A luta de uma dançarina brasileira em meio à violência na Síria

Ao Metrópoles brasileira que vive na Síria relata recente onda de violência e incertezas na região conhecida por curdos como Rojava

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1 de 1 Imagem colorida mostra protestos em Rojava, na Síria - Metrópoles - Foto: Guy Smallman/Getty Images

É com a dança que a brasileira Aline* tenta “resgatar” a cultura de jovens curdos que vivem na Síria. Nos últimos anos, ela tem trabalhado dando aulas de dança e coreografia para essa população que continua vivendo em meio à violência armada. A conversa por telefone com o Metrópoles é interrompida por barulhos de tiros — um cenário rotineiro nos últimos quatro anos da vida dela.

Dançarina e atriz, a brasileira mora na província de al-Hasakah, em Rojava, uma das regiões do nordeste sírio palco da recente onda de violência no país. Os combates envolvem uma disputa entre forças ligadas ao governo, liderado pelo ex-jihadista Ahmed al-Sharaa, e os curdos das Forças Democráticas Sírias (SDF).

“Está tudo bem, isso é normal aqui. Apesar do recente acordo de cessar-fogo, alguns ataques ainda continuam”, disse a dançarina durante conversa com o Metrópoles.

O futuro desses jovens é exatamente uma das preocupações de Aline, apesar  do decreto assinado recentemente por al-Sharaa. Os curdos são um grupo étnico que vive no Oriente Médio e é considerado uma das maiores populações sem Estado próprio no mundo.

Cessar-fogo e incertezas

Desde quando o cessar-fogo entre as SDF e o Exército sírio entrou em vigor, no fim de janeiro, a violência em Rojava diminuiu. Mas não acabou completamente, relata Aline.

Segundo a dançarina, o passado das atuais autoridades sírias ligadas ao Hayat Tahrir al-Sham (HTS), grupo formado por dissidentes da Al-Qaeda e do Estado Islâmico (ISIS), coloca em xeque as negociações para a implementação dos outros pontos do acordo de paz.

“Muitos dos meus amigos combatentes continuam nas linhas de frente, e diversas acusações mútuas sobre ataques também continuam”, revela a brasileira. “Negociar com autoridades que já foram ligadas a grupos fundamentalistas, como são as atuais lideranças da Síria, é complicado. Para nós [de Rojava], é difícil confiar.”

No documento, divulgado pela mídia estatal síria, o novo líder do país reconhece a etnia curda como parte da Síria e faz promessas sobre direitos para o grupo, que não existiam sob a era Assad.

“Esse é um povo culturalmente muito enraizado, apesar dos esforços do regime Assad para impedir o desenvolvimento de regiões curdas. Meu trabalho aqui é atuar no resgate dessa cultura”, explica Aline. “Algo que, agora, está incerto porque não dá para prever qual será o futuro. Geralmente, quando um povo quer apagar uma etnia, começa por ataques contra a cultura e educação, né?”.

O que é Rojava?

  • Rojava é um território autônomo localizado no nordeste da Síria, na fronteira com a Turquia, governado por grupos curdos desde meados de 2012. O local também é conhecido como Curdistão Sírio.
  • Sua autonomia foi proclamada após forças ligadas ao governo de Bashar al-Assad se retirarem da região durante a guerra civil na Síria. 
  • O território autônomo abriga curdos, grupo étnico que constitui a maior nação apátrida do mundo — aqueles que não possuem nacionalidade reconhecida por nenhum país, nem um Estado próprio.
  • Os curdos estão distribuídos em quatro países: Síria, Iraque, Turquia e Irã. 
  • A revolução dos curdos, porém, teve maior sucesso no território sírio. Lá, grupos étnicos passaram a se organizar de forma independente e governaram vastas porções da Síria por mais de dez anos. 
  • Na Síria, grupos curdos tiveram papel de destaque na luta contra o Estado Islâmico (ISIS), principalmente em brigadas formadas exclusivamente por mulheres. Sob a liderança das Forças Democráticas Sírias (SDF), eles atuaram ao lado da coalizão militar liderada pelos EUA em batalhas contra os jihadistas.
  • O sistema político adotado em tais territórios é chamado de confederalismo democrático. Nele é defendida uma democracia direta, igualdade de gênero, convivência entre diferentes etnias e religiões e sustentabilidade ecológica.
  • Nos últimos anos, diversos estrangeiros foram atraídos para Rojava e se juntaram não só a forças militares, como também à vida no território não reconhecido pela comunidade internacional.

Entenda a situação da Síria

No início do ano, novos conflitos tomaram conta da ainda instável Síria. Agora, envolvendo forças ligadas ao atual governo do país e o grupo étnico dos curdos, comandados militarmente pelas SDF.

Os combates surgiram em meio à tentativa de al-Sharaa em cumprir uma de suas promessas após liderar a ofensiva que culminou na queda do governo de Bashar al-Assad: reunificar o país destruído e fragmentado por conta dos duros anos de guerra civil.

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A ideia da administração de Ahmed al-Sharaa é incluir todos os grupos étnicos, como os curdos, no Estado sírio. Objetivo que tem sido alcançado por meio da força, conforme mostraram os últimos eventos no país.

No último ano, o governo interino da Síria e as Forças Democráticas Sírias (SDF) chegaram a assinar um pacto de paz. O plano, contudo, não saiu do papel e motivou a recente ofensiva de forças ligadas a al-Sharaa contra os territórios curdos.

Depois do início dos conflitos, em janeiro deste ano, o Exército Sírio retomou o controle de diversas regiões administradas de forma independente há mais de 10 anos. As porções do nordeste sírio eram controladas por curdos desde meados de 2019, quando as SDF tiveram papel decisivo na derrota do Estado Islâmico (ISIS) no país.

Com isso, um novo acordo de trégua e integração de curdos ao Estado sírio foi apresentado por Damasco no fim de janeiro.

No tratado, que começou por uma trégua nos combates, o governo sírio listou 14 pontos para a paz com os curdos. Entre eles, a transferência de territórios antes controlados de forma autônoma para Damasco, a integração de civis e militares em instituições do Estado e uma participação política efetiva do grupo étnico na nova vida síria.

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Em pouco mais de 2 anos, governo de Ahmed al-Sharaa passou a ter o controle da maioria do país, com a promessa de uma administração unificada e inclusiva
Em 2023, forças do HTS (ligadas ao atual governo sírio) controlavam pequenas porções do noroeste do país (destacadas em verde)
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Em 2023, forças do HTS (ligadas ao atual governo sírio) controlavam pequenas porções do noroeste do país (destacadas em verde)

Reprodução/Syria Live Map
Em pouco mais de 2 anos, governo de Ahmed al-Sharaa passou a ter o controle da maioria do país, com a promessa de uma administração unificada e inclusiva
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Em pouco mais de 2 anos, governo de Ahmed al-Sharaa passou a ter o controle da maioria do país, com a promessa de uma administração unificada e inclusiva

Reprodução/Syria Live Map

*O Metrópoles optou por não revelar a real identidade da brasileira por questões de segurança. 

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