de alerta
O grupo de trabalho Reag e Master identificou que 65 investigações foram encerradas com ofícios de alerta em seis superintendências.
No entanto, houve uma concentração expressiva da Superintendência de Relações com Investidores Institucionais, que era comandado por Marco Antonio Velloso de Sousa, responsável por 48 desses ofícios.
A maioria dos ofícios foi emitida “por envio de informações incorretas ou intempestivas nos informes diários de fundos”, diz o relatório do grupo de trabalho.
Procurada, a CVM disse que não comenta casos específicos.

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