The Guardian: Trump trata soberania do Brasil como “prática desleal”
Editorial do jornal britânico critica tarifaço dos EUA, cita Pix e STF e aponta apoio do bolsonarismo à estratégia de Trump

Um editorial do jornal britânico The Guardian afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou decisões soberanas do Brasil em supostas “práticas comerciais desleais” para justificar a cobrança da nova tarifa de 25% aplicada sobre produtos brasileiros.
No texto, publicado na terça-feira (14/7), o jornal cita como exemplo o Pix e a decisão do STF que ampliou ainda mais a responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos antidemocráticos e discursos de ódio.
Para o veículo, essas são medidas de autonomia do Estado brasileiro, mas que passaram a ser tratadas pelo governo Trump como ações contra os interesses dos EUA.
Tarifaço de 25%
- A análise saiu um dia antes de Washington confirmar a tarifa adicional de 25% sobre produtos do Brasil.
- O anúncio foi feito na quarta-feira (15/7), após investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que acusa o país de adotar práticas consideradas prejudiciais a empresas e exportadores americanos.
- As novas tarifas começam a valer em 22 de julho. Mas a lista traz várias exceções. Ficam de fora da cobrança extra produtos como café, carne bovina, peixe, terras-raras e laranja.
- Após o anúncio, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, culpou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelas tarifas.
Pix e redes sociais
No editorial, o jornal diz que o Pix é uma infraestrutura financeira pública, e o sistema reduz a dependência do Brasil de empresas estrangeiras de pagamento, como Visa e Mastercard, ambas norte-americanas.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“O Brasil construiu um sistema público de pagamentos e reivindicou jurisdição sobre plataformas tecnológicas americanas. Trump reinterpretou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a compactuar com isso”, afirma o editorial.
O texto também menciona a decisão do STF de junho de 2025, que tornou plataformas mais responsáveis por publicações de usuários com discurso de ódio e ataques à democracia.
Para o jornal britânico, a medida foi uma resposta à disseminação de desinformação que ajudou na tentativa de golpe após as eleições de 2022. O editorial diz ainda que a decisão atingiu interesses de empresas de tecnologia, como a rede social X, de Elon Musk, e entrou no pacote de críticas dos EUA ao Brasil.
Família Bolsonaro
O editorial fala ainda sobre a atuação da família Bolsonaro antes da decisão da Casa Branca.
A nova medida veio dias depois de o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ir aos EUA. Há cerca de uma semana, ele defendeu, nas palavras do jornal, que as práticas consideradas desleais do Brasil eram “culpa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
No editorial, o The Guardian diz ainda que Flávio pediu a suspensão das tarifas até as eleições. O argumento, segundo o jornal, é de que ele assumiria o poder em breve.
Para o jornal britânico, a movimentação tentou colocar Flávio como um interlocutor próximo do governo Trump.
“Com a decisão da Casa Branca prevista para quarta-feira, foi um ato de audácia extraordinário. Ele (Flávio) não estava apenas fazendo lobby contra as tarifas. Estava se apresentando para ser o presidente brasileiro preferido de Trump”, diz o texto.
Avaliação sobre Lula
O editorial também traça um perfil de Lula e o chama de um dos líderes mais bem-sucedidos deste século.
O jornal lembra a trajetória do petista como líder sindical e cita políticas de distribuição de renda que, segundo o veículo, ajudaram a reduzir a pobreza extrema no Brasil.
Ao tratar da regulação das plataformas, o The Guardian afirma que o governo brasileiro quer combater a desinformação antidemocrática. Já o governo Trump defenderia uma regulação mais frouxa para as big techs.
O jornal conclui que a disputa vai além do comércio. Para a publicação, o controle sobre sistemas de pagamento e dados digitais pode virar um ponto estratégico para o desenvolvimento e para a soberania dos países. “A verdadeira ofensa não é o protecionismo, mas a autonomia”, finaliza o editorial.



