Brasil no clube dos 35 mais ricos: as promessas de Trump a Bolsonaro

Após reunião com brasileiro, norte-americano disse que seu apoio à entrada do Brasil na OCDE “é um dos aspectos da nossa colaboração”

Alan Santos/PRAlan Santos/PR

atualizado 19/03/2019 23:33

Enviada especial a Washington (EUA) – Marcada por um clima amistoso e de troca de gentilezas, a visita do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), ao presidente norte-americano, Donald Trump, resultou no anúncio de medidas importantes para o governo brasileiro. Entre as principais, está a declaração de Trump de que apoiará a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Trata-se do clube dos 35 países mais ricos do mundo, cujo ingresso do Brasil era um desejo antigo de empresários brasileiros, segundo Bolsonaro.

A visita foi fortemente marcada por questões ideológicas compartilhadas pelos dois governantes, sobretudo em relação à situação da Venezuela. Tanto Trump quanto Bolsonaro disseram que farão o possível para derrubar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro – considerado por ambos como usurpador. Também anunciaram empenho no combate ao socialismo no continente americano.

Antes da entrevista coletiva, no Rose Garden da Casa Branca, para a imprensa dos dois países, Trump já havia dito que apoiaria a entrada do Brasil na OCDE, ao fazer um resumo do encontro privado com Bolsonaro. Mas, ao responder à pergunta de uma jornalista, o norte-americano não deixou dúvidas. “Vamos, sim, apoiá-lo. É um dos aspectos da nossa colaboração”, garantiu.

Bolsonaro não perdeu a deixa e disse “Thank you!” – obrigado, em inglês –, apertando a mão de Trump e provocando risos na plateia. O Departamento de Comércio dos EUA tem restrições à entrada do Brasil na OCDE, mas Bolsonaro disse que isso não deverá ser empecilho para o ingresso brasileiro no clube dos 35 mais ricos.

Os Estados Unidos também deixaram aberta a possibilidade de o Brasil ser aceito como aliado militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), na categoria de “não integrante”. A organização foi fundada em 1949, durante a chamada Guerra Fria, quando Estados Unidos e a então União Soviética disputavam a hegemonia num mundo dividido entre capitalismo e comunismo.

Os membros da Otan têm um acordo de defesa mútua em caso de ataque de outros países. O alinhamento à organização subordinaria o Brasil ainda mais à influência norte-americana. Mas ainda é cedo para prever o futuro de uma eventual parceria nesse setor. Como disse o próprio Bolsonaro, “foi um aceno positivo de ambas as partes, que vai ser aprofundado nas próximas semanas”.

Confira fotos da viagem de Bolsonaro e comitiva aos Estados Unidos: 

 

O fator Venezuela
O assunto que mais aproxima os dois governantes parece ser a Venezuela, mas, neste caso, sobra retórica e faltam soluções concretas, até porque ambos sabem da complexidade da situação no país governado por Nicolás Maduro e os militares brasileiros têm deixado claro que não aprovam uma intervenção militar no país vizinho.

Outro fator que dificulta a derrubada de Maduro é o suporte que ele tem junto a, aproximadamente, 2 mil generais, das três forças do país. A preocupação de Trump quanto a isso ficou muito clara quando ele disse que “os militares deveriam deixar de apoiar Maduro”, classificado por ele como “marionete cubano”. Donald Trump voltou a dizer que “todas as opções estão sobre a mesa”.

Em algum momento, as coisas vão mudar. Ainda não aplicamos as sanções mais duras. Podemos endurecer. Estamos abertos a todas as possibilidades

Donald Trump, presidente dos EUA, sobre a Venezuela

Bolsonaro foi questionado, especificamente, se permitiria a instalação de uma base militar norte-americana no Brasil para servir de suporte a ações relacionadas à Venezuela. Bolsonaro não disse que sim nem que não. Declarou que Brasil e Estados Unidos “farão o que for possível para acabar com a ditadura venezuelana”.

“Temos que somar esforços para pôr um ponto final nessa questão, que é ultrajante para o mundo todo”, afirmou o brasileiro. O presidente, porém, não quis esclarecer se uma intervenção militar foi objetivamente discutida com Trump. “Assuntos reservados não podem se tornar públicos. É uma questão de estratégia. Tudo que tratarmos será honrado. Mas certas questões, se forem tratadas, não serão tornadas públicas”, resumiu o brasileiro.

Depois, em entrevista coletiva separada, apenas para a imprensa brasileira, Bolsonaro disse que a situação da Venezuela foi tratada “com profundidade” e a posição brasileira é: “Diplomacia em primeiro lugar, até as últimas consequências”.

