Artistas lésbicas do DF usam talento para ganhar mais espaço na cultura

Apesar do mês comemorativo, artistas de Brasília acreditam que ainda há um longo caminho a percorrer por visibilidade na cultura

atualizado 30/08/2020 19:20

Patrícia Egito e Mari MiraMyke Sena/Esp. Metrópoles

O mês da visibilidade lésbica chega ao fim nesta semana, mas a pauta de artistas que representam uma das letras mais negligenciadas no acrônimo LGBT  é permanente e inerente ao trabalho que desenvolvem culturalmente.

Da música às artes visuais, brilhando sobre o palco ou conduzindo grandes projetos a partir dos bastidores, elas seguem resistindo para que suas identidades, talentos e influências históricas sobre a cultura sejam reconhecidos e valorizados.

Terreno fértil para o surgimento de novas artistas LGBTs, a capital federal assistiu grande parte delas serem reveladas a partir do trabalho de outras mulheres, dispostas a desconstruir sistemas que não as contemplam. Em entrevista ao Metrópoles, cinco delas contam como usam seu trabalho e ativismo a favor da própria emancipação e do coletivo.

Mulheres que projetam outras mulheres

As produtoras Patrícia Egito e Mariana Miranda (foto em destaque) abriram espaço para muitas artistas se destacarem nos últimos anos. As duas se conheceram em 2013, começaram a namorar no ano seguinte e passaram a assinar vários projetos juntas. Até que um caso de lesbofobia ocorrido no Balaio Café, antigo espaço de resistência, inclusive, feminista, fez com que elas direcionassem seus trabalhos para as demandas desse grupo.

“Foi um divisor para gente. Percebemos que existia uma lacuna muito grande que a gente não conseguia preencher e sentimos necessidade de promover ações dentro de espaços onde a nossa presença não era comum. E isso fez com que nascessem vários outros projetos”, cita Patrícia.

Entre os de maior destaque estão a festa Jamaicana Sound Sistas e a Noite da Catuaba Selvagem, com repertório inspirado na influência de cantoras na música jamaicana e no brega, e o bloco Essa Boquinha Eu Já Beijei, que há sete anos fomenta a diversidade e o respeito no Carnaval brasiliense. Sempre priorizando talentos femininos e lésbicos.

Patrícia Egito
Patrícia (foto) e Mari são idealizadoras do Essa Boquinha Eu Já Beijei, bloco de carnaval composto 100% por mulheres. No palco, a maioria é de lésbicas

“A gente está sempre buscando valorizar, pesquisar e enaltecer o trabalho de artistas mulheres — sejam elas compositoras, cantoras, djs ou produtoras. Sabemos que existe uma invisibilização não só nos lines, mas em toda a cadeia cultural”, ressalta Mari.

Um exemplo é a ausência de personagens lésbicas nas novelas, meio pelo qual muitos brasileiros acessam à cultura nacional. “É um exercício rememorar as mulheres lésbicas que a gente viu na tevê. Foram pouquíssimas personagens, muitas com finais trágicos, um casal a cada cinco novelas” continua. 

Na opinião de ambas, pautar espaços culturais mais democráticos tende a ser ainda mais desafiador diante da forma como os gestores interagem com a cultura na capital federal. Por isso, apesar do espaço conquistado a partir de seus trabalhos, elas sabem que há um caminho longo a ser percorrido.

“Ser artista em Brasília já é muito complexo. É uma cidade que marginaliza a arte, criminaliza livres ocupações de rua, como o Carnaval, como se elas não fossem uma ação legítima e benéfica para a sociedade. Quando você parte do contexto da mulher lésbica, é mais problemático”.

Mari Mira, agitadora cultural, artista e empreendedora
Liberdade de ser nos palcos

A opinião é compartilhada pela performer e coreógrafa Luara Learth, 29 anos. Ela se mudou para Portugal em 2015 para concluir um curso com bolsa concedida pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Retornou a Brasília em 2017, mas decidiu dar meia à volta quando “a situação política se agravou”.

“Os fomentos à cultura, que já eram poucos, foram sendo mais saqueados. Aqui [na Europa], as coisas começaram a melhorar, com mais incentivo para jovens criadores como eu e estruturas menos precárias para desenvolver meu trabalho autoral. Hoje em dia moro no sul da França, em Monpellier, e faço um programa artístico de mestrado, no Centro Coreogáfico Nacional de Montpellier”, conta Luara.

