Luvas e mamadeiras: como a Austrália cuida de animais resgatados

País da Oceania vive uma das maiores crises ambientais de sua história; milhões de animais morreram

atualizado 11/01/2020 12:04

Tao Shelan/China News Service/VCG via Getty Images

Além das casas destruídas, da destruição das florestas e da tragédia ambiental histórica, a Austrália tem outro desafio: cuidar dos animais afetados pelos incêndios que se alastraram nas últimas semanas. São coalas, cangurus, coelhos, cavalos, além de espécies selvagens e domésticas que requerem cuidados especiais

Susan Pulis, que administra um refúgio de animais, tem reunido amigos para cuidar dos animais e levá-los a locais seguros. Uma amiga esvaziou um quarto de sua casa para abrigar cangurus. Putis colocou também os filhotes dos marsupiais em colchas e os deixou na sala de estar de um conhecido.

“Desde o início dos incêndios, os animais se comportam de maneira muito distinta. Estão muito alterados”, conta. É provável que centenas de milhões de animais – muitos dos quais inexistentes em outras regiões – tenham morrido.

“Levamos muitas espécies que não estavam ameaçadas a estar em perigo de extinção”, afirmou Kingsley Dixon, ecologista e botânico da Universidade Curtin em Perth. Os animais que sobreviveram fugindo ou se escondendo podem ainda morrer de desidratação ou de fome, acrescentou Dixon. “É um apocalipse biológico que poucas vezes se viu”.

Não foram só animais selvagens que sofreram. Em Batlow, 460 quilômetros no sudeste de Sydney, corpos carbonizados de ovelhas e vacas se espalhavam por estradas. Tina Moon, uma agricultora na região de Sarsfield, no estado de Victoria, teve que praticar eutanásia em parte do gado que se queimou. Contou que havia salvado sua casa, mas que não tinha ideia de como iria ganhar a vida a partir de agora.

Luvas para coalas
Um grupo de mulheres que fazem colchas na Holanda fizeram luvas para coalas com patas queimadas. Neozelandesas estão costurando bolsas para os marsupiais bebês e chales para morcegos. Para proteger a fauna da Austrália, resgatistas como Pulis estão lidando com mudanças enormes que ocorreram na natureza em escala pequena.

Eles sozinhos não podem salvar a vida silvestre do país, mas seu trabalho está reforçando a ideia dos cientistas de que uma intervenção será cada vez mais necessária para proteger os animais em um planeta mais quente.

Na cidade de Mallacoota, um homem disse que já resgatou nove coalas, para os quais a comunidade está construindo um albergue. Outros deixaram fora de suas casas sementes, água e alimentos para animais famintos e com sede.

“Sei que isso não nos devolve as propriedades, mas para alguns pode dar um sentido de não se render”, afirmou Katharine Catelotti, de Sydney, cuja família perdeu uma cabana em Wollomombi, quase 500 quilômetros ao norte da cidade. Lá, ela e a família estão deixando alimentos fora de casa para animais selvagens e acolheu um pequeno grupo de animais.

Para Pulis, resgastar animais é simplesmente parte da vida. Em 2013, ela fundou um refúgio na ilha Raymond, próxima da costa, com a intenção de cuidar dos que estavam lesionados e abandonados.

Em agosto, ela se mudou para Waterholes, a 48 quilômetros da costa, já que o tamanho das árvores na ilha a impedia de libertar os coalas em um ambiente em que não podiam encontrar alimentos suficientes.

Sua propriedade em Waterholes, ameaçada por incêndios em duas ocasiões, segue em pé como um oásis em uma região com árvores derrubadas, terra carbonizada e sinais de trânsito derretidos por centenas de quilômetros. “É um holocausto”, disse. “Esse é o alimento que eu dava para os coalas”, comentou, rodeada de eucaliptos carbonizados cujas folhas serviam de alimentos para os coalas. “Estavam totalmente vivos”.

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