Diretor de A Divisão critica política cultural de Bolsonaro

Série do Globoplay e agora filme, longa mostra onda de sequestros no Rio de Janeiro dos anos 1990. Segunda temporada estreia ainda em 2020

Downtown Filmes/DivulgaçãoDowntown Filmes/Divulgação

atualizado 17/01/2020 20:19

Seis meses após ganhar série no Globoplay, o thriller policial A Divisão agora chega aos cinemas, estreando nesta quinta (23/01/2020). Na trama, policiais da DAS (Divisão Antissequestro) tentam encontrar soluções para conter a onda de sequestros no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1990. O filme abre a temporada de grandes lançamentos brasileiros de 2020, que reserva atrações como continuação de Turma da Mônica: Laços e dois títulos sobre o caso Richthofen.

Mas, atenção: são obras independentes, apesar da óbvia filiação. Segundo o diretor do longa, Vicente Amorim, conhecido por Corações Sujos (2011) e Motorrad (2017), “o filme não é um resumo da série”. “Precede a série. Rodamos duas temporadas e o longa ao mesmo tempo”, revela o carioca, de 53 anos. A obra teve produção da ONG AfroReggae, comandada por José Junior. A parceria foi fundamental para que o cineasta achasse locações autênticas, por exemplo.

Em entrevista ao Metrópoles, Amorim detalha como foi filmar cenas de violência explícita e chocante para evidenciar a brutal realidade urbana. Também faz duras críticas aos desmontes do governo do presidente Jair Bolsonaro na área cultural. “Política burra e de vingança”, define.

Segurança pública no divã

O sucesso na Globoplay, segundo Amorim, foi tão grande que os responsáveis pelo streaming da Rede Globo decidiram adiar a estreia da segunda temporada, já finalizada. “O retorno que recebi é que a série é campeã de engajamento. Quem começa, vê até o final”, conta. Novos episódios devem ser lançados no segundo semestre e há planos, ainda não concretizados, para mais duas temporadas.

Apesar de ambientado vinte anos atrás, A Divisão soa infelizmente atual. Problemas de segurança pública no Rio persistem, mesmo com a drástica diminuição de sequestros. “O que a gente vive hoje tem origens centenárias”, aponta Amorim. “O filme demonstra como o sequestro, que incomodava a elite, foi resolvido. Mas todos os outros tipos de violência pioraram”, continua.

“Nessa crise dos sequestros, aprofundou-se um mal na polícia: a promiscuidade entre agentes públicos com interesses privados e a busca de soluções para problemas através de métodos no mínimo questionáveis”, diz Amorim, adiantando-se a falar sobre o quinteto de personagens principais.

O caso central em A Divisão é o sequestro da filha do deputado Venâncio Couto (Dalton Vigh), candidato a governador já de olho em competir à presidência. Entram na investigação policiais, digamos, controversos.

Roberta (Natália Lage), Santiago (Erom Cordeiro) e Ramos (Thelmo Fernandes) vivem às turras com a corregedoria. Para eles, extorquir e chantagear traficantes é tão cotidiano quanto um cafezinho. Mendonça (Silvio Guindane) se diz incorruptível. No entanto, tem fama de sanguinário. O delegado Benício (Marcos Palmeira), bom de lábia e misterioso, comanda a força-tarefa.

Algo que salta aos olhos em A Divisão é a ação realista e extrema. Não faltam cenas de tortura e tiroteios com resultados trágicos. Como no Rio de verdade, nem moradores de favela menores idade escapam. “A violência tratada no filme é brutal porque a realidade que provoca essa violência é brutal. Se a gente tentasse estilizar isso, de uma forma a escondê-la ou deixá-la subentendida, estaria enganando o espectador e tirando a possibilidade de se sentir próximo dos personagens.”, explica.

Segundo Amorim, vítimas, policiais e ex-sequestradores que viram o filme se impressionaram. “Chegou bem próximo do que viveram”, diz.

Críticas ao governo Bolsonaro

A postura do governo federal na área cultural preocupa Amorim, que deu entrevista ao Metrópoles antes da exoneração do ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, por causa de vídeo com discurso nazista. O cineasta prevê um ano problemático. “Mas eles não vão conseguir derrotar o audiovisual brasileiro. A prova da força autoral dele está nos eventos”, argumenta.

Amorim cita, como grandes exemplos, os prêmios no Festival de Cannes de melhor filme da mostra Um Certo Olhar e do júri da Palma de Ouro para A Vida Invisível e Bacurau, respectivamente. “A Divisão nem estreou e já está vendido para pelo menos uns dez territórios. A força de filmes como o do Paulo Gustavo (Minha Mãe É uma Peça 3)”, enumera.

“Tentam criar várias dificuldades com uma política burra, de vingança contra um dos setores mais importantes da economia brasileira. Dos que mais cresciam e criavam novos empregos. Teremos dificuldades e vamos prevalecer”, espera.

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