Editores do Metrópoles falam sobre os desafios do jornalismo digital na Campus Party

Painel ocorreu nesta quinta-feira (20/06/2019) e apontou como a mídia tradicional teve de se adaptar à realidade imposta pelas redes sociais

atualizado 20/06/2019 19:14

Michael Melo/Metrópoles

A facilidade de circulação do conteúdo em épocas de popularização da internet seria o fim do jornalismo profissional? Essa foi uma das perguntas que editores do Metrópoles se dispuseram a responder durante painel sobre comunicação digital realizado nesta quinta-feira (20/06/2019) na Campus Party Brasília 2019.

A evolução das plataformas de interação impôs à imprensa tradicional a necessidade de se adaptar. Como produzir conteúdo numa época em que a notícia circula pelas redes sociais? Desde que qualquer cidadão municiado com um smartphone virou produtor de conteúdo em potencial, o “furo” deixou de ser o principal medidor do desempenho de veículos de comunicação. Constantemente, os meios tradicionais se surpreendem com as notícias que chegam de forma crua pelas redes sociais.

Durante exposição de uma hora, profissionais do portal compartilharam a experiência de ter de lidar com esta nova rotina em um canal nativo digital. “Todos somos produtores de conteúdo em potencial. Nós, jornalistas profissionais, temos a obrigação de devolver esse conteúdo que nos chega em forma de apuração, na busca pela verdade e com objetivo também de provocar a reflexão”, afirmou Lilian Tahan, diretora-executiva do Metrópoles.

Para ilustrar o dia a dia de uma redação de comunicação digital, os editores apresentaram uma série de exemplos em que a notícia bruta veio da comunidade, mas ganhou a projeção em veículos tradicionais.

Caso como o do súbito estrelato de Gabriel Smaniotto. Recentemente, o cantor sertanejo viralizou ao postar um vídeo durante show em que a plateia se resumia a três pessoas de sua família. A apresentação foi um fiasco, mas o rapaz deu um show de comportamento. Apresentou-se até o fim, com sorrisão no rosto, gravou o mico e divulgou em seu Stories, no Instagram.

Os vídeos de Gabriel tiveram mais de 5 milhões de visualizações e, em poucos dias, ele foi convidado a dividir o palco com quem, até então, considerava ídolos. A história foi contada por praticamente todos os ditos veículos tradicionais. Ou seja, uma pauta que nasceu em um aplicativo virou assunto da imprensa e jogou o iniciante no mundo da fama. “Antigamente, o monopólio de contar histórias era dos veículos. Alguém só seria alçado ao destaque se o meio de comunicação de massa resolvesse abrir espaço e contar aquele história. Mas isso acabou, qualquer um de nós é um publisher em potencial, desde que tenha uma boa história para contar”, pontuou Lilian.

Vazamento de mensagens

O caso do The Intercept Brasil que revelou as conversas secretas do ministro da Justiça, Sergio Moro, na época em que era juiz da Lava Jato, com o procurador responsável pela força-tarefa, Deltan Dallagnol, foi primeiro revelado pelo Twitter. Antes mesmo da publicação do conteúdo no site do jornal eletrônico, os autores das reportagens fizeram um teaser do material em suas contas no aplicativo. Boa parte da repercussão, em um primeiro momento, se deu nessa plataforma. No fim de semana subsequente às revelações, todas as revistas do Brasil especializadas em política davam o assunto em suas capas. Mais um caso citado de interação entre as novas ferramentas e os meios tradicionais de imprensa.

Foi pelo Twitter também que uma situação rumorosa envolvendo um senador nesta semana ganhou repercussão. Os editores do Metrópoles revisitaram as reportagens publicadas pelo portal denunciando a prática de nepotismo envolvendo Marcos do Val (Cidadania-ES). Ele empregou, primeiro em seu gabinete, e depois na estrutura do Senado, a própria namorada, Brunella.

