Pai de rapaz morto em bloco: “Não tinha celular, levava facada”

Matheus Barbosa Magalhães Costa, 18 anos, foi ferido e morto em arrastão no bloco Quem Chupou Vai Chupar Mais

Matheus Garzon/MetrópolesMatheus Garzon/Metrópoles

atualizado 10/02/2020 17:09

Inconformados, familiares e amigos se despedem, nesta segunda-feira (10/02/2020), do estudante Matheus Barbosa Magalhães Costa, 18 anos. Ele morreu após levar uma facada no peito durante o bloco de pré-Carnaval Quem Chupou Vai Chupar Mais, na Área Central de Brasília, na noite de sábado (08/02/2020).

De acordo com o pai do jovem, Eduardo Batista Barbosa, ainda não se sabe exatamente o que aconteceu para que o filho fosse morto, mas a dinâmica do crime é de um arrastão. “Fizeram uma corrente. Se tinha celular, pegavam. Se não tinha, era faca”, destacou.

Segundo Eduardo, Matheus era uma pessoa que se esforçava muito. Tinha acabado de sair da barbearia onde trabalhava, na 305 Norte, e passou na Rodoviária do Plano Piloto para ver a movimentação. “Morreu com a mochila nas costas. Tinha a identidade, uma marmita e a máquina de cortar cabelo”, relata o pai da vítima.

 

Matheus também era lutador de jiu-jítsu. Conquistou várias medalhas e era um grande orgulho para o pai. “Não tinha uma cidade aqui que ele não tenha ganhado. Era o melhor. Meu filho era tudo para mim”, desabafou o homem.

Eduardo não se conforma com a tragédia e espera que as autoridades consigam prender os culpados. “A única coisa que o governo me deu foi a Certidão de Óbito do meu filho. Eu gostaria muito de que a segurança pública não deixasse mais essa barbaridade acontecer”, pediu.

O jovem Yuri Kainã, 18, era amigo de Matheus e encontrou com o barbeiro durante o bloco. “A gente se viu e passou a andar juntos. Depois de um tempo, teve uma briga envolvendo um amigo nosso e eu acho que os outros caras o marcaram”, conta.

Depois de outra confusão generalizada, Yuri perdeu contato com Matheus e só voltou a vê-lo depois da facada. “Ele ficou sozinho. Aqueles que brigaram antes devem ter visto a oportunidade e atacaram”, especula.

Segundo Yuri, Matheus não deixava nenhum amigo apanhar. “Teve uma vez que 10 quiseram me bater durante um futebol e ele foi lá me defender”, lembra.

Tia de Matheus, Cláudia Magalhães, 47, também não entende o acontecido. “Não tem explicação. Um grupo de pessoas sair armado de faca, canivete, punhal para matar pessoas. Isso é muito triste”, lamenta.

O estudante estava em uma fase da vida em que buscava independência e se sentia muito alegre, conta a tia de Matheus. “Ele estava doido para fazer 18 anos. Muito feliz que começou a ganhar o dinheiro dele”, lembra.

As lembranças que ficam, no entanto, são boas. Gabriel Afonso, 22, que conhecia Matheus desde os 11, afirma que o jovem era uma pessoa muito boa. “Fazia nada de errado com ninguém. Moleque bom”, diz emocionado.

Fotos e vídeos divulgados nas redes sociais mostram cenas de violência e depredação nas festas de pré-carnaval do Distrito Federal, nesse sábado (08/02/2020). Oito trens do metrô foram alvos de vândalos. Alguns vagões, que tiveram janelas quebradas, extintores de incêndio acionados e pichados, foram consertados no fim de semana e já voltaram a circular. A Companhia do Metropolitano ainda não divulgou o tamanho do prejuízo.

Uma ocorrência policial foi registrada na 21ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul), que apura o caso. Em nota, a companhia informou que “vai solicitar maior apoio da Polícia Militar do DF em plataformas e trens durante todo o período do Carnaval”.

Sem celular

O tio de Matheus, Antônio Carlos Magalhães Costa, 55, lembra que ainda foi pedido para que ele tomasse cuidado. “Saiu de casa e avisou que passaria no bloquinho. A avó ainda disse para não ir, que era perigoso e precisava tomar cuidado. Mas jovem é assim mesmo”, comenta.

Sem celular, o jovem não deu notícias durante o evento e Antônio só foi receber uma ligação com novidades da Polícia Civil. “Foi muito triste ter que ir lá para reconhecer o corpo”, diz.

O tio ainda faz um apelo às forças de segurança para que não deixem essas brigas acontecerem também no carnaval. “Quero pedir para a Segurança Pública que não aconteça mais isso. A gente sabe que o policiamento era fraco naquele momento e ele demorou a ser atendido”, finaliza.

Homicídio

A exibição do bloco de Carnaval Quem Chupou Vai Chupar Mais foi marcada por outros episódios de violência. Além do assassinato do estudante Matheus Barbosa Magalhães Costa, a PCDF registrou uma tentativa de homicídio.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF), a vítima, um rapaz de 20 anos, deu entrada no Hospital de Base por volta de 21h, após ser atingido por um objeto cortante na altura do pescoço. Ele também estava no evento.

O suspeito da tentativa de homicídio foi preso por policiais militares na Rodoviária do Plano Piloto por estar portando entorpecentes e um canivete. Ao ser encaminhado para a 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), uma testemunha o reconheceu como autor do crime.

12 feridos
Em balanço divulgado nesse domingo (09/02/2020), a SSP-DF informou que o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal realizou 12 atendimentos no bloco por ferimentos de arma branca, embriaguez, queda e brigas.

Ainda na mesma noite, a corporação atendeu um homem, de aproximadamente 25 anos, que caiu de cima da plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto. O rapaz foi transportado ao Hospital de Base inconsciente, com fratura no braço esquerdo, afundamento de face e escoriações.

Durante o evento, além dos seguranças privados contratados pela organização do bloco, chegaram a ser empregados 350 policiais, segundo a SSP-DF. A Polícia Militar do DF registrou cinco termos circunstanciados de ocorrência por porte de arma branca e cinco ocorrências de uso e porte de drogas, todos na 5ª DP. E foram recolhidos itens como tesouras, facas, canivetes, armas artesanais e mais de cinco mil garrafas de vidro.

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