Choro e desculpas: réu detalha chacina do DF e se diz arrependido

No quarto dia do júri da maior chacina do DF, os réus Carlomam dos Santos e Carlos Henrique Alves da Silva detalham os homicídios

atualizado

metropoles.com

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O quarto dia do Tribunal do Júri da maior chacina do Distrito Federal começou, por volta das 9h30 desta quinta-feira (16/4), com o depoimento de Carlomam dos Santos Nogueira, acusado de participar da execução de 10 pessoas de uma mesma família.

Durante depoimento, Carlomam detalhou como o crime bárbaro aconteceu e apontou Gideon Batista de Menezes como a mente por trás do planejamento dos homicídios que chocaram a capital da República. O homem também chorou ao ser indagado sobre arrependimento e disse que era ameaçado por Gideon e Horácio Barbosa, por isso teria participado do crime.

“Voltar atrás não tem como, mas se eu pudesse, talvez teria impedido [as mortes]. Me entrego para cumprir o que eu cometi, mas não quero pagar pelo que não fiz”, disse Carlomam, aos prantos. Ele também mencionou “não ser um monstro”: “Me arrependi”.

Ao detalhar sua participação na chacina, o réu contou que tudo começou no momento em que foi apresentado a Gideon por Fabrício Silva Canhedo, de quem era amigo próximo.

“Entramos no carro do Gideon e ele falou que faríamos um sequestro. Contou que sequestraríamos o dono de uma chácara, e que esse dono era estuprador. Contou também que ele fazia delações. Ou seja, entregava as pessoas. Ele falou que Thiago também era estuprador e entregava as pessoas”, disse.

“A ideia era sequestrar, pegar a chácara e vender. Gideon disse que já tinha comprador”, declarou Carlomam, que disse ter recebido proposta de R$ 500 mil pela participação no crime.

Após topar participar do sequestro, Carlomam disse que as coisas saíram de controle na chácara onde a família vivia. Lá, Gideon e o acusado Horácio Barbosa fingiram ser vítimas para que a família acreditasse no teatro do sequestro. Porém, em determinado momento, Marcos teria reagido, “fazendo com que” Carlomam acionasse “acidentalmente” a arma que atingiu a vítima no pescoço.

Em seguida, conforme Carlomam, Gideon mandou colocar todas as vítimas no carro e levá-las ao cativeiro. No local, Horácio e Gideon desmembraram Marcos. Ao ser indagado pelo juiz responsável pelo caso sobre possível sangue no local, Carlomam informou que “não escorreu muito sangue”. “Teve uns pingos só”, disse o réu.

Durante as declarações, Carlomam contou que ficou assustado em ver Gideon e Horácio desmembrando Marcos. Nesse momento, conforme relatado, o acusado quis fugir, mas disse ter sido ameaçado pelos outros dois envolvidos. Por isso, continuou auxiliando na empreitada criminosa.

Em determinado momento, Carlomam disse que Horácio teria usado um aplicativo que altera voz para fingir ser Marcos e atrair Thiago Belchior, filho da primeira vítima, para a emboscada. Gideon, então, sequestrou Thiago e o levou ao cativeiro. Segundo Carloman, Thiago foi morto dias depois por Horácio, por enforcamento.

Após sequestrar todos os integrantes da família, em 12 de janeiro de 2023, os criminosos começaram a matar o restante dos familiares. Na data, segundo as investigações, Carlomam, Horácio e Gideon atraíram Elizamar e os três filhos dela para a emboscada. Em seguida, os levaram para Cristalina (GO), onde asfixiaram as vítimas e queimaram o carro da cabeleireira.

Carlomam contou que discutiu com os outros réus por não concordar com a maneira como as crianças foram mortas.

Nesse momento, ao ser questionado pelo juiz sobre o motivo de ele não ter feito nada, o réu declarou que não pode mais mudar o que aconteceu, mas se pudesse fazer diferente, teria impedido as mortes

Após as últimas mortes – de Cláudia, Ana Beatriz e Thiago – cujos corpos foram levados por Carlomam e Horácio para uma cisterna, o réu contou que percebeu que Horácio estava desarmado e fugiu. Na data, toda a família já havia sido exterminada.

Depois da fuga, Carlomam narrou que passou a acompanhar as notícias que saiam sobre o caso. Ao verificar que a Polícia Civil do Distrito Federal teria oferecido recompensa de R$ 20 mil para quem denunciasse ou contribuísse “de forma efetiva” para a prisão dele, o envolvido compareceu a 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião) e se entregou. Posteriormente, foi levado à 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá), responsável pelas investigações à época.

“Fiquei com medo de acharem que eu era faccionado e me matarem”, declarou.

Júri

O Júri da chacina teve início na segunda-feira (13/4), por volta das 10h, e se estendeu até as 20h daquele dia, com depoimentos colhidos de 6 testemunhas. Conforme informado pelo Ministério Público, o Júri deve ser encerrado em 18 de abril, caso as oitivas não terminem antes.

No segundo dia do julgamento, 12 testemunhas, entre familiares e policiais que atuaram no caso, foram ouvidas no local até as 21h. No total, 18 pessoas prestaram depoimento.

Conforme informado pelo Tribunal de Justiça do DF (TJDFT), não há previsão da escuta de novas testemunhas, com exceção do delegado Ricardo Viana, que foi convidado a depor novamente após as declarações dos réus. Viana comandou a investigação do crime em janeiro de 2023, quando ainda estava lotado na 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá).

No terceiro e quarto dia, réus detalham participações no crime.


Sentam no banco dos réus os seguintes acusados:

  • Gideon Batista de Menezes: apontado como um dos principais articuladores do plano;
  • Horácio Carlos Ferreira Barbosa: atuou diretamente nos assassinatos;
  • Carlomam dos Santos Nogueira: participou dos sequestros e execuções;
  • Fabrício Silva Canhedo: responsável pela vigilância do cativeiro em parte do período;
  • Carlos Henrique Alves da Silva: participou da rendição de vítimas.

O quinteto foi transferido para o tribunal sob escolta da Polícia Penal e, apesar de estarem lado a lado, não podem se comunicar durante a sessão.

De acordo com a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), se condenados, os acusados podem ter até 358 anos de prisão.

Eles respondem por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.


Entenda o caso

  • Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, e também obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
  • Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil.
  • As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina, onde Marcos foi morto e enterrado.
  • No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
  • Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
  • O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
  • Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
  • Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
  • Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações

Mais sobre o caso

Avaliado em R$ 2 milhões, o terreno no Itapoã que motivou os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas tem cachoeira privativa, ampla área de capim de gado e cerca de 5 hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.

O plano, então, era assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar qualquer herdeiro vivo. O terreno, no entanto, nem sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.


Os integrantes da família, então, foram atraídos para emboscadas e assassinados um por um. São eles:

  • Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca
  • Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos
  • Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal
  • Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal
  • Elizamar da Silva – esposa de Thiago
  • Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar
  • Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos
  • Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia

A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro, em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.

A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família.

Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.

Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os três filhos pequenos do casal.

Os quatro foram levados até Cristalina (GO), onde foram mortos, e os corpos, queimados dentro de um carro.

Na sequência, os acusados mataram as demais vítimas mantidas em cativeiro para evitar que os crimes fossem descobertos. Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram assassinadas.

Por fim, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram mortos, e os corpos escondidos em uma cisterna.

Todos os detalhes do crime que ficou conhecido como a maior chacina do DF, com as reviravoltas e os mistérios que cercaram o caso, foram detalhadas na reportagem especial “O Fim de uma Família”.

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