Balé chinês acusado de ser uma seita faz tour pelo Brasil

Balé Shen Yun desembarca no Brasil para shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Companhia é acusada de explorar de artistas

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1 de 1 Imagem colorida mostra o balé chinês Shen Yun - Metrópoles - Foto: Scott Varley/Digital First Media/Torrance Daily Breeze via Getty Images

Duas cidades brasileiras recebem nas próximas semanas apresentações do balé Shen Yun, de origem chinesa. A companhia, acusada de atuar como uma seita, afirma ter como objetivo promover uma “celebração do rico patrimônio cultural da China“, além de preservar, por meio da dança, uma “civilização que perdura há milênios”.

Embora os objetivos do grupo possam se confundir com os de outros balés ou companhias de dança do mundo, o Shen Yun entrou no alvo de autoridades de Pequim. A companhia, desde sua formação, é abertamente anticomunista e se posiciona contra o governo chinês.

Fundada em 2006 por imigrantes chineses de Nova York, o grupo é diretamente ligado ao Falun Gong, prática religiosa e de meditação fundada por Li Hongzh, classificada como “ultraconservadora” pelo governo da China, e proibida no país desde a década de 1990. A companhia alega que o governo da China tenta “sabotar” o trabalho do grupo.

Durante suas apresentações, o Sehn Yun faz críticas ao Partido Comunista da China (PCCh) e a supostas perseguições feitas pelo regime. O grupo também faz alusões à China antes do comunismo e defende ideias do movimento de Hongzhi, como visões conservadoras sobre sexualidade e até mesmo contra a ciência moderna.

Mas, além das críticas por parte do PCCh, o grupo enfrenta ainda investigações judiciais depois que ex-integrantes passaram a denunciar abuso emocional e psicológico por parte de instrutores do Shen Yun, e afirmar que eram submetidos a rotinas exaustivas impostas por superiores e eram obrigados a trabalhar até mesmo quando estavam lesionados.


O que é Falun Gong

  • O Falun Gong é uma disciplina espiritual chinesa, difundida como uma prática religiosa e fundada pelo líder religioso chinês Li Hongzhi em 1992.
  • Seu fundador afirma que a prática pode levar à elevação espiritual e, desde sua disseminação em diversas partes do mundo, Li Hongzhi passou a ser investigado por mortes ligadas ao Falun Gong, além de assassinato e automutilação entre seus praticantes.
  • A prática está ligada à origem do balé Shen Yun, que foi criado por fundadores do Falun Gong que residiam em Nova York, inclusive Li Hongzhi. O balé, desde sua fundação, é um dos meios de propaganda da prática religiosa.
  • O balé faz apresentações em todo o mundo e difunde, através de suas apresentações, vertentes do Falun Gong, além de adotar uma linha crítica ao governo chinês, assim como Hongzhi, que é um duro crítico do regime de seu país.
  • Nos últimos anos, ex-integrantes da companhia passaram a denunciar o balé pelas condições degradantes a que eram impostos e passaram a acusar o grupo, e o Falun Gong, de atuarem como uma seita.

As denúncias contra o Shen Yun

Em novembro de 2024, quatro ex-integrantes iniciaram uma ação na Justiça dos EUA contra a Shen Yun Performing Arts e algumas instituições associadas, como as escolas Fei Tian Academy of the Arts e Fei Tian College.

No documento, que a defesa de uma das partes enviou ao Metrópoles, ex-dançarinos do Shen Yun acusam o balé de operar um esquema de trabalho forçado com violações salariais, além de envolvimento com recrutamento e exploração de menores.

A denúncia afirma que os artistas da companhia, chamados de “performers”, enfrentam um sistema de controle extremo. O que inclui o confisco de passaportes, o acesso limitado à internet e redes sociais e o monitoramento de contatos com familiares.

Os integrantes do balé ainda eram aconselhados a não buscar cuidados médicos, já que a medicina moderna era tratada como “falta de devoção espiritual” pela filosofia que rege o Shen Yun. Por isso, muitos ex-dançarinos chegaram a se apresentar lesionados, como graves lesões nos tornozelos, causadas pelas longas horas de ensaios.

Há relatos, ainda, de condições de trabalho análogas à escravidão, como jornadas de 15 a 16 horas por dia. O Shen Yun ainda é acusado de não pagar boa parte dos artistas durante suas primeiras turnês. Depois, os salários variam entre US$ 300 (cerca de R$ 1,4 mil) a US$ 1.000 (por volta de R$ 4,9 mil), sem o pagamento de horas extras — contrariando leis trabalhistas dos EUA, onde o balé está sediado.

Os quatro autores da ação ainda afirmam ter sido forçados a trabalhar para o balé desde que eram menores de idade, após recrutamento no exterior.

Chun-ko Chang, uma ex-bailarina do Shen Yun, disse ter sido recrutada aos 13 anos de idade, em Taiwan, e enviada para o complexo Dragon Springs. É lá que está localizada a sede administrativa do balé e duas escolas de artes do grupo: a Fei Tian Academy of the Arts e o Fei Tian College.

