Em tom informal, fala de Bolsonaro desperta risos e elogios nos EUA

Presidente falou a uma plateia com cerca de 200 pessoas, na Câmara de Comércio norte-americana, durante primeiro dia de agenda oficial

Alan Santos/PRAlan Santos/PR

atualizado 18/03/2019 22:15

Enviada especial a Washington (EUA) – No primeiro compromisso público da viagem de três dias aos Estados Unidos, o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), discursou por exatamente 10 minutos a uma plateia formada por cerca de 200 empresários. Os ouvintes reunidos na Câmara Americana de Comércio, em Washington, mostraram-se satisfeitos com a fala do brasileiro, bastante elogiado ao final.

Bolsonaro destacou a grande admiração que tem pelos Estados Unidos e pelo presidente Donald Trump, e declarou que sua eleição rompeu a tradição antiamericana na agenda externa brasileira dos últimos governos.

“Hoje, vocês têm um amigo dos Estados Unidos. O Brasil tem potencial enorme e precisamos de bons parceiros. Temos no mundo todo, mas estou aqui estendendo minha mão para que essa parceria se faça mais presente”, afirmou o presidente da República. “Também sou admirador de Reagan [Ronald Reagan, ex-presidente norte-americano], que dizia: o povo é que tem que conduzir o Estado, e não o contrário”, acrescentou.

Bolsonaro destacou ainda o programa do ministro da Economia, Paulo Guedes, dizendo que, ao conhecê-lo, “foi amor à primeira vista”. E esclareceu: “Economicamente. Não sou homofóbico, não”, disse, provocando risos na plateia. O presidente enfatizou esperar fechar com os Estados Unidos parcerias “em agricultura, mineralogia e biodiversidade na Amazônia”.

Outro tema abordado no discurso foi a situação da Venezuela. “Estamos trabalhando em conjunto. Temos que resolver a questão da nossa Venezuela. Aquele povo tem que ser libertado. Contamos com os americanos”, afirmou, sem dar mais detalhes de como deve ser essa atuação.

Veja imagens da viagem oficial de Bolsonaro e comitiva aos EUA:

O presidente foi recebido em clima de entusiasmo, com vários discursos de apoio por parte dos empresários norte-americanos que o antecederam, falando do começo de uma nova era das relações entre o Brasil e os Estados Unidos. Os empresários destacaram, entre outros temas, que o Brasil está no caminho certo, com uma agenda ousada, que inclui a reforma da Previdência.

Cinco ministros brasileiros se pronunciaram antes do presidente, mas ele só assistiu ao discurso do titular da Economia, Paulo Guedes, que correspondeu à expectativa da plateia. Guedes explicou seu projeto de reforma da Previdência, o programa de privatizações “agressivo” a ser executado pelo governo federal e a proposta de reforma tributária.

Conforme detalhou o ministro, as mudanças na aposentadoria “não vão deixar ninguém para trás”. Contudo, ele afirmou que o sistema “não pode ser uma fábrica de privilégios” e o governo precisa controlar o gasto público. Paulo Guedes usou uma expressão em inglês bastante forte para demonstrar que o presidente Bolsonaro tem a coragem de fazer as mudanças que, a seu ver, o país precisa: “He is the guy who has balls” (É o cara que tem as bolas).

Conservadores em valores, mas liberais na economia
Reforçando a intenção do governo de tentar mudar a imagem de Bolsonaro no exterior, conforme manifestada pelo próprio presidente em recente conversa com jornalistas, Guedes repetiu várias vezes que Jair Bolsonaro representa uma mudança política e econômica, resultado de uma aliança entre pessoas conservadoras em valores e liberais na economia.

“Bolsonaro é como Trump aqui. Ele fala diretamente ao povo por meio das mídias sociais. A eleição de Bolsonaro mostra uma democracia vibrante no Brasil, bem diferente do que vocês devem ler na mídia convencional”, disse Paulo Guedes. “A democracia não está em perigo no Brasil. Bolsonaro tem 30 anos de experiência no Congresso”, garantiu.

Paulo Guedes fez em público um pedido que a diplomacia brasileira vem articulando nos bastidores, que é a concordância dos Estados Unidos para a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube dos 35 países mais ricos do mundo. O ministro reforçou: “Eu e o presidente amamos a América. Agora, é a hora da verdade, para vocês e para nós. Estamos aqui para abrir nossos mercados”.

Alcântara
No mesmo evento da Câmara Americana de Comércio, Brasil e Estados Unidos assinaram um acordo para o uso comercial da base de Alcântara, no Maranhão, o chamado Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST). Pelo compromisso firmado, os americanos poderão lançar foguetes a partir da base brasileira, com controle de acesso à área feito pelos dois países.

O acordo ainda depende da aprovação dos respectivos Congressos dos dois países. Por estar próxima à linha do Equador, a base proporciona uma economia de 30% nos lançamentos de foguetes. Pelo Brasil, o compromisso foi assinado pelo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, que também discursou pedindo investimentos no setor.

Outros ministros participaram de painéis sobre oportunidades de investimentos no Brasil. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ao responder a uma pergunta de Donna Hrinak, ex-embaixadora americana no Brasil, sobre se seria possível criar uma área de livre comércio entre os dois países, concordou.

“Temos que caminhar para isso. Mas precisamos ouvir o que os Estados Unidos querem de nós”, disse a ministra. Segundo Tereza Cristina, o Brasil quer facilitar o ambiente de negócios, dar segurança jurídica aos investidores, extinguir amarras burocráticas e ter investimentos em inovação. “Se tivermos tudo isso, cuidado, que vocês não seguram o Brasil”, brincou a ministra. “Esperamos por esse dia”, respondeu a ex-embaixadora.

Donna Hrinak perguntou de forma bem objetiva qual o espaço para as empresas americanas no Brasil, e a ministra respondeu que a principal área para investimentos seria aquela conhecida pela sigla Matopiba, palavra formada pelas siglas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde o agronegócio entrou para valer nos últimos anos, gerando problemas ambientais e fundiários na região. Tereza Cristina disse que essa região só não desenvolveu todo o seu potencial por falta de investimentos em infraestrutura.

A ministra Tereza Cristina se defendeu de críticas ao agronegócio brasileiro. “A agropecuária brasileira foi muito atacada, disserem que seríamos destruidores do meio ambiente. Muito ao contrário. O Brasil tem um dos melhores códigos florestais do mundo. O agricultor tem que preservar parte da propriedade. No Cerrado, tem que preservar 20% de matas nativas. Na Amazônia, 80%”, detalhou. “E ainda assim somos atacados. A agropecuária pode continuar a crescer sem derrubar uma única árvore”, afirmou, dizendo que seu objetivo é buscar mercados no mundo e aumentar a exportação de alimentos do Brasil em 40% até 2050.

O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, falou no mesmo tom aos potenciais investidores, apresentando uma lista de setores nos quais o Brasil precisa de recursos, como energia nuclear, petróleo, mineração, energia e infraestrutura. Albuquerque destacou a presença de grandes reservas de urânio no território brasileiro e disse que o governo pretende retomar o programa nuclear nacional com o término da usina de Angra 3, em Angra dos Reis (RJ), e projetos de novas usinas. Já o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, também reforçou a necessidade de uma aliança estratégica entre Brasil e Estados Unidos.

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