Casos de racismo explodem em MG e expõem herança da escravidão

Em cinco anos, Minas Gerais saiu de 67 casos de racismo registrados na Justiça para 852; episódios recentes no estado validam dados

atualizado

metropoles.com

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1 de 1 metadinha-2x-1779819126639 - Foto: Reprodução/Redes sociais

Belo Horizonte — Minas Gerais vive uma explosão de processos relacionados a racismo na Justiça. Dados do Painel de Monitoramento de Justiça Racial, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram que o estado saiu de 67 casos em 2020 chegando a 852 registros em 2025, alcançando o recorde histórico.

O avanço acontece em meio a episódios recentes que chocaram Minas Gerais, como o caso do argentino preso após chamar um menino negro de “escravo” durante um passeio de Maria Fumaça em São João del-Rei, turistas flagrados simulando tortura de pessoas escravizadas em um pelourinho de Mariana e denúncias de humilhações racistas no ambiente de trabalho.

Enquanto os casos de racismo aumentam, os de homicídios de pessoas negras apresentam queda. Segundo o Atlas da Violência 2026, o estado passou de 3.412 homicídios de negros em 2014 para 2.069 casos em 2024, o que representa uma redução de 39,4% no período.  Em Minas Gerais, o número de homicídios de pessoas negras registrou queda ao longo dos últimos dez anos.

Os dados do CNJ

Segundo o painel do CNJ, Minas Gerais registrou 67 novos processos relacionados a racismo em 2020. O número saltou para 181 em 2021, caiu para 129 em 2022 e voltou a crescer rapidamente nos anos seguintes.

Em 2023, foram 279 novos casos. Já em 2024, houve uma disparada: 587 processos, aumento de aproximadamente 110% em relação ao ano anterior. O recorde veio em 2025, quando Minas atingiu 852 novos casos ligados à temática racial — maior marca de toda a série histórica monitorada pelo CNJ.

Mesmo com o ano ainda em andamento, 2026 já soma 262 novos processos apenas nos primeiros meses.

Atualmente, o estado possui 1.609 processos pendentes relacionados a racismo. Destes, 1.412 seguem em tramitação efetiva no Judiciário.

Crescimento acelerado

A série histórica mensal mostra que o avanço deixou de ser pontual e passou a ocorrer de forma contínua. Em fevereiro de 2022, Minas registrava apenas dois novos casos relacionados a racismo no mês. Em julho de 2023, o número já havia subido para 17.

No ano retrasado, os registros passaram a crescer em sequência. Em abril de 2024, foram 31 novos casos mensais. Em julho, 44. No início de 2025, o número chegou a 50.

Já em 2026, os meses começaram em patamar ainda mais alto: 56 registros em janeiro, 61 em fevereiro e 65 em março.

A maior parte das ações está concentrada na Justiça estadual e tramita no primeiro grau.

Mulheres são maioria entre vítimas

Os dados do CNJ também revelam o perfil das vítimas envolvidas nos processos relacionados a racismo em Minas Gerais.

As mulheres são maioria e representam 56,6% dos casos registrados no painel. Homens correspondem a 43,2%.

A faixa etária mais atingida é a de 26 a 35 anos, com 4.599 vítimas. Em seguida aparecem pessoas entre 36 e 45 anos (4.470) e jovens de 1 a 25 anos (3.977).

O peso de casos envolvendo crianças ganhou destaque nacional — e até internacional — nos últimos dias, após um estrangeiro ser preso no Brasil.

Atlas da Violência 2026

Enquanto o Brasil registra uma lenta redução nos homicídios, a violência letal continua atingindo de forma desproporcional a população negra, conforme o Atlas da Violência 2026. Em Minas Gerais, esse quadro se soma a uma explosão de processos judiciais por racismo, reflexo tanto de maior conscientização quanto da persistência do preconceito no cotidiano.

Atlas da Violência 2026
Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) e MS/SVSA/CGIAE – Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM. Elaboração: Diest/Ipea e FBSP.
Nota: O número de negros foi obtido pela soma de pardos e pretos.

Desigualdade racial na violência letal

De acordo com o capítulo dedicado à violência contra pessoas negras no Atlas da Violência 2026, em 2024 foram registrados 32.820 homicídios de pessoas negras no Brasil, o que representa 77% do total de homicídios no país. A taxa foi de 27,3 mortes por 100 mil habitantes negros, contra 10,1 por 100 mil entre não negros. Isso significa que uma pessoa negra teve 2,7 vezes mais chances de ser assassinada do que uma não negra em 2024.

