Exclusivo: chanceler do Irã revela clima em reunião polêmica dos Brics
Ao Metrópoles, chanceler Abbas Araghchi disse que a guerra no Oriente Médio gerou embates com os Emirados Árabes Unidos em reunião dos Brics
atualizado
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O primeiro dia de reuniões de ministros das Relações Exteriores dos países que compõem o Brics, na Índia, ficou marcado por desentendimentos entre dois integrantes do bloco. Irã e Emirados Árabes Unidos entraram em atrito, causado pela guerra que se arrasta no Oriente Médio. O relato é do chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ao Metrópoles.
Por meio da Embaixada do Irã no Brasil, Araghchi afirmou que o representante dos Emirados Árabes, o vice-ministro das Relações Exteriores Khalifa Shaheen Al Marar, não apresentou outra questão na reunião que não fosse a guerra e as respostas que o Irã deu aos Estados Unidos em solo emiradense.
Segundo Araghchi, o lado iraniano não pretendia entrar na discussão do tema para “preservar a unidade e a coesão dos Brics”.
“Essa situação foi verdadeiramente lamentável e eu me vi obrigado a explicar completamente ali, para os membros da reunião e para os países presentes nos Brics, que normalmente não abordamos essas questões, mas, afinal, tudo tem limite”, disse o chanceler iraniano ao Metrópoles. “Os Emirados, nesta guerra, ficaram ao lado dos Estados Unidos e de Israel”, completou.
Em meio às discussões, o chefe da diplomacia do Irã revelou ter dado um conselho ao representante dos Emirados Árabes sobre as relações do país: “Por fim, aconselhei o representante dos Emirados que o regime sionista [Israel] e os Estados Unidos não podem trazer segurança para eles”.

O que está acontecendo?
- Desde o início da guerra com os EUA e Israel, o Irã passou a atacar países vizinhos, principalmente os localizados na região do Golfo Pérsico, como forma de retaliação.
- Segundo Teerã, as ofensivas visam instalações militares norte-americanas presentes em tais países.
- Os Emirados Árabes Unidos foram uma das nações mais afetadas. Segundo dados do governo local, 2.819 mísseis e drones iranianos foram lançados contra o país desde o fim de fevereiro.
- Apesar das alegações do governo do Irã, os Emirados Árabes Unidos afirmam que os ataques não visaram apenas alvos norte-americanos, como também infraestruturas civis do país, que nada têm a ver com a guerra.
- Por isso, o país reclama sobre violações do Irã de sua soberania e do direito internacional.
- A relação entre os dois países voltou a entrar em rota de colisão nesta semana, após uma suposta visita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aos Emirados Árabes Unidos.
- De acordo com o gabinete do premiê israelense, a viagem aconteceu de forma “secreta”. Lá, Netanyahu teria se reunido com o presidente do país, sheikh Mohamed bin Zayed.
- O suposto encontro foi negado pelo Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes.
- Mesmo assim, o episódio foi apontado por Teerã como um gesto de cumplicidade do país vizinho com os EUA e Israel.
“Não tínhamos outra escolha”
Ao Metrópoles, o vice-ministro das Relações Exteriores para Assuntos Jurídicos e Internacionais do Irã, Kazem Gharibabadi, explicou a posição do país em relação aos Emirados Árabes.
Na visão de Teerã, a nação vizinha desempenhou um papel significativa nos ataques norte-americanos contra o Irã, já que possui forte presença militar dos EUA em seu próprio território.
Gharibabadi recordou que o Irã, antes do início do conflito, já havia feito alertas direcionados aos seus vizinhos. À época, o governo iraniano afirmou que, caso o país fosse atacado, instalações norte-americanas na região seriam alvos de retaliações.
“A ação realizada pelo Irã foi meramente a defesa de seu país e de seu povo. Não temos nenhuma guerra com nossos vizinhos. Antes da ocorrência da agressão, contatamos os países da região e pedimos que não fornecessem qualquer tipo de apoio armamentista ou logístico aos agressores”, expõe Gharibabadi.
A reportagem buscou um posicionamento do governo dos Emirados Árabes Unidos, por meio da embaixada do país em Brasília, sobre o assunto e as acusações do Irã. Até o momento, no entanto, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.
