Cannes: leia crítica de Bacurau, filme brasileiro exibido em Cannes

Favorecido pelo clima político brasileiro, novo longa de diretores pernambucanos apresenta fábula violenta

Divulgação/Festival de CannesDivulgação/Festival de Cannes

atualizado 25/05/2019 13:06

Algo ameaçador paira sobre o vilarejo de Bacurau, no oeste de Pernambuco. Mas talvez ninguém se importe, afinal, num futuro próximo, ela acaba de ser literalmente apagada do mapa. Quando o novo filme de Kleber Mendonça Filho, desta vez codirigido por Juliano Dornelles, começa, Teresa (Bárbara Colen) acaba de chegar no vilarejo para o enterro de sua avó, a matriarca da vila, Carmelita. Reencontros, especialmente com Pacote (Thomas Aquino), um caso antigo e presente, e com seu Pai (Wilson Rabelo), movimentam o primeiro ato da trama.

Teresa é uma filha pródiga, e seu retorno ao lar traz um certo conforto à pequena cidade. Médica, ela traz em sua bagagem vacinas suficientes para inocular um povo completamente abandonado pela político brasileira, exceto quando o prefeito do município, Tony Filho, aparece para pedir votos com cestas básicas cheias de produtos expirados.

Bacurau, o vilarejo e o filme, é o retrato de um Brasil que sobrevive por esforço próprio, dependendo da força e da união do povo quando ninguém mais dá assistência. Com misteriosas mortes nos arredores da vila e a perda de sinal dos aparelhos celulares e de comunicação, a cidade necessita cada vez mais de Lunga (Silvero Pereira), cangaceiro moderno que está à espreita e que é buscado pela polícia.

O filme acerta quando contempla sua brasilidade, especialmente a nordestina. A introdução de dois personagens sulistas na trama (Karine Teles e Antonio Saboia), que se julgam melhores e mais “brancos” do que os nordestinos, é a sátira mordaz de que o filme necessita, especialmente nos dias de hoje, quando grande parte do país fantasia se desassociar de regiões com pigmentações de pele mais escuras. Muito do revanchismo do filme e de sua catarse violenta vem da reapropriação de imagens históricas do sertão.

Os erros estão nas largas faixas da trama entregues aos vilões. Mesmo com tempo de tela e certo cuidado de mostrar suas opiniões e seus pontos de vista, estes permanecem caricaturas rasas, em quem não se deveria investir tempo melhor alocado nos personagens principais, abandonados pela trama rumo a um desfecho necessário. Assim como em Aquarius, ambientação e personagens são descartados quando fica necessário avançar a trama.

Bacurau, no final das contas, cujo nome é referência a um pássaro que caça à noite, não se renderá facilmente às forças das trevas, mas a moralidade da trama é duvidosa, visto que o Brasil, como aprendem vários personagens da trama, decididamente não é para amadores.

Quando o filme decide encarnar a resistência bangue-bangue, em tempos de pleno encorajamento violento à sociedade pelo estado, tudo se encaixa no que deveria ser catarse. Nosso destino parece se resolver cada vez mais na base da violência, e os diretores resolvem dar o troco.

Avaliação: Bom

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