Radicado no DF, Wissam Arbash acha na arte refúgio ao terror da guerra

A vida do refugiado foi uma das que inspiraram as autoras Thelma Guedes e Duca Rachid a escreverem a novela Órfãos da Terra

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 14/07/2019 19:57

A história de Wissam Arbash — jovem obrigado a sair do seu país para fugir da guerra — daria um filme… mas deu novela. A vida do refugiado sírio foi uma das milhares que inspiraram as autoras Thelma Guedes e Duca Rachid a escreverem Órfãos da Terra, folhetim exibido na TV Globo que vem batendo recordes de audiência no horário das 18h.

Na trama, uma família chega ao Brasil para tentar reconstruir a vida, destruída pelos horrores da guerra na Síria. O enredo retrata as dificuldades enfrentadas por refugiados que cruzam quilômetros a pé e atravessam oceanos a bordo de botes superlotados em busca de paz. E quando encontram um porto seguro, essas pessoas encontram barreiras como o preconceito e o desamparo jurídico na hora de recomeçar.

Desde a estreia da novela, em abril deste ano, as autoras usam depoimentos reais na tentativa de dar mais veracidade ao roteiro. No capítulo do último dia 2 de julho, o escolhido foi um morador de Brasília: Wissam Arbash, 29 anos. O relato, focado nas transformações causadas em sua vida pelo amor, pela poesia e pela oportunidade, emocionou os telespectadores.

Arbash reencontrou o sentido da vida na arte. Com o apoio de sua namorada, a diretora teatral Paula Wenke, o sírio formou-se ator e tem experimentado a sensação de interpretar diversas vidas em cima dos palcos. Paralelamente, ele aproveita a notoriedade conquistada com a aparição na telinha da emissora carioca e o dinheiro arrecadado em palestras feitas Brasil afora para tentar resgatar o restante dos familiares em sua terra natal. “Meu sonho é reencontrar a minha mãe. Vejo aqui filhos desrespeitando os pais, e tudo que eu queria era estar perto dos meus. Quero falar sobre isso”, salienta.

TV Globo/Reprodução
A trajetória de Wissam Arbash foi um dos casos reais narrados durante os capítulos de Órfãos da Terra
Terror da guerra

Nascido em de 1990, Wissam foi criado pelos pais e cresceu em Yabroud, cidade há 70 quilômetros de Damasco, capital da Síria. Da infância e adolescência, guarda lembranças comuns e afetuosas, como as brincadeiras ao lado dos três irmãos – Ryad, Maria e Elias. O esforço do pai, o professor de matemática Youssef Arbash, e da mãe, Hiyam Farah, também professora, para que ele concluísse os estudos é parte importante da memória. Wissam já estava na faculdade de farmácia quando a primeira bomba foi lançada na região onde morava, em 2011.

Com Yabroud tomada por terroristas, Wissam decide mudar-se para a capital para concluir o curso superior. Mas, com o tempo, o terror volta a bater à sua porta. Após 100 dias sem água e luz, o sírio resolve sair um pouco de casa. Enquanto caminha, ouve uma grande explosão e se joga dentro de uma loja. “Por pouco não me acerta”, afirma. De lá, vê imagens impossíveis de esquecer. “Eram mães lamentando as mortes dos filhos, pessoas chorando, outras gritando sem partes do corpo, muita coisa ruim”, lembra, de olhos fechados, imerso nos mesmos sentimentos de tantos anos atrás.

“As cores da guerra ainda estão na minha memória: é o prata e o cinza do concreto e dos metais distorcidos, misturados com o vermelho dos corpos dilacerados”

Wissam Arbash
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Rumo ao Líbano

O atentado em Damasco foi a gota d’água para Arbash. Até então, ele insistia em permanecer no país de origem. “Quando a guerra começa a apertar, a gente vive um grande conflito interno. Se por um lado só vimos coisas feias e recebemos más notícias, por outro, pensamos: ‘Como posso deixar minha família, meus afetos, meus amigos… Tudo que eu amo para trás?'” Como em jogo estava o futuro, o sírio decide fugir do terrorismo. “Eu disse para mim mesmo que iria salvar meus sonhos”, ressalta.

Assim como a família de refugiados de Órfãos da Terra, Arbash e o irmão mais velho, Ryad, vão primeiro ao Líbano. “Foi muito difícil passar pela fronteira, mesmo legalmente. Como há muitos terroristas tentando entrar lá, tem muita fiscalização. Às vezes, a pessoa já atravessou a divisa e os soldados libaneses fazem elas voltarem”, conta.

Quando entraram no país vizinho, o primeiro passo dos irmãos foi ir até a Embaixada do Brasil. Demoram longos 15 dias para receberem os vistos necessários para viajar. Em solo tupiniquim, contam com o apoio e a solidariedade da tia Afife Arbache, que reside em Vassouras, interior do estado do Rio de Janeiro, há mais de 50 anos.

