Professor que invadiu secretaria do DF: “Me trouxeram como cachorro”

Ainda muito agitado, o homem de 53 anos, que teria problemas psiquiátricos, foi levado para o Hospital de Base

Reprodução/Vídeo

atualizado 15/03/2019 18:50

Após ser preso, o professor da Escola de Música de Brasília que invadiu a Secretaria de Educação do Distrito Federal nesta sexta-feira (15/3) foi levado ao Hospital de Base em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Na maca, gritou: “Me trouxeram para cá como um cachorro”.

Ainda muito agitado por volta das 15h40, disse que foi ao prédio da Secretaria de Educação, no Setor Bancário Norte, a pedido da assessoria do chefe da pasta, Rafael Parente, para levar “um caso grave”. “Covardes que não têm coragem de lutar pelos próprios filhos”, disparou.

O professor de 53 anos, que não teve o nome divulgado, estaria em tratamento psiquiátrico, segundo fontes da secretaria. Nesta sexta, dois dias depois do ataque a uma escola pública de Suzano, em São Paulo, ele entrou no prédio da Secretaria de Educação armado com uma faca, uma besta e cinco setas, que estavam em uma mochila. O equipamento é o mesmo utilizado pelos atiradores do massacre da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP).

PMDF/Divulgação
Besta e faca foram achadas dentro da mochila de professor

O major da Polícia Militar Cláudio Peres informou que o alvo do professor seria o secretário de Educação, Rafael Parente. “Ele dizia que queria encontrá-lo para denunciar a forma a qual os professores são tratados. Reclamou dos maus-tratos cometidos contra eles”, disse o policial.

De acordo com o major, ele foi apreendido com uma faca rara, da marca Imbel. “A besta pode ser comprada até mesmo no Mercado Livre. Não precisa de registro nem nada”, explicou. Aos policiais, o professor disse que os docentes estariam passando fome com o fechamento das cantinas nas escolas. Ele ressaltou também que o armamento não seria para atingir o secretário, “mas para tirar a própria vida”.

Sem dificuldades, o homem subiu até o 12º andar do prédio, localizado no Bloco C da Quadra 2 do Setor Bancário Norte. No pavimento funciona o gabinete do secretário de Educação, Rafael Parente. O chefe da pasta não estava no momento, pois tinha ido ao Palácio do Buriti para se reunir com o vice-governador do DF, Paco Britto.

Funcionários que trabalham na Sede 1 perceberam o cabo da besta para fora da mochila e acionaram a Polícia Militar. Segundo fontes da Secretaria de Educação, o homem tem histórico de distúrbio psiquiátrico, estava em licença médica e em tratamento.

O professor foi rendido por dois policiais militares e levado para a 5ª Delegacia de Polícia (área central). Ele ofereceu resistência durante a ação. De acordo com a pasta, o homem não utilizou a besta e ninguém ficou ferido. Ele vai ficar internado no Hospital de Base e responderá por porte de arma branca, mas não estava em condições de prestar depoimento e de assinar o termo circunstanciado nesta sexta-feira (15).

Assim que soube do ocorrido, o secretário informou que o vice-governador já pediu o afastamento e abertura de procedimento administrativo contra o professor.

O titular da pasta, por meio de sua conta no Twitter, revelou ainda que foram registrados “alguns casos de ameaças de alunos” e assegurou que o serviço de inteligência da Secretaria de Segurança Pública está em ação “dentro de algumas escolas e à paisana”.

Reprodução

Ao Metrópoles, Parente disse estar tentando entender o que ocorreu. “Aparentemente, é um caso de saúde do servidor. Precisamos encarar que a nossa sociedade está doente e que essa crise de valores só será resolvida com a união entre escolas, famílias e comunidade”, disse.

Pelo Twitter, o secretário dispensou os servidores da pasta abalados emocionalmente e disse que vai anunciar medidas para reforçar a segurança do prédio nesta segunda-feira (18).

De acordo com o secretário adjunto da Educação, Mauro Oliveira, o professor entrou normalmente no Edifício Phenícia nesta sexta e estava usando etiqueta de visitante. Não há detector de metais no prédio, nem as pessoas são revistadas. Catracas estão instaladas na entrada.

