Cúpula dos Brics pode terminar sem declaração final devido à guerra no Irã
Países membros dos Brics enfrentaram dias de tensão na tentativa de fechar um comunicado conjunto após a Cúpula de líderes do bloco

A cúpula anual de lideranças dos Brics, realizada na Índia, começou neste sábado (12/9) com um teste de unidade causado pela tensão no Oriente Médio, cujos reflexos atingem diretamente o grupo. Por isso, existem dúvidas se o fórum chegará a uma declaração conjunta entre os países-membros, que simboliza a união e consenso dentro da organização.
Neste ano, a reunião de líderes é cercada pela tensão direta entre dois membros plenos do bloco: Irã e Emirados Árabes Unidos.
O atual cenário foi desenhado após o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em fevereiro deste ano. Com os ataques no território iraniano, Teerã decidiu retaliar as ações com bombardeios em instalações norte-americanas localizadas em países do Golfo Pérsico, incluindo os Emirados Árabes Unidos.
A escalada militar na região fez com que o governo emiradense suspendesse o comércio com Teerã por tempo indeterminado.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesQuem são os Brics?
- Composto por países emergentes, a aliança política e de cooperação foi formada em 2006 por Brasil, Rússia, Índia e China. Em 2010, a África do Sul foi convidada para integrar o bloco, dando origem ao Brics.
- O Brics se expandiu em 2023 durante a cúpula de líderes realizada na África do Sul. Depois da reunião, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã formalizaram a entrada no bloco como membros plenos. A Arábia Saudita também foi convidada para o grupo, mas nunca finalizou os procedimentos para o ingresso.
- Em 2025, a Indonésia também ingressou no grupo ao lado dos países fundadores da aliança.
- No último ano, o Brics anunciou a entrada da Nigéria, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda, Vietnã e Uzbequistão como países parceiros. Na prática, tais nações possuem poder de decisão menor do que os membros plenos.
Atualmente, o Brics é composto por 10 países membros, e 10 nações parceiras. - Inicialmente, o objetivo do bloco era a cooperação em questões econômicas. Mas, ao longo dos últimos anos, a atuação do Brics se expandiu para outros áreas.
Reunião de chanceleres dá o tom do encontro de líderes
O atrito dentro dos Brics se tornou público em maio deste ano, quando os ministros das Relações Exteriores de países membros participaram de uma reunião preparatória para a cúpula dos líderes.
Na época, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que Teerã buscou não entrar em discussões sobre o conflito para “preservar a unidade e a coesão dos Brics”. Mas, segundo o ministro iraniano, o vice-ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos e representante do país na reunião, Khalifa Shaheen Al Marar, insistiu em focar no assunto durantes as discussões.
Durante o encontro, os Emirados Árabes Unidos foram acusados de ficarem ao lado dos Estados Unidos e de Israel no conflito. O país é uma das nações na região que possuem bases militares norte-americanas em seus territórios.
A diplomacia emiradense, contudo, acusou o Irã de realizar atentados terroristas contra o país. Segundo Abu Dhabi, a maior parte dos bombardeios iranianos atingiram, na verdade, instalações civis e sem ligações com os EUA.
Devido ao racho, a cúpula de chanceleres dos Brics terminou sem uma declaração conjunta, que esbarrou em dois pontos principais: a guerra na Faixa de Gaza, e o bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz.
Analisas consultados pelo Metrópoles explicam que o atual racha nos Brics pode ser explicado pelas recentes expansões no grupo, onde antagonistas regionais foram colocados lado a lado.
Desde 2023, cinco novos países passaram a ser membros plenos do grupo: Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. A Arábia Saudita chegou a ser convidada para os Brics, mas ainda não formalizou o processo de adesão.
Além disso, outros dez países compõem o grupo na condição de membros parceiros: Bolívia, Belarus, Cuba, Uzbequistão, Malásia, Cazaquistão, Uganda, Tailândia, Nigéria e Vietnã. Eles atuam com limitações dentro dos Brics, e não possuem poder de voto.
“Essa cúpula é, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade”, afirma o doutor em Política Comparada e analista internacional Paulo Cesar Rebello. “Na reunião, lideranças podem chegar a entendimentos sobre divergências regionais para que o bloco tente se posicionar sobre temas de interesse global. A guerra entre Estados Unidos e Irã, entretanto, pode se tornar um tema central, tendo em vista a participação de membros dos Brics no conflito, dificultando a publicação de uma declaração conjunta final”.