Rapidamente, o assunto virou tema de debate via Twitter, sendo o assunto compartilhado milhares de vezes. O caso exemplifica uma característica do jornalismo moderno, a dinâmica na produção do conteúdo. A repercussão instantânea que as histórias geram, graças às redes sociais, torna a produção de conteúdo altamente dinâmica. No caso do senador capixaba, por exemplo, uma nova rodada de debates se deu simplesmente porque ele reagiu instantaneamente às denúncias – e foi respondido tanto por os profissionais que atuaram na reportagem quanto por os internautas que cobraram explicações ao congressista, eleito sob o manto da nova política.

O duplo assassinato ocorrido no Cruzeiro há uma semana também foi abordado durante a apresentação, quando os jornalistas falavam sobre a quantidade de histórias que surgem a partir de vídeos do WhatsApp.

A morte de uma mulher pelo próprio esposo, que também baleou e matou um amigo dela a sangue frio, foi toda filmada por uma testemunha do assassinato. Logo após o crime, o vídeo circulava em grupos de WhatsApp. “O que fazer numa situação como esta, em que as pessoas tiveram acesso à filmagem, estão cheias de dúvidas, inclusive quanto à veracidade? É justamente aí que entra o papel do jornalista profissional. Cabe a nós apurar, checar, explicar, aprofundar, ouvir o contraditório e devolver este conteúdo para a sociedade”, afirmou Lilian.

Michael Melo / Metrópoles
“O meio digital é democrático: ele aceita o raso e o profundo”, destacou a editora de Projetos Especiais do Metrópoles, Olívia Meireles

 

Projetos Especiais

Olívia Meireles, editora de Projetos Especiais do Metrópoles, abordou em sua fala a falsa percepção de que a internet é, necessariamente, um espaço do debate superficial. “Pelas minhas mãos passam as matérias em que a gente investe tempo, dinheiro e apuração. Às vezes, uma matéria especial chega por meio de uma fonte exclusiva, chega por uma sacada do repórter, mas a gente também se aprofunda a partir de histórias que estão circulando nas redes sociais. O meio digital é democrático: ele aceita o raso e o profundo.”

Ela citou a chacina em Campinas (SP), ocasião em que o portal, como em várias outras circunstâncias, tomou a decisão de se aprofundar na cobertura do fato. “A gente poderia se restringir a publicar matérias factuais sobre a tragédia, mas optamos também por contar história com a ajuda de diferentes narrativas, estávamos dispostos a ir mais fundo. Neste caso de Campinas, em 2017, um homem invadiu uma festa e matou a mulher, o filho e familiares. A gente foi impactado pela notícia e mandou a melhor equipe para o local do crime, onde descobrimos que não era exatamente uma chacina: foi o maior feminicídio já ocorrido no Brasil”, disse Olívia.

Conteúdo aliado

As plataformas digitais estão abertas para que os jornalistas incrementem a maneira de contar histórias. Uma mensagem não precisa necessariamente se limitar à escrita. “Não interessa se vai ser por meio de um áudio, um vídeo, se é um tweet que lacrou e virou hit, tudo pode virar notícia e viralizar”, lembrou Gui Prímola, editor de Arte do Metrópoles. Ao exibir alguns memes publicados pelo portal que acabaram viralizando, Prímola apontou que até o humor é um aliado na produção de conteúdo jornalístico.

A certa altura, o editor chamou ao palco o ator Phillipe Berlinck, que faz a imitação do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Ambos participam do podcast semanal Barraco Armado no Planalto, produzido e divulgado pelo portal, que repassa a semana política a partir do humor. No esquete, imitadores de Lula, Dilma e Bolsonaro dialogam sobre política. “A gente faz esse podcast semanal e é um trabalho minucioso. Acompanhamos as notícias da semana, trazemos isso para a linguagem do humor e ainda pretendemos informar”, disse o ator.

Michael Melo / Metrópoles
Prímola e Berlinck: parceria do editor de Arte do portal com o ator leva informação semanal aos internautas com leve tom de humor político

 


Veja o podcast semanal:

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