“Ele já entrou lá outras vezes. Era funcionário conhecido da Casa. Por sorte, o chefe de administração viu a mochila um pouco aberta e notou um cabo de arma dentro dela. Foi quando acionou a polícia, que pôde evitar o pior”, destacou o adjunto da pasta de Educação, na 5ª DP.

Responsável pela ocorrência, o sargento Ado disse que a PM foi acionada por volta das 12h30 pelo chefe de administração do prédio, que desconfiou do comportamento agitado do homem. “Estávamos justamente no endereço e, em minutos, subimos ao prédio, onde foi feito o flagrante”, contou.

De acordo com o militar, o docente dizia que “a Escola de Música estava acabada e queria mostrar ao secretário o que tinha na mochila”. Duas viaturas do Samu estão na 5ª Delegacia de Polícia para acompanhar a ocorrência. Uma psicóloga e dois enfermeiros entraram na unidade policial localizada na área central de Brasília para prestar atendimento ao professor.

Nesta semana, o país ficou em choque com o ataque em Suzano (SP). Após a tragédia, o Governo do Distrito Federal (GDF) anunciou que estuda medidas para garantir mais segurança a alunos e servidores nos colégios públicos. Entre elas: a expansão do número de câmeras de monitoramento; botão do pânico para acionar a polícia em caso de situações de perigo; aulas de meditação e mediação de conflitos; catracas que exigem identidade estudantil para se entrar nas escolas; e até nota de comportamento compondo a média final dos alunos, com o objetivo de estimular a disciplina dentro dos colégios.

Confira imagens da tragédia em Suzano (SP):

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Casos de violência em colégios públicos da capital não são raros. Em fevereiro deste ano, um professor de matemática do Centro de Ensino Fundamental 25 (CEF 25) de Ceilândia foi agredido com socos e pontapés por um aluno da unidade educacional.

De acordo com depoimento prestado pelo docente Giuliano Rodrigues Santos, 36 anos, na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), o jovem teria se irritado com a resposta dada por ele durante uma aula de raciocínio lógico.

Há ainda ameaças veladas. Em abril do ano passado, por exemplo, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) apreendeu um adolescente de 17 anos, após ele compartilhar mensagens com um colega sobre promover uma chacina em uma escola no Gama. “Só quero matar. Não vou ter escolha”, escreveu o rapaz.

A presença de policiais nas escolas públicas não é maciça. Segundo a PMDF, em 1989, quando o batalhão foi criado, 914 policiais cuidavam de 529 estabelecimentos de ensino, uma média de 1,7 profissional por unidade. Em 2018, eram 304 policiais para 1.250 escolas – 0,24 por colégio. Apesar disso, a assessoria de comunicação da força garante que houve avanço na inteligência para esse tipo de policiamento e, mesmo com menor efetivo, existe segurança.

Tragédia em Suzano
A escola de Suzano não tinha um policial sequer. Na manhã de quarta-feira (13/3), dois atiradores entraram no colégio estadual e abriram fogo contra contra alunos e funcionários. Dezenas de pessoas foram atingidas. Ao todo, 10 morreram. Ao menos 23 foram encaminhadas a hospitais da região, que fica a 50 km de São Paulo.

Os dois atiradores são ex-alunos da instituição de ensino. Guilherme Taucci Monteiro, que efetuou parte dos disparos, tinha 17 anos. Luiz Henrique de Castro iria completar 26 anos neste sábado (16). Os dois também morreram. A suspeita é que o adolescente tenha matado o comparsa.

Morreram, vítimas do ataque, cinco alunos do ensino médio: Pablo Henrique Rodrigues, Cleiton Antônio Ribeiro, Caio Oliveira, Samuel Melquíades Silva de Oliveira e Douglas Murilo Celestino. Jorge Antônio de Moraes, comerciante que trabalhava perto do local e era tio de Guilherme, chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Marilena Ferreira Vieira Umezo e Eliana Regina de Oliveira Xavier, funcionárias do colégio, também estão entre as vítimas.

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