Embaixadora da Síria ligada a Assad deve deixar o Brasil em breve

Fontes afirmam que, após cinco anos, embaixada da Síria indicada pelo ex-presidente Bashar al-Assad deve deixar o posto no Brasil

atualizado

metropoles.com

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Ricardo Stuckert/PR
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1 de 1 Imagem colorida mostra a embaixadora da Síria no Brasil - Metrópoles - Foto: Ricardo Stuckert/PR

A atual embaixadora da Síria no Brasil, Rania Al Haj Ali, deve deixar o posto nos próximos meses. Ela chefia a representação em Brasília desde 2022, após ser indicada pelo ex-presidente sírio Bashar al-Assad, deposto do poder em dezembro de 2024.

A informação sobre a provável saída de Rania do país foi confirmada ao Metrópoles por fontes diplomáticas ligadas à atual administração do país árabe, ouvidas sob condição de reserva.


Queda do governo Assad

  • Bashar al-Assad governou a Síria entre 2000 e 2024, após suceder seu próprio pai, Hafez al-Assad.
  • Assim como o pai, Assad comandou o país com mãos de ferro. A situação na Síria piorou em 2011, após protestos contra seu governo mergulharem o território sírio em uma guerra civil.
  • Os protestos foram duramente reprimidos por forças do então governo. Segundo investigações internacionais, Assad chegou a ordenar o uso de armas químicas contra manifestantes.
  • Ele foi deposto em dezembro de 2024, após uma ofensiva do grupo rebelde Hayat Tahrir al-Sham (HTS).
  • O grupo surgiu no contexto da guerra civil na Síria após a dissolução da Frente al-Nusra, que por anos atuou como o braço do Estado Islâmico (ISIS), e posteriormente da Al-Qaeda, no país.
  • O HTS era liderado por Ahmed al-Sharaa, que atualmente é o presidente interino da Síria. Nos últimos anos da guerra civil síria, o grupo adotou uma postura mais pragmática e se distanciou do jihadismo.
  • Depois de assumir o poder, al-Sharaa fez uma série de promessas sobre um governo mais inclusivo na Síria.
  • Por isso, a nova administração síria tem recebido diversos acenos positivos da comunidade internacional. Entre eles, o fim das sanções contra o país, e aproximações diplomáticas.

Mesmo com a queda da dinastia da família Assad, a Embaixada síria em território brasileiro continua sendo comandada por membros do antigo governo do país. Após a saída de Rania, a expectativa é de que o posto seja ocupado por um encarregado de negócios até a indicação de um novo embaixador.

Primeira mulher e reivindicações

Rania foi a primeira mulher a chefiar a representação diplomática síria no Brasil. Antes de assumir o posto em Brasília, ela fez parte da missão permanente da Síria na Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York e na Suíça, e também atuou na embaixada síria em Tóquio, no Japão.

A diplomata deixará o cargo em meio à uma batalha judicial de brasileiros contra a Embaixada da Síria. No início de maio, o Metrópoles revelou que três ex-funcionários entraram com ações judiciais contra a representação síria, e reivindicam direitos trabalhistas.

A maioria das queixas dizem respeito a desvio de funções, e a falta de vínculo formal com a a Embaixada.

Em um dos casos, um ex-motorista que trabalhou por 8 anos no local acionou a Justiça do Trabalho após ser demitido. Nos documentos judiciais, José* (nome fictício) alegou que, além da função para a qual foi contratado, ele também chegou a obrigado a limpar a piscina do local, podar o jardim e até mesmo cuidar da portaria.

Depois de sua demissão, em 2023, o brasileiro passou a enfrentar problemas não só na esfera jurídica, mas também sobre seu futuro profissional. Nos autos do processo envolvendo José, a Embaixada da Síria alegou que o motorista foi demitido por “comportamentos inadequados” — o que sua defesa nega.

O homem, que sempre trabalhou como motorista para embaixadas em Brasília, ainda tentou buscar outros empregos na área, mas viu portas se fecharem após a embaixadora Rania emitir um comunicado para outras representações diplomáticas no Brasil. No documento, que a reportagem teve acesso, a diplomata disse ter a “honra” de informar sobre a demissão de José.

Diante do cenário, e da indefinição, o homem entrou em um quadro depressivo tirou a própria vida em 2025, antes da disputa na Justiça do Trabalho chegar ao fim.

Além de questões relacionadas a direitos violados, ex-funcionários e pessoas próximas, ouvidas pela reportagem em condição de anonimato por medo de retaliações, relataram um ambiente de trabalho de pressão — que começou após Rania assumir a Embaixada da Síria.

O que a Justiça já definiu?

No caso do ex-motorista, a 1ª Vara do Trabalho de Brasília ordenou que a Embaixada da Síria reconhecesse o vínculo empregatício com José, através da assinatura da Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), e determinou que a representação realizasse pagamentos referentes ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), aviso prévio, horas extras e férias.

O processo, contudo, ainda não chegou ao fim já que a representação síria entrou com recursos. 

A Justiça do Trabalho emitiu sentenças semelhantes a favor de outros dois ex-funcionários do local: uma ex-empregada doméstica e um homem que trabalhou como porteiro.

Veja relatos:

No caso da ação movida pelo ex-porteiro, o processo já transitou em julgado no Tribunal Superior do Trabalho (TST). O que, na prática, obriga a Embaixada da Síria a realizar os pagamentos. Ele, contudo, não recebeu qualquer indenização até o momento.

A Justiça também proferiu sentença favorável à ex-empregada doméstica da Embaixada. Mas, apesar da decisão, o processo ainda não terminou por conta dos recursos impostos pela representação diplomática síria.

As decisões, contudo, desconsideraram pedidos de indenizações referentes à desvios de funções.

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