Suzano: sete dias entre os extremos da dor e do jornalismo

Nessa semana em Suzano (SP), aprendi a viver o luto, mesmo quando quem partiu é uma pessoa que sequer conheço

Rafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 20/03/2019 19:37

Não houve um dia sequer no qual eu abrisse a janela do meu quarto de hotel e não visse a Arena Suzano, no Parque Max Feffer. Lá, a maior parcela das vítimas do massacre na Escola Estadual Raul Brasil foi velada. O local, antes conhecido pelas partidas de basquete, agora é sinônimo de tristeza.

Os últimos sete dias foram de trabalho intenso e de sensações jamais sentidas. A perna tremeu, o braço perdeu a força, a respiração ficou sufocada e os olhos, marejados. Em muitos momentos, não foi possível conter as lágrimas.

Durante toda a cobertura da chacina em Suzano, uma frase escrita em um cartaz fixado no muro do colégio ecoou em meus pensamentos:

É a nossa dor que alimenta as reportagens da imprensa. Diz o que custa pedir licença?

Como abordar pessoas que estão vivendo momentos extremos de dor? O que falar para elas? Por precaução ou por instinto, toda abordagem que fiz foi acompanhada de um abraço. Silencioso ou com uma palavra de consolo. Era o mínimo que eu poderia oferecer no momento.

O olhar humanizado, na maioria das vezes, sobrepôs-se à técnica jornalística. O tão perseguido lead –conjunto de informações principais de uma reportagem – em alguns minutos saiu de cena para dar destaque ao lamento de uma cidade. É indescritível a sensação de entrevistar uma pessoa que perdeu o sentido da vida e espera que o pesadelo finde.

A tragédia, inesquecível por sua brutalidade, traz personagens que tocam a alma, mesmo em um momento de tão dura consternação. A serenidade de Gercialdo Melquiades de Oliveira, de 38 anos, pai de Samuel Melquiades Silva de Oliveira, de 16, morto na tragédia, é admirável.

Ao contar qual foi o último contato com filho vivo, ele me desmontou. O toque de mão acompanhado de um “tchau, pai” foi um dos momentos mais difíceis de enfrentar nessa empreitada jornalística.

Horas depois do ataque, o estudante Vitor Gabriel Tolosa, de 17 anos, segurava em meu braço para contar como escapou da morte. Jamais esquecerei o olhar apavorado do garoto.

Entrevistar o avô de um dos assassinos, Benedito Luiz Cardoso, de 57 anos, o homem que criou Guilherme Taucci Medeiros, 17, remexeu todos os sentimentos que acumulei durante essa cobertura. Choramos juntos, abraçados em sua casa.

Desde o dia 13 de março, tenho pensado no que é a dor. Ainda não consigo responder. Sei que ela sufoca, maltrata e deixa marcas indeléveis. Aprendi a viver o luto, mesmo quando quem partiu é uma pessoa que sequer conheço.

Está cravado em minha memória o cheiro das velas queimando, as luzes das sirenes, o odor das flores e o toque de cada pessoa com quem cruzei nesta cidade. Junto com as vítimas que morreram, morreu também Suzano e um pouco de mim

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Um dos raros contrapontos da tristeza foi acompanhar a volta para casa do estudante José Vitor Ramos Lemos, de 18 anos, que correu até o hospital com um machado cravado no ombro. Ele sorri com a alma.

No liquidificador de sentimentos, tive que equilibrar a dosagem das reações para conseguir levar da melhor forma que pude a informação ágil, precisa e inédita para os leitores do portal Metrópoles.

Nessa última semana, eu e a repórter fotográfica Rafaela Felicciano conhecemos pais de vítimas, sobreviventes, investigadores e um sem número de moradores de Suzano. Mais que trabalharmos juntos, nos amparamos em momentos de profunda emoção.

A generosidade dos moradores de Suzano é imensa. Ela veio em forma de refúgio para os estudantes que corriam para escapar da morte: a comunidade abriu suas casas para abrigá-los. Depois, apareceu em forma de copos d’água, pontos de energia elétrica, de bilhetes carinhosos e de abrigo do sol e da chuva.

Também fomos consolados quando o trabalho da imprensa era rispidamente criticado. Uma senhora vizinha do colégio Raul Brasil certo dia me abraçou e disse: “Não se preocupe, no fundo, sabemos que você só está trabalhando. Cumprindo sua missão ”, afirmou, ao me afagar.

Raul Brasil, educador que dá nome à escola que se tornou palco do massacre sangrento, entrou para a história ao mudar o ensino na região paulista. Agora, o nome dele aparece em um capítulo triste da educação brasileira.

Espero que toda tristeza seja transformada em força de mudança. Uma verdadeira arrancada rumo a um futuro melhor, onde mentes perturbadas sejam percebidas e tratadas. Que a tragédia de Suzano mude a rota do ódio.

Veja outras imagens da cobertura do Metrópoles do massacre em Suzano:

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* Otávio Augusto integra a equipe da Editoria Nacional do Metrópoles desde fevereiro de 2019. Ele e a repórter fotográfica Rafaela Felicciano foram os enviados especiais do site para Suzano (SP), onde cobriram desde o início o massacre na Escola Estadual Raul Brasil

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