Entre 2014 e 2024, o Brasil registrou 435.551 homicídios de pessoas negras, contra 132.156 de não negros. Embora ambos os grupos tenham apresentado redução, a queda foi bem mais acentuada entre não negros (38,9%) do que entre negros (21,7%). As taxas de homicídio contra negros sempre se mantiveram significativamente mais altas ao longo dos 11 anos analisados.

Análise regional

Segundo o Atlas da Violência 2026, o estado de Minas passou de 3.412 homicídios de negros em 2014 para 2.069 casos em 2024, o que representa uma redução de 39,4% no período. A maior parte dessa queda ocorreu até 2019, quando foram registrados 2.145 homicídios. A partir de então, os números oscilaram, com leve alta em 2023 (2.067) e 2024 (2.069), registrando variação positiva de 0,1% entre esses dois últimos anos.

No que se refere às taxas de homicídio por 100 mil habitantes negros, Minas Gerais também apresentou importante redução. A taxa caiu de 29,4 em 2014 para 16,5 em 2024, uma diminuição de 43,9% em dez anos. Após atingir o ponto mais baixo da série em 2021 (15,1), a taxa voltou a subir levemente, chegando a 16,4 em 2023 e 16,5 em 2024, com variação de 0,6% no último ano.

Apesar da tendência geral de queda, os dados mostram que a violência letal contra a população negra no estado permanece em patamares elevados e voltou a apresentar sinais de estagnação recente.

Casos recentes de racismo chocaram Minas Gerais

“Levá-lo como escravo”

No domingo (24/5), um turista argentino de 63 anos foi preso após fotografar e filmar um menino negro de 7 anos durante o passeio de Maria Fumaça entre São João del-Rei e Tiradentes, na Região Central de Minas.

Segundo a família da criança, o homem enviou mensagens afirmando que poderia “levá-lo como escravo” do Brasil para a Argentina.

A mãe do garoto contou ao Metrópoles que o filho ficou “quieto, cabisbaixo e triste” após entender o teor das mensagens. O caso provocou indignação por envolver uma criança e referências diretas ao período da escravidão.

Deboche em pelourinho

Outro episódio recente gerou revolta em Mariana, cidade histórica marcada pelo passado colonial.

Um vídeo viralizado nas redes sociais mostrou turistas simulando cenas de tortura em frente ao pelourinho da Praça Minas Gerais, monumento utilizado durante o período colonial para punições públicas de pessoas escravizadas.

Nas imagens, uma mulher aparece presa às argolas de ferro do monumento enquanto grita “me bate”. Outras pessoas riem e fazem comentários relacionados à escravidão.

Após a repercussão, a prefeitura anunciou que discute medidas educativas e reforço da comunicação histórica no local para evitar novos episódios semelhantes, mas não houve nenhuma punição efetiva para os turistas até o momento.

“Rato no cabelo”

Os casos recentes em Minas também atingem o ambiente profissional.

Na semana passada, o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG) manteve a condenação de um supermercado de Araguari após uma gerente fazer comentários racistas contra uma funcionária diante de colegas.

Segundo o processo, a chefe dizia que a trabalhadora escondia “ratos no cabelo”. Testemunhas confirmaram as falas e relataram o abalo sofrido pela vítima. A Justiça reconheceu o dano moral e manteve indenização de R$ 5 mil.

Um problema estrutural

Os dados do Atlas da Violência 2026 e do CNJ reforçam que, por trás dos números, há trajetórias interrompidas precocemente e uma hierarquia racial que persiste na proteção à vida. Os pesquisadores alertam que a redução geral da violência letal não pode ser celebrada plenamente enquanto não for equitativa.

Em Minas, o crescimento contínuo de denúncias — de 2 casos mensais em fevereiro de 2022 para mais de 60 por mês em 2026 — indica maior disposição das vítimas em denunciar, mas também revela que o racismo segue presente em espaços como trabalho, lazer, turismo e transporte.

Especialistas apontam que o aumento de processos reflete tanto avanços no acesso à Justiça quanto a necessidade urgente de políticas públicas antirracistas mais efetivas, incluindo educação, capacitação de agentes públicos e combate à impunidade.

Enquanto o país discute segurança pública, os dados do Atlas e do CNJ lembram que a violência no Brasil tem cor: ela é desproporcionalmente negra. Em Minas Gerais, a sociedade assiste, ao mesmo tempo, ao aumento da visibilidade e das denúncias — um sinal de que o silêncio está sendo quebrado, mas a estrutura ainda precisa ser transformada.

 

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