“Ocaso do socialismo”
A retórica ideológica de ambos os presidentes também foi demonstrada quando Trump abordou outros dois países: Cuba e Nicarágua. Segundo o republicano, ambos representam “o ocaso do socialismo”. “A última coisa que queremos é o socialismo”, disse Trump. Bolsonaro reforçou, afirmando que estão acabando os governos baseados nas ideias do Foro de São Paulo, entidade que reúne partidos e organizações de esquerda.

“Nos livramos deste projeto no Brasil pela via democrática”, disse o presidente da República. Ele recorreu ao slogan de campanha de Trump – “Make America great again” (Faça a América grande de novo) – para mostrar o alinhamento de ideias. “Queremos a América grande e o Brasil grande também”, destacou Bolsonaro.

Bolsonaro convidou Trump para visitar o Brasil e explicou, a seu modo, o gesto unilateral de conceder isenção de visto para turistas norte-americanos entrarem no Brasil. “Nenhum americano vai buscar no Brasil estabilidade no emprego. Mas o contrário existe. Alguém tem que estender o braço, a mão, em primeiro lugar, e fomos nós”, declarou.

O presidente afirmou acompanhar a ascensão de Trump desde as eleições primárias do Partido Republicano e ter procurado autoridades do terceiro escalão do governo dos EUA, em 2016, quando preparava sua pré-campanha para a eleição brasileira. “Hoje, o Brasil tem um presidente que não é antiamericano”, disse Bolsonaro, acrescentando ainda que acredita na reeleição de Trump em 2020.

O assunto foi mencionado pelo presidente quando uma jornalista norte-americana perguntou sua opinião sobre pré-candidatos nos Estados Unidos “com ideias socialistas”. Bolsonaro respondeu: “As pessoas que apoiam o socialismo e o comunismo estão abrindo sua mente para a realidade”.

À espera de regras iguais
Trump também demonstrou satisfação com o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST), para uso da base de Alcântara, no Maranhão, para lançamento de foguetes por empresas americanas. “Os voos serão mais curtos e muito dinheiro será poupado”, afirmou o norte-americano.

Bolsonaro, por sua vez, destacou que a parceria mudará a situação atual de Alcântara, a qual definiu como “ociosa e deficitária”. Segundo ele, a entrada dos norte-americanos será “vantajosa”. De acordo com o presidente, havia uma pendência com comunidades quilombolas no entorno da base, mas que foi resolvida. “Tinham ampliado a área lá – dos quilombolas – sem ninguém saber. Foi resolvido, conversando com autoridades locais e com a comunidade. Nós queremos oferecer mercado de trabalho para os quilombolas.”

Trump disse ainda que espera uma redução de barreiras comerciais para produtos norte-americanos e uma abertura maior da economia brasileira para empresas de seu país nas áreas de energia, agricultura e tecnologia. “Queremos regras do jogo iguais”, afirmou. As conversas na área comercial terão prosseguimento com a ida do secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, ao Brasil daqui a um mês, segundo informou o ministro da Economia, Paulo Guedes. Será a primeira visita de um secretário de Comércio americano em 10 anos ao território brasileiro, de acordo com Guedes.

Antes das declarações públicas e das entrevistas, os dois presidentes tiveram um encontro privado na presença apenas de seus tradutores e do deputado Eduardo Bolsonaro, no Salão Oval da Casa Branca. Segundo o deputado, Bolsonaro o apresentou como filho a Trump, que, então, o teria convidado a participar da reunião privada.

De acordo com o deputado, Trump fez Bolsonaro “se sentir em casa”. Os dois mandatários trocaram presentes, no caso, camisas das seleções de futebol de seus países. Bolsonaro contou que foi um encontro “descontraído, com gargalhadas” e que fez até algumas brincadeiras com Trump.

Disse que ambos têm em comum o mesmo número de filhos – cinco –, contou ter falado ao colega norte-americano, que o achou “jovem”. “Até falei para a tradutora explicar para ele que somos jovens porque temos a idade das mulheres que amamos”, detalhou Bolsonaro aos jornalistas brasileiros. Tanto ele quanto o americano são casados com mulheres bem mais jovens que eles.

Acenos se tornarão realidade?
Para diplomatas e assessores do governo que acompanham a visita de Bolsonaro aos Estados Unidos, a viagem assinala um novo começo na relação entre os dois países, as maiores democracias e as maiores economias do continente americano. Segundo eles, isso, por si só, é o suficiente para que a viagem seja considerada um sucesso.

De acordo com os auxiliares de Jair Bolsonaro, a pauta da viagem, do lado brasileiro, foi alcançada: o aceno de Trump para que o Brasil entre na OCDE e se alinhe à Otan, nesta última como não integrante. Mas, em termos de resultado prático, o que se destaca é a concessão unilateral de visto aos americanos e o acordo para o uso comercial da base de Alcântara pelos norte-americanos. Fica a pergunta se o Brasil não cedeu demais em troca de acenos que podem ou não resultar em algo mais concreto.

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