
MundoEUA: ICE pode abordar turistas na Copa? O que brasileiro precisa saber
Departamento de Segurança Interna e especialistas explicam como funcionam as abordagens migratórias e quais cuidados tomar durante o Mundial

A Copa do Mundo da Fifa 2026 tem seu pontapé inicial nesta quinta-feira (11/6) em um cenário que vai além do futebol. Enquanto milhões de torcedores se preparam para acompanhar os jogos nos Estados Unidos, no México e no Canadá, o principal país-sede do torneio vive um momento de endurecimento das políticas migratórias e reforço dos mecanismos de segurança interna.
Para os brasileiros que viajarão para acompanhar a Seleção Brasileira – que estreia contra Marrocos neste sábado (13/6), no MetLife Stadium, em East Rutherford, região de Nova York e Nova Jersey – uma dúvida tem ganhado espaço: o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) pode abordar turistas durante a Copa?
A resposta é sim. Mas especialistas afirmam que, para quem estiver em situação migratória regular, o risco de problemas é considerado baixo.
Ao Metrópoles, fontes do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) afirmaram que o governo trabalha para garantir a segurança do torneio sem prejudicar visitantes que estejam legalmente no país.
“Os visitantes internacionais que vierem legalmente aos Estados Unidos para a Copa do Mundo não têm nada com que se preocupar. O que torna alguém alvo da fiscalização de imigração é se está ou não ilegalmente nos EUA – ponto-final”, afirmou.
Segundo o DHS, a recomendação é de que os estrangeiros organizem toda a documentação necessária com antecedência para evitar transtornos durante a viagem.
No entanto, o departamento ressaltou a necessidade de que os turistas sejam “proativos” durante a viagem para evitar contratempos ou abordagens mais rigorosas por parte das autoridades migratórias.
O que é o ICE?
- O ICE é a agência responsável pela fiscalização migratória dentro do território norte-americano.
- Diferentemente da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), que atua principalmente em aeroportos, portos e fronteiras, o ICE pode realizar operações em cidades, estradas, hotéis, áreas turísticas e outros espaços públicos.
- Por isso, embora a agência não faça parte da segurança dos estádios, eventuais abordagens podem ocorrer fora dos locais de competição.
O especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Vitor de Pieri explica que o aumento do fluxo de visitantes tende a ser acompanhado por uma presença mais visível das autoridades federais.
“Na prática, o turista brasileiro que ingressar legalmente nos Estados Unidos com visto válido, passaporte regular, comprovantes de hospedagem, passagem de retorno e recursos financeiros compatíveis dificilmente enfrentará problemas. Entretanto, a realização da Copa tende a aumentar a presença das autoridades federais em aeroportos, estádios, hotéis e centros turísticos.”
Quem corre mais risco de fiscalização?
Segundo especialistas, os maiores riscos recaem sobre pessoas que:
- Permanecem além do prazo autorizado de permanência;
- Trabalham utilizando visto de turismo;
- Prestam informações falsas às autoridades migratórias;
- Possuem histórico de irregularidades migratórias;
- Descumprem as condições previstas no visto.
O advogado licenciado nos Estados Unidos e professor de pós-graduação em Direito Migratório, Vinícius Bicalho, afirma que a política migratória norte-americana tem se tornado cada vez mais rigorosa.
“O cenário ficou mais criterioso, mas isso não significa fechamento das portas para imigração legal. Significa que os processos precisarão ser ainda mais organizados, consistentes e estrategicamente preparados”, explica.
O que fazer se for abordado?
Especialistas recomendam manter a calma e cooperar com as autoridades.
Caso solicitado, o viajante deve apresentar documentos válidos, como:
- Passaporte;
- Visto ou autorização de entrada;
- Comprovantes de hospedagem;
- Passagem de retorno;
- Outros documentos que demonstrem a regularidade da permanência;
- Também é possível perguntar diretamente ao agente se a pessoa está detida ou se pode deixar o local.
Segurança reforçada para a Copa
- Às vésperas do torneio, o governo de Donald Trump anunciou uma ampla operação de segurança.
- O secretário interino do Departamento de Segurança Interna (DHS), Markwayne Mullin, afirmou que haverá compartilhamento ampliado de inteligência entre órgãos locais, federais e parceiros internacionais para monitorar possíveis ameaças durante a competição.
- O endurecimento da política migratória também já foi percebido por integrantes ligados à própria Copa do Mundo.
- Nas últimas semanas, atletas, dirigentes esportivos e profissionais envolvidos no torneio relataram dificuldades para entrar nos Estados Unidos.
- Integrantes da delegação iraniana tiveram pedidos de visto negados, incluindo o presidente da federação nacional, Mehdi Taj.
- Outro episódio que chamou a atenção envolveu o árbitro somali Omar Artan, selecionado para atuar no Mundial.
- Ele teve a entrada negada pelas autoridades norte-americanas após mais de 11 horas de interrogatório em um aeroporto dos Estados Unidos.
- Jogadores das seleções de Senegal e Uzbequistão também relataram revistas e inspeções reforçadas durante deslocamentos pelo país.
Copa como reflexo de uma disputa maior
Para Pieri, a discussão vai além dos procedimentos migratórios.
Segundo ele, a Copa de 2026 ocorre num momento em que os Estados Unidos tentam conciliar duas agendas muitas vezes conflitantes: a necessidade de receber milhões de turistas e a ampliação dos mecanismos de vigilância e controle de fronteiras.
“A Copa simboliza a globalização em sua forma mais visível: milhões de pessoas cruzando fronteiras para celebrar um evento internacional. Entretanto, ela acontece justamente em um período em que parte do debate político norte-americano questiona os próprios efeitos da globalização e da livre circulação de pessoas”, afirma.
Para os brasileiros, porém, a orientação prática permanece simples: viajar com documentação correta, respeitar as regras do visto e manter informações coerentes continua sendo o principal caminho para acompanhar a maior Copa das Copas sem contratempos.