Além do sangue, Arbash e a parte fluminense de sua família compartilham uma história de refúgio. “O sogro de Afife fugiu da Primeira Guerra Mundial, casou com uma brasileira e, anos mais tarde, um dos filhos deles voltou à Síria e se apaixonou por minha tia”, explica. Talvez por isso, a identificação imediata.

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles
Mesmo vendo seu país e vida destruídos pela guerra, Wissam Arbash relutou para se refugiar no Brasil
Refúgio no Brasil

Arbash chegou ao Brasil em 13 de março de 2014. Ficou dois anos na casa da tia, até que começou a trabalhar e “andar com as próprias pernas”. Fez de tudo: de barman a feirante. “Eu preparava comidas árabes e vendia”, recorda. Sem conseguir revalidar o diploma de farmacêutico, o rapaz lamentava por não poder exercer a profissão. “Todo trabalho é digno, mas é frustante. É como se todos os esforços dos meus pais tivessem sido em vão”, considera.

Um dia, a sorte mudou. Ao assistir a uma reportagem sobre o Teatro dos Sentidos, projeto cultural no qual pessoas com deficiência são protagonistas tanto no palco quanto na plateia, uma parte da memória afetiva de Arbash reacendeu. “Eu sempre amei a arte, mas, nos últimos anos, esse colorido tinha sumido da minha vida. Na guerra, as primeiras coisas a se refugiarem é o amor e a poesia”, pondera.

Por coincidência ou obra do destino, o vizinho e amigo de Arbash era primo da diretora e criadora do espetáculo, Paula Wenke. Foi ele quem os apresentou e fez o papel de cupido. “No dia em que nos conhecemos, a Paula me recitou um poema. E ali já senti algo dentro de mim, estávamos apaixonados”, ressalta.

“Aqui, no Brasil, não me sinto como refugiado, me sinto bem-vindo. Vim para cá forçado pela guerra, mas hoje digo, com gratidão, obrigado. Eu saí da cruz para os braços do Corcovado”

Wissam Arbash

Veja o depoimento de Wissam Arbash para o elenco de Órfãos da Terra:

Amor, teatro e poesia

De acordo com Arbash, o amor de Paula o salvou de todas as maneiras. Com ela, ele estudou teatro e descobriu o talento até então escondido para a interpretação. Tornou-se ator profissional e, nos quase três anos de relacionamento, o romance rendeu muitos frutos artísticos. Com Paula na direção e Arbash no palco, realizaram diversas montagens, entre elas, Brasil Mostra a Tua Cara, uma homenagem ao Cazuza, e Viagem no Tempo com o Barão de São Luís e Epifânio. Ao trabalhar nos dois textos, conheceu um outro lado do país. “Serviram como aulas de história do Brasil para mim”, pontua o sírio.

Um dos momentos mais marcantes para os dois, foi a participação de Wissam em um festival de rock beneficente. O objetivo do evento era arrecadar fundos para crianças vítimas da guerra na Síria. Ele tocou trompete e recitou um poema feito a quatro mãos pelo casal, intitulado Estilhaços por Lírios: “Somos adultos, a gente se vira, se reinventa, vem para cá. Mas e as crianças sírias que ficaram por lá?”, questionam em parte dos versos.

Segundo Paula, em sua convivência com Arbash, também tem aprendido muitas coisas, principalmente sobre ela mesma. “Por ser mais velha e por não ter o corpo das modelos das capas de revista, às vezes, eu me preocupava se isso seria uma questão para ele. Mas o Wissam me ensinou que, de onde ele vem, os homens levam em conta outros valores. Ele é transparente, me dá segurança. Sempre senti o interesse dele por mim.”

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles
Juntos, Wissam Arbash e Paula Wenke reconstroem a vida em Brasília 

Nesse meio tempo, Arbash aprofundou o estudo da língua portuguesa de forma autodidata. “Aprendi sozinho, lendo livros e pela internet”, garante. Ele também conseguiu revalidar o diploma de farmácia, mas ainda não pode atuar no ofício de formação, pois espera os documentos necessários para trabalhar. “Fiz a prova há mais de três anos. Levou mais de um ano até receber o certificado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Diferentemente da novela, o nosso maior antagonista não é uma moça mimada, é o Estado”, reclama.

Desde dezembro do ano passado, Arbash e Paula moram em Brasília, onde ela já havia vivido por 15 anos e cursado artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB). Paralelamente aos movimentos artísticos, o sírio agora trabalha na Embaixada dos Emirados Árabes. Lá, encontrou compatriotas e já fez grandes amigos. “Por estarmos na capital federal, acreditamos que aqui ele vai conseguir mais rápido os documentos. Até hoje ele está sem identidade, isso dificulta muito”, completa Paula.

Para contratar as palestras de Wissam Arbash, basta entrar em contato pelo número (24) 99283-4327 (WhatsApp) 

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