Apesar da escolha, ela acredita que a invisibilização e falta de representatividade não é um problema só de seu país natal.

“Sinto que no Brasil, e aqui também, por mais que a arte possa ser um espaço de práticas libertárias, os espaços de poder como curadorias, diretorias, programações, em sua maioria, estão ocupados por corpos hegemônicos, ou seja, homens brancos. E as suas escolhas refletem a exclusão sistemática da diferença. Quanto maior essa dissidência, mais longe estamos dos espaços de poder, e por consequência mais precárias e vulneráveis”, completa.

Luara Learth, coreógrafa e performer brasiliense

Ela conta que o reconhecimento de seu potencial artístico ocorreu de forma concomitante à descoberta da própria identidade.  “O teatro entrou na minha vida mais ou menos na mesma época que eu me entendi sapatão. Eu devia ter uns 14 anos. Não tive aceitação em casa, a princípio, então a arte era o lugar onde eu podia encontrar refúgio e acolhimento da dissidência, além da expressão e celebração dela”, diz.

É transmitindo essa liberdade nos palcos que Luara acredita poder se comunicar, até mesmo, com pessoas lesbofóbicas. “A poética sapatão é invisibilizada mesmo dentro da cultura LGBTQIA+, que pode ser misógina e transfóbica também, centrada em homens gays. Mas com certeza, a produção das sapatão e das dissidentes de gênero, e principalmente das pretas, é o que mais me alimenta e inspira a arquitetar situações artísticas que afrontem as estruturas conservadoras do mundo que a gente vive”, pontua.

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Expressão da própria existência

A cantora brasiliense Anna Moura, de 28 anos, também encara o seu trabalho como “ferramenta de resistência e revolução”, compondo e interpretando sobre “as dores e delícias de ser lésbica”.

“Eu sou uma mulher sapatona, sou afroindígena, sou adotada, sou artista de rua… existir fazendo o que faço — que é viver de arte — já é uma forma bem expressiva de fazer ressoar minha existência, de reverberar minha identidade”, defende Anna. “Minhas letras falam sobre meu orgulho e também sobre as violências que me cercam. Também me percebo reverberando essa identidade sapatônica através das minhas relações, sejam pessoais ou de trabalho, porque eu ‘só colo’ com quem fortalece a correria das pessoas LGBTQIA+”, explica.

Ela acredita que abraçar a própria identidade sexual nos palcos é urgente, sobretudo na capital federal, centro de tomada de decisões.

“O mecanismo binário e heterocisnormativo já nasceu falido, nunca será capaz de acolher tudo que somos e podemos vir a ser. Quando você saca essa lógica, fica fácil entender que representatividade importa porque, diante de tanta violência e opressão, exemplos de pessoas que se mantém vivas, conscientes e ativas motivam outras pessoas a também seguirem vivas, conscientes e ativas”, conclui.

Pintar a própria história

A arte também foi o caminho percorrido pela pintora Camila Soato para questionar o sistema mencionado por Anna e pelas demais artistas ouvidas pela repotagem.  “Construo cenas que possuem diversas camadas: humor bem forte, irônico e muitas vezes sarcástico; outra camada, política, e que questiona o comportamento normativo, os bons costumes e o estigma da ‘boa moça’ (…). São cenas esdrúxulas e ao mesmo tempo cotidianas”.

Ela usa um de seus trabalhos para exemplificar como essas pautas cabem, perfeitamente, numa tela em branco. Na obra escolhida, uma figura feminina é retratada se depilando, com a mesma naturalidade que um comercial de tevê mostra um homem se barbeando.

“Na mesma tela são construídas situações que mesclam o universo doméstico e íntimo com o tosco e viril, nada sedutor para o modelo de beleza vigente. São figuras mais desejantes do que desejadas. Mulheres que não se depilam ou se depilam no meio do buteco bebendo cerveja e dando gargalhadas ensurdecedoras. Uma feminilidade não grata para os homens. Por isso, invisibilizada”, explica.

No trabalho como artista visual, Camila ecoa o desejo de escrever, ou melhor, pintar, a própria história. “Já que essa que temos é imposta por uma hegemonia androcêntrica que se ocupou durante séculos com invisibilização da mulher. A mulher negra, indígena, trans, do campo e das ruas, a mulher lésbica, fanfarrona, gorda e fora dos padrões”, encerra.

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