Promotor sobre réus de chacina: “Depois de 3 anos é fácil vir chorar”

Representante do MPDFT classificou como “caôzinho” as declarações de defesa dos cinco réus e chamou os acusados de “monstros”

atualizado

metropoles.com

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O julgamento da maior chacina do Distrito Federal, que acabou com 10 pessoas da mesma família brutalmente assassinadas, entrou em fase de debates nesta quinta-feira (16/4). Durante a tarde, foi a vez do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) e da assistência de acusação discursar aos jurados.

O promotor Nathan Neto foi incisivo ao declarar que os cinco réus tiveram participação direta nos crimes praticados entre 2022 e 2023. Segundo ele, a participação de todos os envolvidos “foi fundamental ”.

“Depois de três anos é fácil vir chorar aqui sabendo que 300 anos de cana esperam por eles. Mas, na época, estavam ‘cegos, surdos e mudos’ diante do mal e prosseguiram até o fim. Poderiam ter declinado disso tudo quando viram Marcos sem cabeça”, ilustrou.

A afirmação do promotor visa contrapor os depoimentos da maioria dos réus, que declarou não ter envolvimento na trama criminosa. Neto chegou a classificar como “caôzinho” e “papinho” as declarações dos acusados.

“Eu não acredito que eles [os réus] disseram absolutamente tudo. Do ponto de vista humano, é razoável deduzir que eles vão buscar aqui a melhor situação processual para eles. Vão confessar, mas vão lavar as mãos. Vão assumir as responsabilidades até certo ponto”, afirmou o promotor.

“Gideon, num cinismo absurdo, chega a culpar o filho de Marcos. É, verdadeiramente, o mais cínico de todos. Tem potencial de praticar males indizíveis e ainda tem a cara de pau de acusar inocentes. É de uma hediondez absurda”, refletiu Neto.

O promotor disse, ainda, que um dos reús, Horácio Barbosa, sequer teve coragem de falar no júri. “Ele [Horácio]  se anula fielmente para seguir as ordens de Gideon. Fabrício, por sua vez, quer lavar as mãos de tudo, mas viu Marcos agonizar por sua vida, soube do esquartejamento e seguiu alinhado a Gideon e Horácio. Como alguém sabendo do esquartejamento de um indivíduo prossegue naquela empreitada dizendo que não sabia de nada?, questionou.  E continuou: “Fabrício é tão sujo quanto Gideon e Horácio. Fabrício quer lavar as suas mãos, mas é um monstro da mesma grandeza de Gideon e Horácio.”

“Todos usaram a mesma estratégia porque não têm para onde correr. Tem digital, exame gráfico no caderno de anotações com as senhas das vítimas, digital em veículo, imagem… como negar envolvimento?!”, questionou.

O promotor Marcelo Leite definiu toda a chacina em três palavras: “Perversidade, mentira e covardia”. “A covardia não se limita, aparece também nos interrogatórios. Ficamos 5, 6 horas ouvindo aqui o Sr. Gideon, um monstro, dizendo que quem matou as crianças foi o Thiago. Um cinismo. Um sujeito que se acha inteligente. Está enganando quem? Não tem nenhum idiota aqui”, declarou Leite. “O senhor nunca mais sai da cadeia”.

O promotor também mostrou vídeos do depoimento dos réus e fez pausas para apontar contradições nas falas registradas logo após o crime, em 2023, e no júri, nessa quarta-feira (15/4). “Chore muito mais na cadeia, Sr. Horácio. Espero que não consiga dormir nunca mais”. Horácio assistiu atento à apresentação.

Antes do promotor Nathan Neto, o assistente de acusação João Darc se dirigiu aos acusados como “reencarnação de Lúcifer”, momento em que foi interrompido pelas defesas dos réus. Ele encerrou sua a fala pedindo que os jurados os olhassem nos olhos e imaginassem os cenários dos crimes.

Nesta quinta-feira (16/4), a tarde foi reservada para debates. O julgamento prossegue nessa sexta-feira (17/4) com apresentação da defesa dos acusados e com novo depoimento do delegado da Polícia Civil do DF (PCDF) Ricardo Viana, que comandou a investigação do crime em janeiro de 2023.

Entenda o caso

  • Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, e também obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
  • Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil.
  • As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina, onde Marcos foi morto e enterrado.
    No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
  • Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
    O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
  • Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
  • Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
  • Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações

Saiba quem foram as vítimas

Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um:

  • Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca
  • Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos
  • Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal
  • Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal
  • Elizamar da Silva – esposa de Thiago
  • Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar
  • Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos
  • Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia

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