
Com popularidade baixa em casa, Trump mantém distância da Copa de 2026
Ausente na estreia dos EUA, Donald Trump parece priorizar agenda doméstica e vê Mundial mais como desafio de segurança do que vitrine

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece manter certa distância da Copa do Mundo de 2026. O republicano ajudou a consolidar uma edição do torneio fortemente influenciada pelas prioridades políticas, econômicas e de segurança dos EUA, mas não compareceu à estreia da própria seleção nacional e tem mantido o Mundial longe do centro de sua agenda pública.
A ausência chamou atenção porque os Estados Unidos são um dos anfitriões da competição, ao lado de Canadá e México. Na sexta-feira (12/6), a seleção norte-americana goleou o Paraguai por 4 a 1 no jogo de abertura do Mundial, em Los Angeles, mas Trump não estava presente.
Em seu lugar, o governo foi representado por seu braço direito na política externa, o secretário de Estado, Marco Rubio.
O episódio ocorreu poucos dias depois de o republicano marcar presença na final da NBA. Na ocasião, Trump foi vaiado por parte do público presente no Madison Square Garden, em Nova York.
No fim de semana, ele também celebrou seu aniversário de 80 anos promovendo um evento de UFC nos jardins da Casa Branca.
Historicamente, chefes de Estado dos países-sede costumam marcar presença na abertura da principal competição do futebol mundial.
Neste ano, a decisão de não comparecer ao evento foi compartilhada pelos outros anfitriões: Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, e Claudia Sheinbaum, presidente do México, também não estiveram presentes.
Questionado sobre a ausência de Trump, Andrew Giuliani, diretor-executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, afirmou que a decisão foi motivada por compromissos presidenciais.
“Ele não vai comparecer ao jogo de estreia. A agenda dele é apertada. Mas sei que estará envolvido durante toda esta Copa do Mundo”, disse Giuliani.
O aliado, porém, deixou aberta a possibilidade de aparições futuras. “Conhecendo Trump, espere o inesperado. Não me surpreenderia vê-lo cada vez mais envolvido ao longo do torneio”.
No caso de Carney, ele não compareceu porque estava na França em viagem de trabalho antes da cúpula do G7. Já Sheinbaum afirmou que não iria a nenhum jogo para demonstrar solidariedade aos mexicanos que não têm condições de pagar pelos ingressos.
Vaias e desgaste político
- A ausência na estreia também ocorre em um momento delicado para a imagem do presidente dentro dos Estados Unidos.
- Pesquisas internacionais divulgadas recentemente mostraram que a aprovação de Trump permanece em torno de 35%, próxima dos níveis mais baixos de sua trajetória política.
- O levantamento apontou preocupação crescente dos americanos com os impactos econômicos da guerra envolvendo Irã e Estados Unidos, especialmente sobre os preços dos combustíveis.
- Dias antes da abertura da Copa, o mandatário recebeu uma sonora vaia durante a terceira partida das finais da NBA, em Nova York.
- Sua imagem apareceu no telão do Madison Square Garden durante o hino nacional e foi recebida com reações negativas de parte expressiva do público presente.
- O episódio escancarou a percepção de que o presidente enfrenta dificuldades para transformar grandes eventos esportivos em ativos políticos domésticos, lidando com grande índice de rejeição.
A Copa sob o “DNA dos EUA”
A distância pessoal de Trump em relação ao Mundial contrasta com a profunda influência exercida por sua administração sobre a organização da competição.
Embora o torneio seja oficialmente compartilhado com México e Canadá, cerca de 75% das partidas serão em território dos Estados Unidos.
Ao contrário do que ocorreu em outras edições, a Fifa adaptou parte de suas operações às regras americanas de imigração, segurança e controle de fronteiras.
A decisão gerou críticas após episódios como a deportação do árbitro somali Omar Artan, impedido de entrar no país depois de ser interrogado por autoridades migratórias.
O caso se tornou símbolo das tensões entre a política de fronteiras da Casa Branca e a tradicional defesa da livre circulação promovida pela Fifa durante Copas do Mundo.
A seleção do Irã também enfrentou dificuldades logísticas. Em meio às tensões entre Washington e Teerã, os iranianos foram obrigados a estabelecer sua base no México e realizar deslocamentos específicos para os Estados Unidos apenas nos dias de jogo.
Segurança antes da diplomacia
Para o professor de Geografia Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Vitor de Pieri, a postura de Trump reflete uma mudança na forma como a atual administração compreende o papel internacional dos Estados Unidos.
Segundo o especialista, grandes eventos esportivos costumam funcionar como instrumentos de soft power, projetando valores, cultura e influência internacional. No entanto, essa lógica ocupa posição secundária dentro da visão de política externa defendida pelo presidente.
“Enquanto outros governos enxergariam a Copa como uma oportunidade de fortalecer a imagem do país perante o mundo, a administração Trump parece vê-la principalmente como um desafio operacional ligado à segurança, ao controle de fronteiras e à gestão dos fluxos migratórios”, afirma.
De Pieri observa que existe uma contradição evidente. A Copa pressupõe a circulação de milhões de turistas, jornalistas e delegações, enquanto Trump construiu parte de sua trajetória política defendendo justamente o endurecimento das políticas migratórias.
Para o pesquisador, a consequência é que o torneio acaba sendo tratado mais como uma grande operação de segurança nacional do que como uma celebração esportiva ou uma ferramenta de projeção internacional.
Distância calculada
Apesar da ausência física, Trump procurou demonstrar apoio à seleção americana. Antes da estreia, telefonou ao técnico Mauricio Pochettino para desejar sorte à equipe. Após a vitória sobre o Paraguai, publicou uma mensagem de parabéns nas redes sociais.
Em um momento marcado por conflitos, disputas comerciais, debates migratórios e queda de popularidade, a postura sugere que, para a Casa Branca, o Mundial não ocupa hoje o centro da agenda presidencial. Mais do que uma vitrine, a Copa parece ser tratada como um evento que precisa ser administrado sem desviar a atenção de prioridades consideradas estratégicas.








