Réu apontado como mentor nega ter planejado chacina do DF
Primeiro acusado a depor no Tribunal do Júri foi Gideon Batista de Menezes. O réu é apontado como um dos principais articuladores do plano
atualizado
Compartilhar notícia

Mais de três anos após o crime que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, os réus detalham, pela primeira vez no Plenário do Tribunal do Júri, suas participações no extermínio de 10 pessoas de uma mesma família. Os homicídios, segundo as investigações, foram motivados por uma chácara localizada no Itapoã (DF), avaliada em R$ 2 milhões, que nem sequer pertencia aos mortos.
Primeiro acusado a depor foi Gideon Batista de Menezes, o réu é apontado como um dos principais articulares do crime. Ele morava na chácara das vítimas, onde prestava serviços gerais à família. Na época do crime, em depoimento na delegacia, o acusado confessou que, junto a Horácio, planejou e alugou a casa onde manteve as vítimas escondidas antes de matá-las.
No entanto, durante depoimento em juízo, ele negou ter planejado a chacina e alegou ter sido coagido a participar dos homicídios. Também disse que teria sido torturado para confessar o crime. O juiz, então, disse que irá pedir investigação e, que se isso não tiver acontecido, ele será responsabilizado.
Gideon culpou, ainda, uma das vítimas – Thiago Belchior. Conforme informou o réu, Thiago teria agido em conluio com Carloman dos Santos e um adolescente.
Segundo Gideon, ele não se reuniu com os envolvidos. Disse conhecer apenas os réus Horácio Barbosa e Fabrício Canhedo. Também falou que ajudou a desfazer dos corpos, porém, teria feito tudo “sob ameaça”. Inclusive, declarou que Thiago foi quem mandou esquartejar o próprio pai, Marcos de Oliveira.
Em determinado momento, Gideon também declarou que Horácio estava sendo coagido para cometer os crimes. Em outro momento, disse que Horácio matou Thiago. “Só tive contato com Horácio e foi isso que ele contou”, declarou.
Durante fala, Gideon contou que foi levado ao cativeiro e amarrado lá. Depois, foi colocado para participar do sequestro de Cláudia da Rocha Marques e Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia.
Em seguida, Gideon falou que foi obrigado a colocar o corpo de Renata e Gabriela em um carro. “Elas já estavam mortas. Falaram para eu colocar no veículo e puxar o freio de mão. Nessa hora, senti um calor e meu braço começou a queimar. Colocaram fogo no carro, mas não sei quem foi”, declarou.
Após ser queimado, Gideon contou que foi “autorizado a sair do cativeiro”.
Ao ser indagado pelo juiz sobre o motivo de não ter procurado uma delegacia para denunciar os crimes, Gideon respondeu: “Eu vou chegar na delegacia, um ex-presidiário. Eu seria morto ali mesmo, talvez”.
Julgamento
Sentam no banco dos réus os seguintes acusados:
- Gideon Batista de Menezes: apontado como um dos principais articuladores do plano;
- Horácio Carlos Ferreira Barbosa: atuou diretamente nos assassinatos;
- Carlomam dos Santos Nogueira: participou dos sequestros e execuções;
- Fabrício Silva Canhedo: responsável pela vigilância do cativeiro em parte do período;
- Carlos Henrique Alves da Silva: participou da rendição de vítimas.
O quinteto foi transferido para o tribunal sob escolta da Polícia Penal e, apesar de estarem lado a lado, não podem se comunicar durante a sessão.
De acordo com a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), se condenados, os acusados podem ter até 358 anos de prisão.
Eles respondem por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, e também obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira.
- O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil.
- As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina, onde Marcos foi morto e enterrado.
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias.
- Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere.
- Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
Mais sobre o caso
Avaliado em R$ 2 milhões, o terreno no Itapoã que motivou os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas tem cachoeira privativa, ampla área de capim de gado e cerca de 5 hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.
O plano, então, era assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar qualquer herdeiro vivo. O terreno, no entanto, nem sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área
Os integrantes da família, então, foram atraídos para emboscadas e assassinados um por um. São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos
- Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia
A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro, em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.
A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família.
Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.
Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os três filhos pequenos do casal.
Os quatro foram levados até Cristalina (GO), onde foram mortos, e os corpos, queimados dentro de um carro.
Na sequência, os acusados mataram as demais vítimas mantidas em cativeiro para evitar que os crimes fossem descobertos. Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram assassinadas.
Por fim, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram mortos, e os corpos escondidos em uma cisterna.
Todos os detalhes do crime que ficou conhecido como a maior chacina do DF, com as reviravoltas e os mistérios que cercaram o caso, foram detalhadas na reportagem especial “O Fim de uma Família”.




















