Em Suzano, o lamento de uma mãe: “Meu filho não fazia mal a ninguém”

Elisangela Brito de Oliveira Cordeiro e o marido, Edilson, foram pela 1ª vez à escola onde Caio, o caçula do casal, perdeu a vida

atualizado 19/03/2019 9:03

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Enviado especial a Suzano (SP) – Inconsolável e com passos lentos, a mulher chegou nesta segunda-feira (18/3) à Escola Estadual Raul Brasil de mãos dadas com o marido, e, em alguns momentos, amparando-se no muro da instituição. Tocava a parede como quem busca equilíbrio. Pela primeira vez após seu filho, mais quatro alunos e duas servidoras serem assassinados dentro da unidade, a universitária Elisangela Brito de Oliveira Cordeiro, 39 anos, esteve no local do massacre, ocorrido na quarta-feira passada (13/3).

Nesta segunda, Elisangela foi uma das parentes de vítimas que, ao lado de moradores de Suzano e comunidade escolar, procuraram atendimento psicológico oferecidos por profissionais do estado e do município no colégio. Ao seu lado, estava o marido, o autônomo Edilson Gomes de Oliveira, de 47 anos. Ambos chegaram ali medicados, sob efeitos de calmantes.

Elisangela e Edilson (foto em destaque) são pais de Caio Oliveira (foto abaixo), de 16 anos, um dos primeiros estudantes atacados pelos ex-alunos Guilherme Taucci Medeiros, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25, dentro da escola há uma semana. Antes de chegar ali, a dupla homicida executou um tio de Guilherme em um comércio próximo. Depois da matança no colégio, o adolescente assassinou o comparsa e, na sequência, tirou a própria vida, também dentro da instituição de ensino.

Reprodução
Caio Oliveira foi um dos primeiros alunos a morrerem dentro da escola, em Suzano

 

“Estamos tentando, aos poucos, retomar a rotina, mas é difícil sem o Caio. Dentro de casa, só temos lembranças boas dele. Pensamos na nossa dor e na dos outros pais, que também perderam os filhos”, contou Elisangela ao Metrópoles.

Os bons modos eram a marca do menino apaixonado por basquete e fã de rap. “Ele pedia desculpas por tudo. Tinha medo de machucar as pessoas. Ele era muito bom. Me consola um pouco ouvir as pessoas falarem tão bem dele. Todo mundo fala da gentileza dele”, acrescenta a mãe.

Ela – e os outros familiares de vítimas – busca uma explicação para a tragédia que interrompeu a vida do seu menino. “O meu filho não fazia mal para ninguém. Ele queria viver a vida, fazer as coisas dele, assim como todas as crianças que se foram nessa carnificina. Ele deixou um legado bom, isso que importa”, completa Elisangela.

Rede de apoio
Durante a visita, ela se emocionou com as homenagens prestadas por colegas e moradores de Suzano, como as cartas deixadas pela comunidade no muro da escola após a tragédia. Ela passou alguns minutos lendo as mensagens. Foi amparada por quem passava pelo local.

“É um vai e vêm de sentimentos. Ainda está muito recente. Em casa, são muitas lembranças dele. A rotina muda, mas tem que levantar a cabeça e continuar”, diz Edilson, pai de Caio. O autônomo conta que o menino era o caçula dos três filhos dele e Elisângela.

Segundo a mulher, as filhas, de 20 e 18 anos, têm ajudado o casal a aguentar a dor da perda. “Elas estão dando muita força para a gente. Estão segurando toda a barra. Pessoas que nem conhecemos vêm nos abraçar, dar uma palavra amiga, isso ajuda muito”, emenda Elisangela. Durante toda a conversa, a voz da mãe sai embargada, em um fio.

“Estou tomando calmante para dormir. Comer é difícil, a comida não desce. A minha vida desestabilizou por completo”, conta. Ela faz uma pausa e, com um esforço, detalha como recebeu a notícia da chacina. “Fiquei sabendo por acaso. Estava no meu estágio, num hospital, e ouvi comentários [sobre o ataque]. Logo, vim para cá. Foi um tormento, uma angústia até confirmar que eu tinha perdido meu filho”, lamenta.

Desde então, Elisângela tem lapsos de memória. “Algumas coisas eu esqueci, foram se apagando da minha cabeça. Outras, eu não recordo. Tiveram pessoas que me ajudaram e eu não lembro. Mas sou muito agradecida. Todo o cuidado que eu recebi foi muito importante”, conclui.

Veja fotos do dia de acolhimento na Escola Estadual Raul Brasil: 

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Investigações
Nesta terça-feira (19/3), a escola Raul Brasil segue aberta para atendimentos psicológicos. As aulas permanecem suspensas. A Secretaria de Educação de São Paulo, que antes havia marcado o retorno das aulas para a próxima segunda-feira (25), não voltou a confirmar quando as atividades pedagógicas serão retomadas.

A psicóloga Luciana Inocêncio, da Secretaria de Justiça paulista, participa do trabalho de acolhimento à comunidade escolar e considera tudo muito recente para se pensar em volta às aulas. “Não é só colocar os estudantes nas salas. As atividades pedagógicas devem ser reintroduzidas aos poucos. Inicialmente, temos que atrair os alunos para a escola a fim de participarem de atividades das quais gostem”, destacou.

Nesta segunda, muitos pais e estudantes estiveram no local para deixar materiais largados para trás por outros alunos e recolhidos por eles. As obras no colégio ainda não foram concluídas. A instituição, por exemplo, continua sem placa de identificação. As paredes estão sendo pintadas de azul.

Enquanto a população era acolhida neste primeiro dia no colégio Raul Brasil, a cúpula da Segurança Pública envolvida na elucidação do caso se reunia na capital paulista para determinar os próximos passos da apuração. O adolescente de 17 anos suspeito de ser o terceiro envolvido no planejamento do massacre pode ser apreendido. Pedido nesse sentido foi apresentado à Justiça, nesta segunda.

O segundo pedido de apreensão ocorre três dias após o jovem se apresentar, prestar depoimento por quase três horas e ser liberado. Ele é acusado de instigação ao crime. Para os investigadores, há indícios claros de que o rapaz também arquitetou o ataque, junto com os ex-alunos que executaram a chacina: ele teria, inclusive, intermediado a compra das armas e outros itens usados no crime.

Nesta terça, um ato em memória das vítimas será realizado no Raul Brasil. Além das homenagens, a comunidade escolar cobrará respostas para o crime planejado durante um ano. Das mais de 20 pessoas feridas na ação, quatro estudantes continuam hospitalizados.

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