Chacina: promotor diz que réus praticaram “familicídio”. Entenda termo
Para promotor do MPDFT, as 10 mortes da mesma família, em 2023, perpassa o conceito de chacina e indica crime ainda mais grave e brutal
atualizado
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Promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), Nathan Neto enxerga a chacina que matou 10 pessoas da mesma família na capital, em 2023, de maneira ainda mais grave. Para Neto, o crime pode ser considerado um familicídio.
A declaração foi dada nesta quinta-feira (16/4), no quarto dia de julgamento dos cinco réus que participaram da barbárie há pouco mais de três anos. A tarde foi reservada para debates, e MP e assistente de acusação se posicionaram perante os jurados.
“Temos diante de nós uma ação orquestrada por meses, planejada nos mínimos detalhes, com destinação de local, recursos, veículos, armas, pessoas mancomunados para praticar o mal”, definiu o promotor Nathan Neto.
“Isso é muito mais que uma chacina, esse caso transborda o conceito técnico de chacina. Temos aqui o que estudiosos chamam de familicídio: a morte de uma família inteira. Um caso que marca negativamente a história do DF e do Centro-Oeste.”
Ainda pouco difundido, o conceito de familicídio refere-se ao assassinato de pessoas da mesma família.
“É algo monstruoso. Não há nomes suficientes, não há categoria capaz de expressar todos os sentimentos diante deste caso”, declarou Nathan.
“Depois de 3 anos é fácil vir chorar”
Ainda nesta quinta-feira (16/4), o promotor foi enfático ao declarar que os cinco réus tiveram participação fundamental na trama criminosa e que não é possível eximi-los de responsabilidade.
“Depois de três anos é fácil vir chorar aqui sabendo que 300 anos de cana esperam por eles. Mas, na época, estavam ‘cegos, surdos e mudos’ diante do mal e prosseguiram até o fim. Poderiam ter declinado disso tudo quando viram Marcos sem cabeça”, ilustrou, relembrando que os réus choraram durante depoimento na quarta-feira (15/4).
“Eu não acredito que eles [os réus] disseram absolutamente tudo. Do ponto de vista humano, é razoável deduzir que eles vão buscar aqui a melhor situação processual para eles. Vão confessar, mas vão lavar as mãos. Vão assumir as responsabilidades até certo ponto”, afirmou o promotor.
“Todos usaram a mesma estratégia porque não têm para onde correr. Tem digital, exame gráfico no caderno de anotações com as senhas das vítimas, digital em veículo, imagem… como negar envolvimento?!”, questionou.
O júri segue nesta sexta-feira (17/4) com declarações das defesas de Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, e também obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil.
- As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina, onde Marcos foi morto e enterrado.
No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares. - Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal. - Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
Saiba quem foram as vítimas
Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um. São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos
- Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia
