Presidente da Síria avança na reunificação do país por meio da força
Síria enfrenta uma nova onda de violência desde o início do ano em meio à tentativa de reunificação do país, devastado após anos de guerra
atualizado
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No seu primeiro discurso oficial após liderar a ofensiva que derrubou Bashar al-Assad, Ahmed al-Sharaa falou em reunificar a Síria, que naquele 8 de dezembro de 2024 encontrava-se devastada e fragmentada pela guerra civil. Promessa que tem sido cumprida do ponto de vista territorial, apesar da violência entre grupos que ainda afeta a Síria.
“A Síria pertence a todos os seus filhos: muçulmanos e cristãos, sunitas, alauístas, drusos, curdos e árabes”, disse al-Sharaa na Mesquita dos Omíadas, localizada na capital Damasco, a mesma conquistada pelos rebeldes do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) horas antes, decretando o fim do antigo regime.
E continuou: “Esta revolução não veio para excluir ninguém, mas para libertar todos. Não haverá lugar para o sectarismo neste novo Estado”.
Síria após a queda de Assad
- Depois da ofensiva contra Bashar al-Assad, o novo presidente do país, Ahmed al-Sharaa, prometeu trabalhar pela reunificação da Síria, e por maiores direitos a grupos antes alvos de repressão.
- Apesar das promessas, a Síria enfrentou ondas de violência desde o fim de 2024. Entre elas, combates entre forças governamentais grupos étnicos, como os alauitas e os drusos.
- Mesmo assim, al-Sharaa tem conseguido implementar seus planos, e já retomou o controle de diversas áreas da Síria para o governo central.
- Neste ano, a onda de violência envolve as Forças Democráticas Sírias (SDF). O grupo de curdos, que foi um dos principais atores na luta contra o Estado Islâmico (ISIS) no país, controlava partes do nordeste sírio há mais de dez anos.
- Em um pacto assinado no último ano, porém, as SDF concordaram em transferir a administração de tais territórios para a administração de al-Sharaa.
- O acordo, porém, não conseguiu ser inteiramente implementado e provocou a onda de conflitos recentes.
Um ano antes da queda de Assad, o território do sírio era dividido entre forças beligerantes que atuavam na guerra civil desde 2011. À época, boa parte do país estava sob o controle da administração Assad e aliados.
Já regiões norte e leste eram dominadas pelo grupo curdo Forças Democráticas Sírias (SDF), cidades do noroeste ficaram nas mãos do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), e pequenas porções contavam com a presença de forças militares estrangeiras e de remanescentes do Estado Islâmico (ISIS).
Cerca de dois anos após a ascensão de al-Sharaa a situação mudou, e um governo central e unificado começa a ganhar forma. Um dos últimos obstáculos para os planos do atual líder sírio, porém, esbarram em um fracassado acordo com as Forças Democráticas Sírias (SDF), cuja falta de implementação desencadeou uma nova onda de violência no país.
Conflitos com os curdos
Desde o início de janeiro, forças ligadas ao governo central e as SDF entraram em conflito. De acordo com o Ministério da Defesa da Síria, a escalada teve início após combatentes curdos atacarem um posto de controle da polícia na cidade de Deir Hafer. A organização, que controlava vastas regiões do nordeste sírio após a derrota do Estado Islâmico em 2019, negou.
A recente onda de violência no país surgiu enquanto lideranças curdas e autoridades de Damasco tentavam, sem sucesso, implementar um pacto de paz assinado em março do último ano. Nele, estava previsto a integração de civis e militares do grupo étnico — o maior sem um estado ou território soberano no mundo — nas instituições síria.
Em questão semanas, o Exército Sírio retomou o controle dos territórios antes controlados pelos curdos no nordeste do país. O que forçou o comandante das Forças Democráticas Sírias, Mazloum Abdi, a aceitar um acordo com termos desfavoráveis para os curdos. Entre eles, a transferência de regiões do nordeste para as mãos do novo Estado sírio. O pacto, apesar de um cessar-fogo frágil nos últimos dias, seguia sendo negociado até a publicação desta reportagem.
“Essa não é uma perda somente territorial, como também econômica. A região antes controlada pelos curdos possuí vastas reservas de petróleo e gás natural”, explica o analista de política internacional e doutorando em Ciência Política pela Universidade de Salamanca, na Espanha, Paulo Cesar Rebello. “Apesar dos conflitos e da violência no país, com essa política de reunificação o governo central pode ter acesso a importantes setores que devem ajudar na recuperação e estruturação da Síria.
Durante o conflito, os Estados Unidos foram criticados pelas SDF. Para a organização curda, forças norte-americanas falharam em defender civis, além de de instalações que abrigavam detentos do ISIS.
Apesar do longo histórico de cooperação entre os dois lados, o governo norte-americano voltou a mostrar apoio aos planos de al-Sharaa.
Em um extenso comunicado divulgado na rede social X, o enviado especial de Donald Trump para a Síria, embaixador Tom Barrack, afirmou que a parceria entre EUA e as SDF era baseada, fundamentalmente, no combate ao ISIS.
Cooperação sofreu mudanças com a ascensão de al-Sharaa. Isso porque o novo governo sírio se comprometeu a atuar ao lado da coalizão que ainda ataca pontos e instalações do ISIS no país — diferente do que acontecia durante o governo Assad, que lutou contra os jihadistas em outra frente, com a cooperação da Rússia.
O temor do Estado Islâmico e o abandono dos EUA
Em meio à ofensiva das forças ligadas à al-Sharaa, prisões que abrigam terroristas do Daesh, localizadas nos territórios sob domínio dos curdos, acabaram caindo nas mãos das novas autoridades de Damasco.
Depois disso, ambos os lados envolvidos no conflito passaram a se acusar mutuamente de permitir a fuga de terroristas do ISIS. Segundo o governo de al-Sharaa, os jihadistas escaparam com a ajuda das SDF.
Já o grupo de curdos afirma que os membros do Estado Islâmico receberam ajuda do próprio governo sírio, e usou o passado do presidente al-Sharaa — assim como de outras autoridades do alto escalão — com organizações terroristas como a Al-Qaeda e até mesmo o ISIS como justificativa.
Por conta da situação, o governo norte-americano decidiu intervir. Por meio do Comando Central dos EUA (CENTCOM), Washington anunciou o início de uma missão de transferência de terroristas do ISIS detidos na Síria, para prisões no Iraque. A previsão, segundo militares, é de que até 7 mil jihadistas sejam transferidos.