Segundo Chang, nos primeiros seis meses nos EUA, ela chegava a ensaiar 18 horas por dia e recebia um salário de apenas US$ 20 (cerca de R$ 100) por mês, diretamente do fundador do Falun Gong, Li Hongzhi. Ela se desligou do grupo em 2020, aos 24 anos.

Uma outra ex-dançarina da companhia, identificada como Yi Ran Daisy Wang e recrutada em 2008, afirma que assim que chegou ao complexo de Dragon Springs, seus documentos foram confiscados. Na ação judicial, a mulher afirma ter sofrido forte pressão psicológica sobre o próprio peso, o que desencadeou uma bulimia severa.

Em relatos feitos ao The New York Times, alguns ex-dançarinos afirmam que, enquanto não eram remunerados pelas apresentações, os ingressos custavam centenas de dólares. No Brasil, os ingressos para assistir ao Shen Yun em São Paulo, nessa sexta-feira (1º/5), estavam sendo vendidos por valores entre R$ 287 e R$ 1.095. Além de São Paulo, Porto Alegre também terá apresentações do grupo.

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A companhia de dança é abertamente anti-comunista
Em suas apresentações, o grupo diz buscar a "essência" da China antes do comunismo
O Shen Yun foi fundado em 2006, em Nova York, por imigrantes da China
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O Shen Yun foi fundado em 2006, em Nova York, por imigrantes da China

Divulgação/Shen Yun
A companhia de dança é abertamente anti-comunista
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A companhia de dança é abertamente anti-comunista

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Em suas apresentações, o grupo diz buscar a "essência" da China antes do comunismo
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Em suas apresentações, o grupo diz buscar a "essência" da China antes do comunismo

Divulgação/Shen Yun

O que é o Shen Yun

O balé Shen Yun mistura danças com diversos ritmos, cores e movimentos que remetem à cultura chinesa. O balé surgiu em 2006, na cidade de Nova York, por imigrantes chineses praticantes do Falun Gong que viviam na cidade norte-americana. Já o Falun Gong é uma vertente religiosa que tem elementos do budismo e que foi fundada por Li Hongzhi.

A prática defende que seus integrantes são capazes de alcançar a iluminação por meio de posturas e rotina de meditação. Seu fundador, que se posiciona como um duro crítico do regime chinês, chegou a afirmar em algumas ocasiões que seria o criador do universo e que a prática criada por ele seria capaz de purificar o corpo de doenças.

O Falun Gong chegou a práticas extremistas depois que seu fundador passou a ser investigado por mortes ligadas à vertente religiosa, incluindo suicídios. Episódios de automutilação e assassinato também relacionados ao Falun Gong e à elevação espiritual também são investigadas.

Denúncia feita por The New York Times afirma que a prática fundada por Li passou a utilizar o Shen Yun como uma ferramenta de propagação não apenas da prática religiosa, mas da mensagem anticomunista defendida por ele. A propagação dessa mensagem, bem como do balé, era promovida por empresas fundadas por praticantes do Falun Gong, que incluía ainda o jornal The Epoch Times.

A partir deste paralelo, fica fácil identificar conexões entre o Shen Yun e a prática religiosa do Falun Gong a partir das denúncias de ex-integrantes. Em relatos, aqueles que romperam com o movimento afirmam que os instrutores e fundadores do balé acreditam — e pregam — que seus dançarinos poderiam alcançar a elevação espiritual por meio das coreografias.

Os alunos que denunciaram a companhia afirmam ainda que seus instrutores tinham o hábito de dizer que cada apresentação era uma missão espiritual urgente e os faziam acreditar que qualquer um que se manifestasse contra o movimento poderia enfrentar graves consequências.

Para quem assiste às apresentações, não fica evidente que uma mensagem religiosa está sendo transmitida. Até mesmo as críticas ao governo chinês podem ter um caráter velado. Seus praticantes, por outro lado, afirmam que se sentiam “usados” pelo espetáculo para promover o Falun Gong e o ponto de vista crítico ao regime comunista chinês.

O outro lado

Procurado pela reportagem, o Shen Yun acusou o governo da China, liderado por Xi Jinping, de tentar “sabotar” o trabalho do grupo e impedir apresentações ao redor do mundo.

“Desde a fundação da Shen Yun Performing Arts em 2006, o Partido Comunista Chinês nunca deixou de tentar interferir em nossas atividades e ditar ao mundo o que pode ou não ser assistido. Eles pressionam teatros para que cancelem nossos contratos, tentam subornar políticos locais para que façam o que eles querem, assediam as famílias dos artistas na China, nos atacam com uma horda de comentaristas online, enviam falsas ameaças de bomba a teatros e até mesmo furam perigosamente os pneus de nossos ônibus de turnê”, diz um trecho da manifestação.

Na nota enviada ao Metrópoles e publicada no site oficial do Shen Yun, o grupo ainda afirmou que tal perseguição acontece pois as apresentações permitem que “as pessoas imaginem uma China sem comunismo”. Confira a manifestação na íntegra aqui. 

 

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